Mercadores da Noite #186 - Do 11 de setembro à subprime (epílogo)

Ivan Sant'Anna Publicado em 01/08/2020
7 min
Da sala da B3 em São Paulo para o Paquistão, veja como misturei IPOs, terrorismo, road show, dinheiro e sangue na minha carreira literária.

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Nota do editor: a seguir, Ivan vai apresentar para você como negociações devem ser fechadas e de qual forma eventos não controláveis afetam nosso destino.

Caro leitor,

Se o amigo assinante não leu as duas primeiras partes desta crônica, sugiro que o faça agora (primeira parte, segunda parte) antes de iniciar a leitura do texto de hoje.

Após a publicação, em 2006, de Em nome de Sua Majestade, fiquei meio perdido, sem saber sobre o que fazer. Cogitei até voltar a ser trader.

Eis então que recebi um telefonema de Alcides Ferreira, diretor de Comunicação e Mídia da BM&F, me convidando para escrever um livro sobre o IPO da Bolsa.

Isso desatava o nó de minha indecisão. Viajei a São Paulo para tratar dos detalhes. Como bastava ler os documentos e entrevistar as pessoas envolvidas no lançamento, estimei em dois meses o tempo de trabalho.

Como seria uma edição distribuída gratuitamente para o pessoal do mercado, eu receberia um fixo pela redação do livro. Restava discutir esse valor com o Edemir Pinto, diretor-geral da Bolsa.

Sentado na antessala da diretoria, no último andar do prédio da BM&F, fiquei pensando sobre quanto cobraria para redigir o texto. Meu número inicial era R$ 30.000,00 (65 mil em valores de hoje).

Já na sala do Edemir, ele passou a discorrer sobre o trabalho. Este incluiria explicar como se dera a desmutualização da Bolsa e, principalmente a descrição do road show, uma viagem ao redor do mundo para convencer os grandes investidores internacionais a aderirem ao lançamento.

O chefão falou sobre tudo, menos sobre minha remuneração.

Tive um bom pressentimento e optei também por não tocar no assunto.

Santa ideia.

Encerrada a reunião, já estávamos de pé quando o Edemir, meio que incidentalmente, perguntou:

“Cento e cinquenta mil para você está bom?”

Naquela ocasião eu já tinha quase 50 anos de mercado nas costas. Isso apurara bastante minha velocidade de raciocínio, quando se tratava de grana.

“Líquidos, não?”, respondi de bate-pronto.

“Líquidos!”

“Fechado!”

“Fechado!”


Pouca gente sabe disso mas, após as entrevistas com os executivos da Bolsa, envolvidos no IPO, viajei para o Paquistão, onde fui pesquisar para um livro e um filme do projeto Amores Expressos, uma parceria RT Features/Cia. das Letras, projeto esse que, no meu caso, não se materializou. Pelo menos até hoje, embora eu tenha recebido o adiantamento e o reembolso de todas as despesas de viagem.

Londres, Dubai, Islamabad, Rawalpindi, Lahore, Faisalabad, Multan, Karachi, Peshawar e Doha (no Qatar). Foi nesses lugares que escrevi a maior parte de Projeto Maratona, nome que seria dado ao livro sobre o IPO da BM&F. Ao mesmo tempo pesquisava al Qaeda, Talibã, terrorismo, tráfico de heroína, etc, para o livro/filme da Amores Expressos. O título deste segundo é Terra de Fronteira. Seus originais dormem na prateleira ou gaveta de alguém, aguardando publicação e filmagem, quem sabe para depois que eu morrer.

Durante a jornada de 40 dias pelo Paquistão, minha cabeça soube compartimentar assuntos tão diferentes quanto IPOs, terrorismo, road show, dinheiro e sangue.

Só para dar uma palinha ao caro assinante, segue abaixo dois trechos desses livros: Projeto Maratona e Terra de Fronteira.

“Nos últimos séculos do primeiro milênio, em toda a Europa, se um artesão ou lavrador aceitasse trabalhar para um nobre, um senhor feudal, essa decisão implicava compromisso perpétuo e, quase sempre, hereditário.

− Quer dizer então que deseja ser um dos meus homens? – perguntava o senhor, apoiando sua espada no ombro do candidato, ajoelhado à sua frente e tendo a cabeça descoberta.

− Sim, é esse o meu desejo – respondia o trabalhador, respeitoso. Como se restassem muitas outras alternativas de emprego e de vida. – Eu juro em nome da Santa Cruz e das Sagradas Escrituras – completava, prestando atenção aos lábios de um escrivão, que soprava a fala. Cabia também ao escrivão registrar num livro o nome e os dados pessoais do novo servo.

A partir dessa cerimônia de iniciação, o senhor tinha poder absoluto sobre o novo empregado, podendo inclusive açoitá-lo, escolher com quem ele iria se casar e até enforcá-lo se o julgasse culpado, ou mesmo suspeito, de algum crime.”
– Página 22 de Projeto Maratona.

Já no capítulo “O açougueiro de Jalalabad”, de Terra de Fronteira, há o seguinte trecho:

“O açougueiro ia começar a matar um bode quando Stella Ackerley, só com os olhos à mostra, entrou no estabelecimento, acompanhada de Jordan e do fixer. O homem tentou interromper o golpe de machado no meio do caminho, mas o máximo que conseguiu foi abrir um talho no pescoço do animal, que agora berrava e estrebuchava.

Sentindo profunda aflição ao ver a cena, Stella parou esperando que o açougueiro terminasse o serviço. Mas ele não se comoveu com a sorte do bicho, que prendeu sob um dos pés descalços. ‘Limpou’ as mãos no avental imundo de sangue coagulado, resquícios de abates anteriores, e pegou o bilhete das mãos de Stella, evitando tocá-la.

— Por favor, termine de matar — Stella implorou, em inglês. O açougueiro não entendeu as palavras mas percebeu seu sentido. Deu uma risada e, com um segundo golpe, cortou o pescoço do animal. Embora tivesse dado um pulo para o lado, a repórter não conseguiu evitar que sua roupa azul novinha recebesse alguns respingos de sangue.”


A crise do subprime tirou toda a graça de Projeto Maratona. Tanto é assim que o livro, sem nenhuma divulgação pela imprensa, foi lançado num almoço para poucas pessoas, numa sala de reuniões do prédio da Bolsa. 

Pudera. Após ter sido colocada no mercado, com demanda mais de dez vezes superior à oferta, por 20 reais, as ações da BM&F caíram para menos de 10.

Depois disso, a BM&F se fundiu com a Bovespa, formando a BM&FBOVESPA, B3SA3.

O preço do papel se recuperou totalmente, estando agora sendo negociado por volta de R$ 65,00, perto de sua máxima de todos os tempos.

Aqui chegamos ao fim desta crônica em três episódios. 

Daqui a alguns meses relatarei outra fase de minha vida, na qual houve de tudo menos monotonia.

Um ótimo fim de semana para vocês

Ivan Sant'Anna

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