Mercadores da Noite #209 - Bolsonaro não sabe blefar

Ivan Sant'Anna Publicado em 30/01/2021
4 min
Se Bolsonaro soubesse blefar, diria para os caminhoneiros: “Podem parar. É um direito de vocês. Só não vale bloquear as estradas”. Por causa desse comportamento que eu não tenho ações da Petrobras.

Caro(a) leitor(a),

Estou redigindo este texto no meio da tarde de quinta-feira, 28 de janeiro. Portanto ele ainda não embute os acontecimentos de sexta, dia 29.

Alguns segmentos – que se fazem passar por influentes, mas não são – dos sindicatos dos caminhoneiros estão ameaçando o governo com uma greve a partir de segunda-feira, 1º de fevereiro.

Entre as reivindicações, redução nos preços do óleo diesel e prioridade na fila de vacinação contra a Covid-19.

Nessa segunda hipótese, o que irá surgir de caminhoneiros fakes, que já abandonaram a profissão há muitos anos, mas ainda têm a carteirinha de habilitação, não está no gibi. 

Mas vamos por ordem. Primeiro, o preço do óleo. Este segue uma fórmula tão simples como óbvia: cotação do crude oil no mercado internacional x valor do dólar contra o real.

Digamos que surja um squeeze no fornecimento de óleo cru causado por um evento inesperado. Como:

- Súbita onda de frio na Costa Leste americana, que aumente a demanda por óleo de aquecimento (heating oil).

- Forte queda nos estoques estratégicos de petróleo dos Estados Unidos.

- Incidente no golfo Pérsico (Irã afunda petroleiro saudita, ou vice-versa).

− Incêndio numa grande plataforma.

Pronto: na Nymex o preço do barril de WTI (Western Texas Intermediary) dispara, o mesmo acontecendo com o tipo brent no mercado de Londres.

Segundo sua metodologia de administração, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, cujo compromisso é com os acionistas da empresa (incluindo a União), e não com o Palácio do Planalto, reajusta o preço dos combustíveis.

Imediatamente Bolsonaro (lembre-se de que isso é apenas uma suposição) determina que a companhia anule o aumento.

No governo Michel Temer, a Petrobras tinha como presidente o eficientíssimo Pedro Parente. Da mesma estirpe de Castello Branco.

Na ocasião, houve uma alta no preço do barril. Ela foi imediatamente repassada aos preços dos derivados, entre eles o óleo diesel.

Em protesto, os caminhoneiros não só pararam de trabalhar como bloquearam as estradas, fazendo filas duplas e triplas em diversos pontos estratégicos da malha rodoviária do país.

Entre os que surgiram nos piquetes, para manifestar apoio aos grevistas, estava um deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, ninguém menos do que o capitão Jair Bolsonaro.

Pois bem, o movimento cresceu, ameaçando o abastecimento do país. Temer baixou as calças.

Parente, como seria de se esperar, imediatamente pediu demissão.

O preço do diesel nos postos desceu na marra, em detrimento dos lucros da Petrobras.

Isso aconteceu em maio de 2018.

Se Bolsonaro entendesse alguma coisa de estrada, saberia que, para caminhoneiros, fevereiro e maio são duas coisas completamente diferentes.

Entre o início de janeiro e fim de abril, falta caminhão, principalmente carretas, treminhões e rodotrens. É a época do escoamento da safra de grãos.

Já em maio, começa a época de escassez de fretes. É tempo de preparo da terra e de plantio na lavoura que será colhida no ano seguinte. 

Pois foi em maio que aconteceu a greve no governo Temer.

Lá para o fim do ano, principalmente em outubro e novembro, os caminhões (agora baús) são muito procurados por causa da Black Friday e do Natal.

Eu sei dessas coisas porque, para escrever meu livro Carga Perigosa (editora Objetiva, 2002), viajei numa carreta Scania durante 40 dias, percorrendo os estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre, indo e voltando várias vezes.

Mais tarde, trabalhei durante quatro anos na TV Globo, como roteirista da série Carga Pesada. Lá também aprendi um bocado, já que tinha de escrever sobre o assunto.

Se Bolsonaro soubesse blefar, diria para os caminhoneiros: “Podem parar. É um direito de vocês. Só não vale bloquear as estradas e impedir aqueles que quiserem trabalhar de fazê-lo.”. Bastava isso.

Por causa desse tipo de comportamento de dono do que não é dele que não tenho em meu portfolio particular ações da Petrobras.

A qualquer momento, e não tenho certeza se isso vai acontecer desta vez, a semiestatal pode virar refém dos caminhoneiros.

Ou, pior, cair nas mãos de algum político do Centrão.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana.

Ivan Sant’Anna

A Inversa é uma Casa de Análise regularmente constituída e credenciada perante CVM e APIMEC.

Todos os nossos profissionais cumprem as regras, diretrizes e procedimentos internos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Instrução 598, e pelas Políticas Internas estabelecidas pelos Departamentos Jurídico e de Compliance da Inversa.

A responsabilidade pelas publicações que contenham análises de valores mobiliários é atribuída a Felipe Paletta, profissional certificado e credenciado perante a APIMEC.

Nossas funções são desempenhadas com absoluta independência, não sendo dotadas de quaisquer conflitos de interesse, e sempre comprometidas na busca por informações idôneas e fidedignas visando fomentar o debate e a educação financeira de nossos destinatários.

O conteúdo da Inversa não representa quaisquer ofertas de negociação de valores mobiliários e/ou outros instrumentos financeiros. Os destinatários devem, portanto, desenvolver as suas próprias avaliações.

Todo o material está protegido pela Lei de Direitos Autorais e é de uso exclusivo de seu destinatário, sendo vedada a sua reprodução ou distribuição, seja no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa, sob pena de sanções nas esferas cível e criminal.  

Conteúdo protegido contra cópia