Mercadores da Noite #208 - Os trapalhões

Ivan Sant'Anna Publicado em 23/01/2021
5 min
De tempos em tempos, os mercados sofrem influência de erros ou atos irresponsáveis individuais de grande porte, que alteram as cotações dos mais diversos ativos em todo o mundo.

Caro(a) leitor(a),

De tempos em tempos, os mercados sofrem influência de erros ou atos irresponsáveis individuais de grande porte, que alteram as cotações dos mais diversos ativos em todo o mundo.

Nessas ocasiões, os traders deixam de olhar para os fundamentos corriqueiros do dia a dia e passam a acompanhar o que está acontecendo naquele caso específico, mesmo que o teatro da lambança seja a negociação de uma commodity ou de um instrumento financeiro completamente distinto daquele no qual operam.

Vejamos dois exemplos:

Juan Pablo Dávila, de 32 anos, operava no mercado futuro de cobre na bolsa de metais de Londres (London Metal Exchange − LME) para a empresa na qual trabalhava, a CODELCO, chilena, maior mineradora de cobre do mundo. “Operava”, é modo de dizer. Sua função se limitava a vender no mercado futuro parte da produção da CODELCO, para garantir o preço. Ou seja, Dávila era um hedger.

Pois bem, certo dia, no final de 1993, Juan Pablo, ao vender alguns contratos futuros de cobre, se enganou na hora de pressionar as teclas do computador e apertou “compra” ao invés de “venda”. Só quando recebeu o fill (confirmação da operação), Dávila percebeu o erro.

A solução para o caso era óbvia: vender o lote em dobro e realizar o prejuízo ou, quem sabe, até mesmo o lucro (o cobre poderia ter subido desde o instante da operação inicial) e comunicar o caso aos seus superiores.

Mas não. Como o mercado de cobre continuou caindo, Dávila resolveu recuperar o prejuízo fazendo preço “mérdio”. Comprou mais. Caiu mais ainda. E assim por diante, durante vários dias, sem que o hedger, que se transformara em especulador, nada revelasse à diretoria.

Se os corretores em Londres acharam estranho um produtor de cobre comprar cobre futuro, guardaram a estranheza para si. Afinal de contas, todo dia a empresa, além de gerar gordas corretagens para a casa, depositava religiosamente as margens devidas e comparecia com o ajuste.

Só quando o prejuízo se elevou a 200 milhões de dólares é que a direção da CODELCO ficou sabendo. E, tal como fizera seu funcionário, escondeu o fato do governo e do público. Mas, como sempre acontece nessas ocasiões, alguém lá de dentro deu com a língua nos dentes e surgiram rumores. E o caro leitor sabe como são rumores. “A CODELCO quebrou”; “a LME não tem caixa para suportar o tranco”; “o Chile vai declarar moratória de sua dívida externa”.

O mercado inteiro começou a avaliar, e principalmente a superavaliar, a questiúncula. Sim, porque 200 milhões de dólares num mercado mundial de derivativos de mais de 500 trilhões anuais são uma questiúncula. Era como um décimo de milímetro de fio de cobre na fiação de um Airbus A380, aquele “jumbão” de dois andares que pode levar até 800 passageiros.

Logo o mercado se esqueceu da CODELCO e de Juan Dávila. Ele foi julgado por fraude e passou sete anos atrás das grades.

O jovem Nick Leeson (Nicholas William Leeson) trabalhava, na City de Londres, no back office da trading desk do Baring Bank que, em 1992, era o banco em atividade mais antigo do mundo. A instituição detinha inclusive as contas da família real da Inglaterra.

Leeson era bom. Tão bom que foi enviado para a filial de Cingapura, quando surgiram problemas na área de informática, problemas esses que ele resolveu num piscar de olhos.

De seu posto no setor de apoio, Leeson dava pitacos para o pessoal da mesa, que negociava principalmente contratos futuros do índice Nikkei da bolsa de Tóquio. Como os palpites se revelaram lucrativos, Nick não demorou a ser promovido a trader.

O que ninguém esperava é que Nicholas William Leeson se tornasse o melhor operador do banco. O lucro da mesa de Cingapura, operando o Nikkei, era maior do que o das demais trading desks do banco somadas. Nada mais natural do que a diretoria, em Londres, relevar alguns pecadilhos de Leeson, como operar valores muito acima do limite que lhe era autorizado.

“Deixa, deixa ele”, dizia, numa reunião da matriz na City, um diretor para o outro, pensando em seu bônus de fim de ano, fermentado no outro lado do mundo pelo novo gênio, naquela época com apenas 28 anos, um cara que acertava quase todas.

Veio então o inesperado. No dia 17 de janeiro de 1995, houve um terremoto de grande magnitude na cidade japonesa de Kobe, que deixou 6.500 pessoas mortas e 25 mil desabrigadas, além de um prejuízo material de 132 bilhões de dólares. Esse tremor, que não poderia deixar de afetar o mercado de ações, colheu Leeson alavancadíssimo no lado comprado do Nikkei.

O que fez ele? Ao invés de realizar o prejuízo, como seria o certo, imitou seu colega chileno, partindo para o preço “mérdio”, comprando mais e mais contratos do Nikkei. Comprando morro abaixo, um dos maiores erros que um trader pode fazer.

Para driblar os limites que o Baring tinha com a SIMEX (bolsa de futuros de Cingapura), Leeson partiu para um estratagema fraudulento. Pôs as compras na conta “erro”, de nº 88888, que, justamente por ter como finalidade a correção de erros, não tem um teto operacional. Erro é erro, seja lá de quanto for.

O Nikkei continuou caindo e o prejuízo do Baring se elevou a um bilhão e quatrocentos milhões de dólares (no parêntese: os rombos da Petrobras fizeram com que nós, brasileiros, perdêssemos um pouco a noção de proporcionalidade de falcatruas). A fraude da 88888 acabou sendo descoberta e a notícia se espalhou.

Enquanto as bolsas de valores de todo o mundo, com destaque para a de Tóquio, desabavam, Nicholas mal teve tempo de rabiscar um pedido de desculpas e pegar o primeiro avião para Londres. Não chegou lá. Foi preso em uma escala no aeroporto de Frankfurt. Devolvido a Cingapura, cumpriu pena de prisão até 1999.

O Baring Bank só não quebrou porque foi comprado pelo ING, holandês, pelo valor simbólico de uma libra esterlina.

Quanto a Nick Leeson, hoje, além de ser autor de diversos best-sellers, ganha bom dinheiro num circuito de palestras. Quem é que não quer ver um cara como ele contar suas aventuras pelo mundo das finanças?

Um forte abraço e um ótimo fim de semana.

Ivan Sant’Anna

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