Mercadores da Noite #33 - Reforma da reforma, da reforma

13 de dezembro de 2017
Eu já vi um filme parecido antes

Mercadores da Noite

Caro leitor,

Perdeu, presidente Michel Miguel Elias Temer Lulia. Perdemos nós, 208 milhões de brasileiros. É muito difícil votar, ainda em 2017, uma proposta de reforma da Previdência minimamente impactante nas contas públicas. Se sair alguma coisa, para o governo não levar um 7 a 1 desmoralizante, será uma jabuticaba que não valerá o preço pago por ela.
 
Mesmo em 2018, se a reforma vier, será um remendo tão precário que precisaremos de uma reforma da reforma no primeiro ano de mandato do sucessor de Lulia (é “Lulia” mesmo, copidesque), seja ele quem for. Alguns dizem que até o outro, sem o “i”, poderá ser eleito para um terceiro mandato. Só que será preciso combinar com os eleitores e, principalmente, com os russos. Refiro-me aos russos do TRF da 4ª região.
   
Na verdade, para que uma reforma digna do nome seja implantada, será necessário que os eleitores ponham no Planalto um candidato que diga, sem meias palavras, algo como:
  
“Logo no início de meu mandato, vou encaminhar às duas casas do Congresso uma Proposta de Emenda Constitucional que equilibre de vez as contas previdenciárias.”

Em seu último ano de governo, Temer, embora jamais irá admiti-lo, terá apenas um objetivo: cumprir seu último ano de governo. Não poderá nem renunciar, pois nesse caso perderá o único bem precioso que lhe resta: o foro privilegiado.

Eu já vi um filme parecido antes. Sarney, mesmo com a popularidade que desfrutou durante os oito meses e meio de (falso) sucesso do Plano Cruzado, popularidade essa que Miguel não teve (nem vai ter) um dia sequer, trocou todos os seus trunfos por um ano a mais de mandato.

Nas eleições de 15 de novembro de 1986, José Ribamar Ferreira de Araújo (nome com o qual Sarney foi batizado) poderia ter feito inúmeras reformas, pois conseguiu maioria de 80 por cento nas casas do Congresso. Ainda mais que se tratava de uma Assembleia Nacional Constituinte. Mas preferiu o tal ano de bonificação.

Em vez de ficar trocando votos por nomeações e liberação de verbas, Henrique Meirelles, Michel Lulia e Ilan Goldfajn poderiam ter “chantageado” os congressistas. Bastava que o Banco Central condicionasse a redução dos juros à reforma da Previdência.

Não se vexe, caro leitor, com minha sugestão aparentemente obscena. Há precedentes. E precedentes de respeito. O Bundesbank, que era o banco central da Alemanha antes do advento do euro, cansou de fazer isso: chantagear os agentes políticos, econômicos e os meios sindicais.

Se havia, por exemplo, uma greve dos metalúrgicos exigindo aumento de salários, o Bundesbank, temendo uma reação em cadeia e seu impacto inflacionário, ameaçava sem meias palavras:

“Nós não reduziremos as taxas de juros caso a greve continue”, dizia o porta-voz do banco. Temendo uma recessão por causa dos juros, os líderes sindicais terminavam a greve.

“Após a próxima reunião do Bundesbank, haverá uma coletiva de imprensa…” Era com essa mensagem singela de seu porta-voz que o banco central alemão anunciava que os juros continuariam caindo para estimular a atividade econômica. Assim funcionava o “toma lá, dá cá” da terra de Bismark.

Michel Miguel tem o hábito de pagar na frente para receber a mercadoria lá adiante. É verdade que ele tinha outros pleitos pessoais que foram atendidos por deputados e senadores. Desnecessário listá-los aqui.

No fim de semana de 18 e 19 de maio de 2013, durante o governo Dilma Rousseff, que, justiça seja feita, não teve nenhuma culpa no incidente, uma série de boatos deu conta de que o Bolsa Família iria acabar.

Os rumores correram de boca em boca, de celular em celular. Resultado: corrida às agências bancárias, cujas máquinas 24 horas ficaram sem dinheiro. Houve correria, vidraças quebradas. E eram apenas boatos, sem o menor fundamento. Tanto é assim que, quando a ordem foi restabelecida, e os caixas eletrônicos abastecidos, todo mundo pôde receber.

Agora, imaginemos, sem nenhum espírito terrorista, que, durante este ano de 2017, em determinado mês o governo federal, dando uma de Bundesbank, tivesse anunciado que as pensões e aposentadorias do INSS seriam pagas “a partir” do quinto dia útil de cada mês e não “até” o quinto dia útil de cada mês.

“O INSS ficou provisoriamente sem caixa”, diria um porta-voz do Planalto. Com o déficit atual, cumprir as obrigações previdenciárias está se tornando cada vez mais difícil. Qualquer dia desses...”, o porta-voz pararia por aqui.

Nessa hipótese, todo mundo, e não apenas meia dúzia de esclarecidos, entenderia que o déficit da Previdência realmente existe e que, se a reforma não vier logo, em dois ou três anos o INSS terá mesmo de atrasar os pagamentos. Ou então o Tesouro irá pôr em ação as rotativas da Casa da Moeda, gerando um novo período inflacionário no país −− o último durou 36 anos, apesar dos choques, congelamentos, troca de nomes da moeda, corte de zeros, tablitas deflacionárias e confiscos.

Com relação a um atraso dos pagamentos, sinalizador da crise, Michael has no balls to do it (em inglês não fica tão indecente).

O Brasil entra agora naquele limbo político-econômico. São as festas de fim de ano, o recesso do Congresso, as férias e o Carnaval, período no qual não se decide nada. De novidade, apenas o julgamento em segunda instância do Lula em Porto Alegre, no mês que vem.

Em nome do governo, quem negocia agora as reformas é o deputado, e futuro ministro, Carlos Eduardo Xavier Marun. Na política, apenas Carlos Marun.

Para quem se esqueceu, Marun é aquele que ficou ao lado de Eduardo Cunha até o fim, defendendo sua inocência e probidade (o microfone, as câmeras, o papel e o teclado aceitam tudo), negando suas contas no exterior, etc., etc.

O resultado da batalha de Marun diz tudo: 450 deputados votaram a favor da cassação de Cunha, 10 foram contra e nove se abstiveram.

Que Marun é fiel aos que o ungem, ninguém duvida. Mas sua escolha para defender a reforma da Previdência equivale a convocar Luiz Felipe Scolari para ser o treinador da seleção no próximo Brasil x Alemanha.  

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Nas newsletters “Os Mercadores da Noite” e “Warm Up Inversa”, Ivan dá sugestões investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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