Mercadores da Noite #213 - No rastro da manada

Ivan Sant'Anna Publicado em 26/02/2021
6 min
O mercado não é como um rio que, por mais que faça voltas e mais voltas, acaba seguindo na mesma direção. Nem é como o mar que vem e vai no ritmo da maré, que depende da lua e pode ser até representada em tabela.
  • Nota do editor: o Ivan Sant'Anna, que está em férias em fevereiro, nos deu acesso exclusivo a seu acervo inédito de crônicas sobre o mercado. Esta que você lê agora é uma delas. Aproveite-a! Ao longo do mês, publicaremos mais ‘relíquias literárias’ do mestre, escritor e trader nas próximas edições da Mercadores da Noite.

 

Caro(a) leitor(a),

Seria lógico definir os super traders como sendo aqueles que têm a todo momento opiniões próprias e bem definidas, sempre alicerçadas na mais profunda convicção. Por outro lado, operadores medianos (para não dizer ‘medíocres’), seriam os que seguem apenas a opinião dos outros, apenas mais um búfalo da manada. Certo?

Errado, meu caro leitor. Errado!

A manada é que dita a direção e a velocidade do mercado. A manada é que vira e volta de uma vez só. Será sempre necessário segui-la, para não ser esmagado pelo tropel.

O verdadeiro trader é aquele que sabe não ser coerente, que muda de opinião, que descobre, cedo o bastante, que suas análises e estratégias estavam erradas. Se errar é humano, e inevitável, no amplo universo do mercado, corrigir a tempo o erro, transformando-o em acerto, é fundamental.

“Bem, reconheço que, ontem à noite, eu disse que o negócio era comprar, mas, honestamente, acho que o mercado vai cair”, admite o chefe da mesa, o ‘espada’ da firma, contratado a peso de ouro, simulando estar envergonhado. Isso, é lógico, após ter revertido sua posição.

“Errei”, “mudei”, essas palavras são o segredo do negócio. Embutem um mix de modéstia e genialidade.

Alguns livros de autoajuda e sites de asneiras sem fim que inundam a internet têm o hábito de afirmar que, se você quer alguma coisa com enorme empenho e força de vontade, ela inevitavelmente vai acontecer.

Pode até ser que isso seja verdade em alguns ramos de negócio ou em determinadas profissões. Um maratonista magro e com a compleição física adequada ao esporte, por exemplo, vai acabar vencendo uma prova importante se se esforçar ao máximo.

No nosso mercado, eu garanto, em meio à dança das cotações, querer ou não querer, individualmente, não faz a menor diferença.

As cotações obedecem àquilo que a maioria quer ou pensa – e a maioria é movida por ambição e medo −, mesmo que o opositor dessa corrente ou tendência tenha a tenacidade de um maratonista. O mercado não é como um rio que, por mais que faça voltas e mais voltas, acaba seguindo na mesma direção. Nem é como o mar que vem e vai no ritmo da maré, que depende da lua e pode ser até representada em tabela.

O mercado é rebelde, ingovernável, maquiavélico, cruel, traiçoeiro. Fica até mais fácil prever os fatos observando o mercado do que prever o mercado observando os fatos.

Quando os preços não obedecem aos fundamentos, siga os preços. Estes, com raras exceções, como no caso de um assassinato político, surgem à tona antes dos fatos.

Já que o assunto é cópia, despersonalização meritória, acho importante confessar que tirei o tema deste artigo quando voava entre São Paulo, onde fui fazer uma palestra, e o Rio de Janeiro, lendo A Consciência de Zeno (La coscienza di Zeno) do genial escritor italiano Italo Svevo (1861-1928), oriundo de um rica família de homens de negócios.

No capítulo sete do livro, intitulado História de uma sociedade comercial, Svevo assim descreve o personagem Guido:

O principal defeito de Guido era uma estranha avareza, ele que fora dos negócios se mostrava tão generoso. Quando um negócio se revelava bom, liquidava-o apressadamente, ávido de realizar o pequeno lucro daí provindo. Quando, ao contrário, se encontrava num negócio desfavorável, só decidia o momento de sair quando os efeitos já abalavam o seu patrimônio. Por isso creio que os seus prejuízos sempre foram relevantes e mínimos os seus lucros. As qualidades de um comerciante não são mais do que as consequências de todo o seu organismo, da ponta dos cabelos às unhas dos pés. A Guido se aplicaria perfeitamente uma expressão dos gregos: ‘astuto imbecil’. Verdadeiramente astuto, mas um autêntico palerma – veramente astuto, ma anche veramente uno scimunito – Era cheio de astúcias que só serviam para lubrificar o plano inclinado sobre o qual deslizava cada vez mais para baixo.”

Italo Svevo não foi um escritor qualquer. Basta dizer que seus textos eram lidos, e revisados, ainda em manuscrito, pelo irlandês James Joyce, por muitos considerado como o maior escritor de língua inglesa nos tempos modernos.

Joyce ajudou Svevo a traduzir A Consciência de Zeno para o inglês e o francês.

Quem sabe algum trader do mercado americano de ações leu o livro, publicado em 1923, e, tirando lições – sobre o que não se deve fazer – da passagem do personagem Guido, usufruiu, como touro, da alta da bolsa nos Esfuziantes Anos Vinte (The Roaring Twenties) e depois, vestindo a pele do urso, surfou na gigantesca onda de baixa ao longo da Grande Depressão que só veio a terminar em 1939.

É bem possível, e até provável, que o ambiente mercantil no qual Svevo viveu o tenha ajudado a ver as coisas sempre com pluralidade. Trieste, por exemplo, sua cidade de nascimento e criação, alternou-se politicamente, ora pertencendo ao Império Austro-Húngaro, ora à Itália, ora sendo um Estado autônomo.

A mãe de Italo era judia. O pai, cristão, comerciante de vidros.

Depois de seguir, ao longo de 35 anos, os preceitos da religião judaica, Italo Svevo se converteu ao catolicismo. Seu verdadeiro nome era Aron Hector Schmitz, que alterou para Ettore Schmitz, mas assinou seus livros com o pseudônimo de Italo Svevo.

Antes de ser escritor, Aron, ou Hector, ou Italo, trabalhou como trader. Sim, como trader. No Union Bank de Viena.

Era, portanto, do ramo. Com certeza foi isso que lhe facilitou conceber um personagem tão interessante como Guido, o astuto imbecil.

Dual, plural, advogado do diabo, espírito de porco, do contra, tudo isso um verdadeiro trader, com “T” em caixa-alta, tem de ser.

Por outro lado, jamais – e essa é uma das regras básicas para ter sucesso na profissão de mercador do dinheiro – poderá envolver-se emocionalmente com sua posição. Precisará ser tão frio como uma lápide de mármore à noite.

Seu preço de compra, ou de venda, terá de ser sempre aquele que o mercado exibe no momento. Seu objetivo, pular fora quando o mercado virou. Sempre e humildemente operando no rastro da manada.

Abraço e um ótimo fim de semana,

Ivan Sant’Anna

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