Mercadores da Noite #201 - Lutando contra a correnteza

Ivan Sant'Anna Publicado em 05/12/2020
5 min
Nesta newsletter, reflito sobre meus investimentos pessoais e meu futuro através da perspectiva de um salmão nadando contra a correnteza. Fará sentido ao ler, eu prometo.

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Caro(a) leitor(a),

Sempre que reflito sobre meus investimentos pessoais, me ponho no lugar de um salmão nadando contra a correnteza em direção à cabeceira do rio, exatamente o lugar onde nasceu.

No percurso, ele enfrenta corredeiras, contorna saltos d'água e tem de fugir de predadores, como os ursos pardos, por exemplo, que ficam em lugares estratégicos, geralmente em cima de uma pedra, ao lado da qual o rio passa. Isso para usufruir um sashimi fresquinho.

Fresquinho, não. Vivo. Se contorcendo na boca do assassino antes de ser engolido.

Qual é a missão do salmão nessa jornada?

Desovar e morrer. Morrer preservando a espécie.

Charles Darwin explica como ele chegou até esse estágio.

Eu, Ivan Sant'Anna, quero alcançar a cabeceira antes que meu dinheiro acabe.

Pensando bem, minha situação não poderia estar melhor.

Com meus investimentos (excluindo o imóvel próprio onde moro), nas cotações atuais dos papéis de minha carteira mobiliária, mesmo que fique totalmente incapacitado para trabalhar, dá para viver, sem diminuir meu padrão de vida, até janeiro de 2030.

Quando nasci, em maio de 1940, a expectativa de vida de um brasileiro do sexo masculino era de 42 anos e 11 meses. Essa eu já tirei de letra; quase dobrei.

Atualmente, a ciência atuária mostra que um homem que nasceu hoje nestas bandas tupiniquins deverá viver até os 72 anos e dez meses. 

Também já ultrapassei essa marca.

Agora, a boa notícia para um indivíduo do sexo masculino que já alcançou 80 anos, como é o meu caso: ele deve durar mais oito anos e quatro meses. Nessa nova estimativa, deverei bater as botas precisamente em agosto de 2029.

Caramba, estaria com 89 anos de idade. Não quero chegar lá nem a pau. Mas tenho de levar em conta que isso poderá acontecer.

Como, tal como escrevi acima, tenho dinheiro para viver até janeiro de 2030, a conta vai fechar.

Pois bem, todo mês faço questão de poupar uma graninha, o que estica esse cálculo, uma vez que ele só começará a contar a partir do momento em que me tornar incapacitado para trabalhar.

Posso também morrer dormindo, privilégio das pessoas que sofrem de arritmia cardíaca, como é o meu caso. 

O coração vai parando, parando... e para.

Tal como queríamos demonstrar, minha vida financeira está tranquila.
Acontece, e é aí que mora o perigo, que quero deixar um patrimônio mobiliário para que minha mulher tenha a mesma garantia de uma velhice sem nenhum tipo de sobressalto.

Vamos então ao caso dela, que é o que importa para o salmão. Assim como o peixe faz questão de preservar a espécie, não quero que minha cara-metade, que nasceu nove anos depois de mim, e além disso elas vivem mais, fique livre de prognósticos sombrios.

Usando a mesma metodologia acima, ela vai viver até 2036.

Aí vai ficar curto para a herança do salmão.

Tudo bem. Há soluções para os dois casos, desde que eu continue a trabalhar por pelo menos mais uns cinco anos em plena posse de minhas faculdades mentais.

Sem querer bravatear, e já o fazendo, ainda consigo extrair raiz quadrada e cúbica de cabeça, contar como foram os governos dos últimos dez presidentes norte-americanos e descrever detalhes minuciosos da Segunda Guerra Mundial, tantos são os livros que li a respeito do assunto.

Não há um dia sequer que não estude o mercado financeiro e outras coisas. Ontem à noite, por exemplo, terminei de ler um tijolaço sobre a vida do chanceler Otto von Bismarck (1815-1898), o unificador da Alemanha.

Tudo isso que descrevi acima serve apenas para salientar a necessidade de poupança sem depender de governos. A não ser, é claro, que você seja um privilegiado integrante dos altos escalões de um dos três poderes da República e terá sua aposentadoria sempre igual ao salário do pessoal da ativa.

Por outro lado, se é apenas um vil mortal e quer se aposentar cedo (aos 65 anos, por exemplo, o que me parece mais do que razoável), poupe muito, no mínimo uns vinte por cento do que ganha, e aplique em ações de boas empresas.

Leia, e a Inversa é pródiga nesse material, os relatórios de quem estuda o mercado todos os dias. 

Nessa hipótese, se o viés de uma empresa começar a mudar de positivo para negativo, você terá tempo de cair fora.

Não queira ser um salmão como eu, enfrentando cachoeiras e arriscando terminar no bucho de um urso.

Até gosto do desafio, que me faz sentir como um velho-moço. Mas tem gente que prefere uma cadeira de balanço no gramado da casa e um cruzeiro de navio pelo menos de dois em dois anos.

O que não tem nada de mais, é preciso que se diga.

Um ótimo fim de semana para vocês, caros amigos leitores.

Ivan Sant’Anna

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