Mercadores da Noite #203 - Cash is trash

Ivan Sant'Anna Publicado em 19/12/2020
1 min
O que acontece com o dinheiro quando governos inundam os mercados com emissões de papel-moeda?

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Caro(a) leitor(a),

A economia brasileira não está terminando o ano de 2020 com comportamento em “V”, tal como predizia o atual ministro da Economia, Paulo Guedes. Mas o mesmo não pode se dizer da performance da B3 nos últimos doze meses.

Escrevo esta crônica no final da tarde de quinta-feira, 17 de dezembro. Por isso, não tenho como saber como fechará o mercado na sexta-feira, 18 de dezembro, coisa de que o caro assinante já estará ciente ao ler este texto. 

No high de quinta, a 117.864, o Ibovespa chegou a se aproximar da máxima anual de 119.593 pontos atingida em 23 de janeiro, ficando a apenas 500 e poucos short dela.

É bem possível que novo recorde histórico seja batido nas poucas sessões que faltam para o término do ano.

Aconteça isso ou não, o “V” já ficou perfeitamente caracterizado.

Nos Estados Unidos, em plena culminância do morticínio provocado pela Covid-19, os três índices mais importantes, S&P500, Nasdaq e Industrial Dow Jones, acabaram de fazer máximas históricas.

Acontece que os governos e bancos centrais espalhados pelo mundo inundaram os mercados de dinheiro. Daí o título desta crônica ser Cash is trash (em português, dinheiro em caixa é lixo).

Não satisfeitas com essas emissões de papel-moeda, as autoridades monetárias compraram, a torto e a direito, seus próprios títulos.

Entre os países que adotaram tais iniciativas expansionistas (praticamente todos), os Estados Unidos se destacaram, por intermédio do Banco da Reserva Federal, o FED.

Para tanto, o FED teve apoio do Tesouro, da Câmara dos Representantes e do Senado, embora estes dois últimos divergissem em valores. Democratas queriam dar mais; republicanos, menos.

Fui da época em que um milhão de dólares era grana pra burro. Com US$ 13,3 bilhões, o Plano Marshall reconstruiu a Europa pós Segunda Grande Guerra.

Hoje, fala-se em trilhões com a maior facilidade. Daí dizer-se que o dinheiro virou lixo.

Só falta jogar pedra nele, como na Geni.

Ontem, ao comprar cestas de Natal para filho, filha, nora, genro e netos que moram na Europa, encontrei entre as opções de pagamento nada mais, nada menos do que bitcoins.

Difícil vai ser achar quem tope trocar suas criptos de estimação por champanha, chocolate, frutas secas, nozes, castanhas, avelãs, pistaches etc. 

Imagine se um dia a Bitcoin bater cem mil dólares, como andam falando.

Haverá gente lamentando:

“Cacete, eu sou burro mesmo; troquei minhas criptomoedas por uma garrafa de champagne Cristal Brut, que o povo da festa liquidou em um brinde.”

Após o seríssimo revés com o 737 Max, aparentemente solucionado, a Boeing Company agora descobriu que seu modelo ultrarrevolucionário, o 787, também conhecido como Dreamliner, apresenta fadiga de material em algumas unidades.

Tanto é assim que a fábrica fez um stop. Parou de entregar 787s aos compradores.

Volta e meia minha mulher e eu voamos no Dreamliner da British Airways. Neste ano mesmo, em fevereiro e março, fizemos o trajeto Rio/Londres/Rio nesse tipo de jato comercial, revolucionário no conceito.

Após quase um século fabricando aeronaves em alumínio, a Boeing partiu para fibra de carbono, mais leve e, pelo menos era o que se pensava, mais resistente ao atrito com o ar em grandes velocidades.

Fibra de carbono é o mesmo material usado na construção dos carros de Fórmula 1.

Voltando ao Dreamliner, as unidades em operação mundo afora possivelmente terão de ser recolhidas para recall, já que algumas inspeções mostraram sinais de desgaste nas asas e fuselagem.

Como está se safando a Boeing?

Simples. Lançando obrigações no mercado.

Uma série que acabo de examinar vence em fevereiro de 2031 e paga 3,6333% de juros anuais.

A demanda por esses bonds está muito maior do que a oferta.

Pudera.

Os investidores preferem comprar títulos que apresentam renda real, uma vez que a inflação americana, medida pelo CPI (Consumer Prices Index; em português, Índice de Preços ao Consumidor), está em 1,2% ao ano.

Caindo, saliente-se.

Cash is trash.

Diversas commodities estão sendo negociadas pelos maiores preços em muitos anos.

Entre elas, soja, milho, cobre, minério de ferro, só para citar algumas das mais importantes.

Simplesmente porque são cotadas em dólares, dólares esses tão desprezados quanto a Geni.

Cash is trash vale principalmente para o dólar norte-americano que, inclusive, está se depreciando contra o euro, franco suíço e iene (ambos com juros negativos), libra esterlina (a despeito do Brexit), dólares canadenses e australianos e, adivinhem, o real brasileiro.

Um ótimo fim de semana para você!

Ivan Sant’Anna

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