Mercadores da Noite #211 - Adágios

Ivan Sant'Anna Publicado em 13/02/2021
6 min
O mercado é mais uma arte do que uma ciência exata. Seu comportamento é regulado por emoções: ganância, medo, inveja, tentação, precipitação... Dominar esses sentimentos é o segredo de todo trader bem sucedido.
  • Nota do editor: o Ivan Sant'Anna, que está em férias em fevereiro, nos deu acesso exclusivo a seu acervo inédito de crônicas sobre o mercado. Esta que você lê agora é uma delas. Aproveite-a! Ao longo do mês, publicaremos mais ‘relíquias literárias’ do mestre, escritor e trader nas próximas edições da Mercadores da Noite.

Caro(a) leitor(a),

Os traders internacionais têm a mania de citar adágios. Para cada situação de mercado, há sempre alguém que surge com um deles.

Entre os provérbios dos quais os profissionais se valem a todo momento, o que, em minha opinião, encerra mais sabedoria é: Cut your losses, let your profits run. Aportuguesando e alongando, “se o mercado corre no sentido contrário ao de sua posição, pule fora. Mas, se vai na mesma direção, se abrace ao seu trade, grude-se nele como uma craca no casco de um barco.”

Pois é, caro(a) leitor(a), seja touro na alta e urso na baixa. Só que a máxima, embora fácil de recitar, é difícil de cumprir. Exige muita disciplina.

Imaginemos um trader optando por uma posição totalmente ao acaso, de maneira displicente, jogando uma moedinha para cima. Mesmo assim, é óbvio, ele terá 50% de chances de acertar a tendência. Isso mesmo. Cinquenta por cento. Quer tentar? Escolha você o mercado e jogue a moeda. Se der cara, compre, vire touro. Se der coroa, venda a descoberto, torne-se um urso.

Como o mercado vai ter de se mover para algum lugar (nunca ouvi falar de um que ficou parado), suas chances de ganhar serão rigorosamente iguais às de perder.

É verdade que você irá pagar corretagens e, muito provavelmente, terá seu preço onerado por slippage – nome que se dá ao spread entre os preços oferecidos pelos compradores, de um lado, e pelos vendedores, de outro.

Mesmo assim, o ônus é coisa pouca. E, convenhamos, o(a) leitor(a) não é operador de moedinhas. Isso foi só um exemplo. Você, suponho, conhece o mercado ou se orienta por alguém que conhece. E esse know-how é no mínimo suficiente para que possa superar o spread.

Então, se a coisa é simples, por que será que, às veze,s torna-se tão difícil ganhar dinheiro no mercado? Se apenas na base da sorte já daria para empatar, por que será que é preciso estudo, experiência, perseverança e dedicação, seja de sua parte, seja do gestor de suas aplicações?

Simples. Porque o próprio mercado nos induz ao erro. Dá sinais de que vai subir, mas cai. Pois não é feito apenas de conhecimento. É mais uma arte do que uma ciência exata. Seu comportamento é regulado por emoções: ganância, medo, inveja, tentação, precipitação... Dominar esses sentimentos é o segredo de um trader bem sucedido.

Existe outro ditado com a mesma significação. Também mostra que controlar as emoções é o segredo do ofício. Refiro-me a “Don't fall in love with your position” (“não se apaixone por sua posição”). Pois é. Boa parte dos investidores, ao assumir um trade, se enamora dele. Os touros tornam-se vidrados na alta. Os ursos, na baixa. E teimosamente se mantêm na arena mesmo quando as chances de vitória são mínimas.

Com os chifres quebrados, os músculos dilacerados, o touro espera o urso fugir. Com as vísceras à mostra, devido a uma chifrada do inimigo, o urso, embora cambaleante, recusa-se a cair. Prefere sofrer de pé. É mais ou menos isso que acontece com gente que não usa stop. Que não pula fora de uma posição que correu para o lado errado.

Nenhuma dessas desgraças ocorrerá se o trader obedecer aos ditames dos dois adágios acima. Pulando fora ao primeiro prejuízo. Não se apaixonando por uma posição perdedora. E eis que me ocorre um terceiro ditado, igualmente sábio: “o primeiro prejuízo é o menor”.

Batendo na mesma tecla, imaginemos um método curioso para atuar no mercado: toda vez que determinado futuro fizer um novo low (do dia, da semana, do mês, do ano, ou de todos os tempos, não importa), fica-se short. Se fizer um novo high, fica-se long. Põe-se um stop logo acima do preço de venda (no caso do urso) ou logo abaixo do preço de compra (no do touro). Com esses stops cirúrgicos, muito não se irá perder.

Mas, se o mercado disparar na direção certa, iniciando um longo movimento de alta ou de baixa, que sempre começa com um novo high ou novo low, essa operação, baseada em técnica tão simples, poderá ser o trade de sua vida.

Já imaginou quem comprou ações da Amazon no dia em que o papel fez seu primeiro high significativo? Durante anos e anos, esse felizardo pôde surfar na onda de novos e sucessivos highs.

Erro tão imperdoável quanto o de não ter stop é liquidar a posição prematuramente, por medo. Sim, por medo de perder o que se ganhou. Desobedecendo a segunda parte do ditado: …let your profits run. E obedecendo a um outro axioma, tão errado quanto estranho: “Lucro nunca dá prejuízo a ninguém”. Se tivesse pensado assim, Jeff Bezos poderia ter posto à venda sua empresa quando ganhou o primeiro bilhão.

Juntando as duas coisas, ausência de stop e a falta de perseverança no lucro, temos o exemplar típico do trader “pé trocado”, ou seja, aquele que é corajoso no prejuízo e covarde no lucro. Segura uma posição perdedora por meses a fio. Sai fora de trade vencedor no primeiro ajuste positivo.

Para não incorrer nesses erros primários, sugiro a você, prezado(a) leitor(a), que mande fazer uma plaquinha com os dizeres “Cut your losses, let your profits run” (nunca é demais repetir). Coloque-a bem à sua frente na mesa de trabalho. E nunca deixe de obedecer ao ditado, não importa o quão desgastante isso possa ser (entrar e sair, entrar e sair, até acertar).

Esse conceito de stops é tão importante que, hoje em dia, rege não só o mercado como o mundo de negócios em geral.

Há uns 15 anos, um empresário carioca, homem de muitos recursos, resolveu adquirir a franquia da cadeia americana Pizza Hut para a cidade do Rio de Janeiro. Abriu cerca de uma dúzia de unidades.

Desde o primeiro dia havia fila na porta dos restaurantes. Os clientes tinham de pegar senha e aguardar a vez para entrar.

Passados uns seis meses, as pizzarias continuavam lotadas. Só que não davam lucro. Mais seis meses, e nada: prejuízo.

O empresário não pensou duas vezes. Convocou todos os gerentes ao seu escritório no Centro da cidade e decretou:

“Fechem tudo. Paguem os direitos trabalhistas de todos os empregados. Amanhã já não abriremos as portas.”

Cut your losses. Let your profits run. É o segredo de qualquer negócio.

Abraço e um ótimo fim de semana,

Ivan Sant’Anna

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