Mercadores da Noite #207 - Cuidado com as estatais!

Ivan Sant'Anna Publicado em 16/01/2021
5 min
No atual cenário, torna-se imperativo aplicar em ações. Mas evite fazê-lo em empresas do governo ou de economia mista. A qualquer momento elas podem ser usadas como objeto de troca política. E que se lasquem os acionistas.

Caro(a) leitor(a),

No momento em que escrevo este texto, final da tarde de quinta-feira, 14 de janeiro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta dissuadir Jair Bolsonaro de demitir o presidente do Banco do Brasil, André Brandão.

Pecado do executivo: executar bem.

No molde das gestões modernas, e coerente com a situação de pandemia, Brandão optou por fechar 200 agências deficitárias do banco e cortar cinco mil vagas na instituição.

Ou seja, fez o que é pago para fazer: proporcionar o máximo possível de lucro aos acionistas, sendo a União o maior deles.

Por esse e outros motivos eu, Ivan Sant’Anna, não gosto de ter em minha carteira de renda variável ações de empresas do governo.

Quando menos se espera, elas tomam uma decisão incompatível com as boas práticas de gestão. Jogam para perder.

Curiosamente, já ganhei muito dinheiro com papéis de estatais, principalmente Petrobras, o próprio Banco do Brasil (BB) e a Cia. Vale do Rio Doce, que é como se chamava a Vale quando pertencia ao governo.

Mas isso aconteceu em momentos nos quais elas estavam extremamente baratas, como demonstram os três exemplos abaixo:

Quando, em 1967, me mudei dos Estados Unidos para o Brasil, o BB apresentava quociente P/L 1. Isso numa época em que, no mercado tupiniquim, poucos sabiam o que era P/L.

Resultado: em quatro anos, e sem alavancar (na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, já se negociava a termo mediante depósito de uma margem de 20%), multipliquei meu dinheiro 10 vezes.

Nessa mesma época, com os papéis da Petrobras foi até melhor: comprei a 13 centavos de cruzeiro e vendi a Cr$ 12,00.

Entre outras razões, tais altas se deveram a prerrogativas legais da Petro e do BB.

A petrolífera detinha o monopólio da extração de petróleo no Recôncavo Baiano – as reservas da Bacia de Campos ainda não haviam sido descobertas – e o BB operava a conta-movimento do governo federal, além de ter a exclusividade dos depósitos judiciais.

O BB não remunerava nada pela posse dessa dinheirama. Isso num ambiente de inflação anual de 25,01% (1967), 25,49% (1968), 19,31% (1969), 19,26% (1970) e 19,47% (1971).
Já na Vale do Rio Doce ganhei com a descoberta da maior jazida a céu aberto de minério de ferro do mundo, na serra dos Carajás.

De resto, sempre tive medo das estatais e sociedades de economia mista por serem geridas visando interesses políticos e fisiológicos, e não comerciais.

Inúmeras vezes, a Petrobras foi a rainha dos escândalos, tendo como auge o período do “Petrolão”, quando a empresa, sob a administração de Graça Foster, não pôde publicar o balanço simplesmente por desconhecimento dos números do rombo em seus cofres.

Houve muitas outras ocasiões nas quais a Petrobras foi manchete dos jornais por razões pouco nobres.

Quem não se lembra do ex-presidente da Câmara dos Deputados Severino Cavalcanti? Ele quis escolher o titular de uma diretoria da Petrobras e fez questão de dizer qual: “Aquela que fura poços”.

O mesmo Severino brincava nas onze. Tanto é assim que foi pego extorquindo dinheiro do concessionário do restaurante da Câmara.

Outro exemplo marcante foi a compra, pela Petrobras, da refinaria de Pasadena, no Texas (por que diabos ela foi se meter no Texas?), por US$ 1,249 bilhão, para revendê-la, 13 anos mais tarde, por US$ 467 milhões.

Justiça se faça, volta e meia essas estatais têm ótimos executivos. Mas basta que eles contrariem uma posição política do governo em Brasília para serem demitidos ou se sentirem obrigados a pedir demissão.

Bom exemplo disso foi Pedro Parente. Convidado por Michel Temer para assumir a Petrobras, aceitou o desafio com a condição de ter carta branca para agir.

Parente nomeou sua própria diretoria e passou a fixar o preço de venda dos combustíveis de acordo com uma fórmula tão simples quanto óbvia: cotação internacional do barril de petróleo x cotação do dólar frente ao real.

Bastou que uma greve de caminhoneiros paralisasse o país, com os grevistas exigindo, entre outras coisas, uma redução no preço do diesel, para que Temer, assustado, determinasse que Pedro Parente sustasse o aumento.

Só restou ao executivo pedir as contas e ir embora.

O atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, está fazendo uma ótima gestão. Mas é bom que ponha as barbas de molho.

Lideranças dos caminhoneiros estão ensaiando uma greve a partir de 1º de fevereiro. Entre as reivindicações, redução no preço do diesel.

Por essas e outras razões, aconselho a você não investir em ações de estatais.

A qualquer momento elas podem ser usadas como objeto de troca política. E que se lasquem os acionistas.

Com a taxa Selic rodando a menos de 50% da inflação, as ações continuam sendo a melhor aplicação de dinheiro. Felizmente, a maioria delas é totalmente privada e visa unicamente o lucro.

Desde que comecei a trabalhar no mercado financeiro, em 1958, nunca vi nenhuma ocasião tão difícil como a de agora, com a Covid-19. E o pior é que o drama está acontecendo no mundo inteiro.

“Farinha pouca, meu pirão primeiro” deixou de ser um ditado engraçado para se tornar uma prática universal.

Por isso, torna-se, mais do que aconselhável, imperativo que você só gaste o que for estritamente necessário e aplique seu dinheiro.

Mas evite fazê-lo em ações de empresas do governo ou de economia mista.

Elas simplesmente não são confiáveis. Para que traiam seus acionistas, basta uma conversa ao pé do ouvido nos salões de Brasília.

Um forte abraço e um ótimo fim de semana.

Ivan Sant’Anna

A Inversa é uma Casa de Análise regularmente constituída e credenciada perante CVM e APIMEC.

Todos os nossos profissionais cumprem as regras, diretrizes e procedimentos internos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Instrução 598, e pelas Políticas Internas estabelecidas pelos Departamentos Jurídico e de Compliance da Inversa.

A responsabilidade pelas publicações que contenham análises de valores mobiliários é atribuída a Felipe Paletta, profissional certificado e credenciado perante a APIMEC.

Nossas funções são desempenhadas com absoluta independência, não sendo dotadas de quaisquer conflitos de interesse, e sempre comprometidas na busca por informações idôneas e fidedignas visando fomentar o debate e a educação financeira de nossos destinatários.

O conteúdo da Inversa não representa quaisquer ofertas de negociação de valores mobiliários e/ou outros instrumentos financeiros. Os destinatários devem, portanto, desenvolver as suas próprias avaliações.

Todo o material está protegido pela Lei de Direitos Autorais e é de uso exclusivo de seu destinatário, sendo vedada a sua reprodução ou distribuição, seja no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa, sob pena de sanções nas esferas cível e criminal.  

Conteúdo protegido contra cópia