Mercadores da Noite #202 - O que abunda não prejudica

Ivan Sant'Anna Publicado em 12/12/2020
5 min
No Brasil, iniciou-se uma corrida para ver quem vai imunizar primeiro a população de seu município, de seu estado, do país inteiro. Por quê? É o que discuto na newsletter de hoje.

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Caro(a) leitor(a),

A frase título desta crônica (quod abundat non nocet em latim) é muito usada por advogados para justificar redundâncias nos textos dos contratos que elaboram.

Procurei a escritura de meu apartamento e encontrei o seguinte trecho: “... os presentes, meus conhecidos, do que dou fé. E, pelos outorgantes me foi dito que são donos, senhores e legítimos proprietários do imóvel...”

Até alguns dias atrás, a luta contra o novo coronavírus no Brasil parecia apenas uma disputa política, cada lado querendo que sua participação fosse a vencedora, vale dizer, a mais rápida, mais eficiente, mais comentada na imprensa.

E, desculpe-me a desconfiança, torcendo para que a dos outros desse errado.

O ministro da Saúde, general da ativa, chegou a dizer, indolentemente, que cada vacina apresentada à Anvisa teria um prazo de 60 dias para estudos e aprovação.

Pois bem, o chefão do wild bunch de Brasília, temendo pela queda de sua popularidade, mandou, sem mais nem menos, mudar de dois meses para duas semanas.

As diretrizes continuaram se alterando. Na quarta-feira, 9 de dezembro, o ministro-general, noutra guinada surpreendente, disse que talvez, ainda neste mês de dezembro, as primeiras vacinas da Pfizer/BioNTech poderão ser aplicadas no Brasil. Ele só se esqueceu de combinar com os russos, oops, com a Pfizer.

Quando era governador de São Paulo, em seu primeiro mandato, Paulo Maluf, que pretendia ser presidente da República, costumava distribuir ambulâncias pelos municípios pobres do Nordeste. Financiadas pelo contribuinte paulista, é claro.

Agora, João Doria, sucessor dos sucessores de Maluf, está prometendo vacinar não só os habitantes do seu estado como qualquer pessoa que apareça por lá em busca de uma dose da CoronaVac.

Será que ele está querendo congestionar a Via Dutra, a Régis Bittencourt, a Fernão Dias e a Raposo Tavares? Por acaso calculou quantas pessoas poderão se interessar pela magnânima oferta?

Não, o cara quer é voto. E, para isso, é preciso que a vacina dele vença a corrida.

O prefeito de Belo Horizonte tem os pés mais no chão. Enérgico em suas providências no início da pandemia, se reelegeu facilmente no 1º turno.

Alexandre Kalil quer agora comprar a CoronaVac direto do Butantan e aplicar a vacina em seus munícipes.

Acredito que, se chegar alguém de fora, não vai ser barrado na fila. Mas a coisa não pode ser apregoada como fez Doria, para atrair freguês (eleitor).

Acho que se a União, os Estados e os Municípios saírem comprando vacinas, refrigeradores, seringas e algodão, vai acabar sobrando material. Mesmo se o armazenamento, distribuição e vacinação forem confusos, não será nenhuma tragédia para o país, porque o que importa é que dezenas de milhares de vidas serão salvas. 

“O que abunda, não prejudica”, lembra-se?

Essa afobação de última hora não teria acontecido se o wild bunch não tivesse feito pouco caso da doença por ocasião do início do surto na China, em janeiro, ou desde que o vírus chegou aqui, em março.

Não pode nem alegar desconhecimento de causa, pois mandou aviões da FAB a Wuhan para retirarem cidadãos brasileiros da cidade onde tudo começou.

O Brasil, e isso é o que mais constrange as pessoas sensatas, possui alguns sistemas-modelo que exigem organização e logística.

Só para ficar em dois exemplos, temos o processo de declaração de imposto de renda e a eleição eletrônica, ambos estudados e copiados por diversos países.

Ah, antes que eu me esqueça. O que me deixa mais perplexo é que uma das coisas que melhor funcionavam no Brasil eram as campanhas de vacinação.

Num dia marcado para todo o país, no mesmo instante em que o Zé Gotinha aplicava uma dose antivírus da poliomielite em uma criança de um bairro residencial de São Paulo, um menino ou menina à beira de um igarapé no Amazonas recebia a mesma vacina, que chegava em uma embarcação.

Desde Oswaldo Cruz (1872-1917), o Brasil sabe fazer vacinação.

Doses de imunizantes contra febre amarela, tifo, impaludismo, varíola e peste bubônica foram aplicadas na marra na população durante o governo Rodrigues Alves (1902-1906), gerando inclusive uma revolta nas ruas do Rio de Janeiro. Em 1948, ao ser convidado para a presidência da Columbia University, em Nova York, o general Eisenhower recebeu críticas do meio acadêmico.

“Como pode”, questionavam alguns professores da universidade “um militar dirigir a instituição?”

“Trata-se de um cargo administrativo”, respondeu Ike. “Eu administrei a logística da operação mais complexa da história, que foi o desembarque dos exércitos aliados nas praias da Normandia no Dia D (6.06.1944).”

Evidentemente, para que se pudesse ter certeza de que nada faltaria quando os 160 mil soldados chegassem em solo francês – armas, munição, veículos de combate, medicamentos, água potável, alimentos – teria de sobrar muita coisa.

Quod abundat non nocet.

Acredito que, no Brasil, iniciou-se uma corrida para ver quem vai imunizar primeiro a população de seu município, de seu estado, do país inteiro.

Tomara que abunde e dê para todo mundo. Se sobrar, não faltarão lugares que precisarão do que exceder por aqui.

Leonardo Porto, economista-chefe do Citi, afirmou esta semana que uma ampla vacinação contra a Covid-19 no Brasil é condição essencial para a recuperação econômica do país.

Exatamente isso que os mercados de renda variável e de câmbio estão precificando. Refiro-me ao fim da angústia, quem sabe até o final do primeiro semestre de 2021.

Tomara que tenha sido um pesadelo que durou de março a março.

Um abraço,

Ivan Sant’Anna

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