Mercadores da Noite #185 - Bravata de trader

Ivan Sant'Anna Publicado em 29/07/2020
1 min
Se em qualquer profissão reconhecimento e mérito sobrepujam tudo, se quiser ser trader, a única medida do sucesso é o dinheiro.

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Nota do editor: nas próximas linhas, Ivan vai mostrar para você de maneira brilhante de qual forma as mais diferentes profissões são valorizadas.    
Para ter a felicidade como morada, deve-se sempre construir patrimônio: veja neste link como com menos de dois cafés você pode mudar o futuro da sua família e viver “A Plena Ascensão Financeira”.

Caro leitor,

Só existe uma medida para se avaliar a capacidade profissional de um trader: dinheiro. Sim. Dinheiro. Apenas dinheiro. Se ele consegue ganhar o vil metal, é bom. Se não colhe lucros com suas posições, é, com meu pedido de desculpas pela franqueza, incompetente. Pode escolher outro ofício. Essa é a verdade nua e crua dos fatos. Por isso, os operadores de mercado fazem tanta questão de apregoar aos quatro ventos seus lucros.    

O mesmo não acontece em grande parte das profissões e ramos de negócio. Se, em pleno boom das commodities agrícolas, numa conversa com um fazendeiro, perguntarmos como vai a lavoura, ele inevitavelmente responderá, com a maior cara-de-pau:    

“Tá muito ruim, amigo. Falta financiamento. As mudas e sementes estão pela hora da morte. Fertilizantes, defensivos e outros insumos agrícolas, nem falo”. E fala: “Um absurdo de caros. Sabe de uma coisa, meu chapa? Se eu fizer a conta na ponta do lápis, vou descobrir que pago para plantar. Meu negócio dá prejuízo. É só ver os demonstrativos.”    

E, diante de nossa surpresa, ele entra em sua picape do ano (quando não embarca em seu bimotor turboélice King Air novinho em folha) e se despede, sem em nenhum instante abrir mão de sua fisionomia triste de retirante.    

Os lojistas não são muito diferentes dos agricultores.    

“Como vai o comércio?”, a gente indaga a um deles.  

“Péssimo”, o homem resmunga, choroso. “O movimento está muito fraco. De dar dó. Com essas taxas de juros, é impossível se obter capital de giro. Eu só continuo no negócio porque é uma tradição de família. Mas sofro todas as consequências. Meu bisavô, quando veio do Líbano para o Brasil, devia ter sido fazendeiro. Eu estaria nadando em dinheiro.”    

Dito isso, ele pede licença e, na maior desfaçatez, vai atender os fregueses que se acotovelam na loja apinhada de gente.    

Em outras profissões, mesmo algumas reconhecidas como bastante rentáveis, o dinheiro não é necessariamente uma medida de sucesso. Um cirurgião, por exemplo, pode não saber cobrar. Mas se lograr êxito em uma operação complexa, mesmo que feita em um indigente da Santa Casa de Misericórdia, será alvo da admiração dos colegas. O convidarão para falar em congressos de medicina. Publicará artigos em jornais e revistas especializados.    

O mesmo pode se dar com escritores e cineastas. Até hoje não ouvi ninguém comentar se o Nelson Rodrigues era rico ou pobre. Se tinha isso ou aquilo. Se frequentava bons restaurantes. Roupas de grife, tenho certeza de que não usava. É só ver suas fotos batucando na máquina de escrever, o cigarro barato no canto da boca, a gravata fininha e gordurenta frouxa no colarinho aberto.

Na biografia de Nelson, dinheiro não faz a menor diferença. O que vale são suas dramaturgias antológicas, as crônicas esportivas nas quais enaltecia o Fluminense, a coluna A vida como ela é com suas histórias geniais.    

É isso que ele deixou para as gerações futuras.  

Basta uma olhada no dicionário Houaiss e lá está a expressão ‘rodriguiano.’    

A mesma coisa se pode dizer de Monteiro Lobato, o iniciador na leitura das pessoas de minha geração – com as aventuras em seu inimitável Sítio do Pica-pau Amarelo; do contista Dalton Trevisan, que não se permitia deixar fotografar pois era avesso a qualquer tipo de exposição; da autora brasileira, nascida na Ucrânia, Clarisse Lispector, que continuará a ser lida daqui a cem, duzentos, quem sabe 500 anos.    

Quanto Clarisse legou para seus herdeiros? Ninguém sabe, ninguém faz a menor questão de saber. O que vale é que ela deixou romances, contos e novelas que enriquecerão para sempre a literatura brasileira.    

Para os escritores, ganhar pouco dinheiro é até mérito. Deles, as pessoas dizem, babando de admiração:

“Você viu o Diego Fernandes? Mora nos fundos de um sobrado em Vila Maria e tem uma perua Belinda carcomida. Imagina. Com todos aqueles livros publicados. Todos aqueles prêmios. Uma figura notável, o Diego.”  

Nenhum dos parâmetros acima serve para um trader do mercado financeiro. Para um operador de ações, futuros, opções e commodities. Tal como eu disse no início desta crônica, ele vale de acordo com o dinheiro que consegue ganhar, com a rentabilidade do portfólio que administra. Talvez por isso, de sua personalidade constam certas especificações tão exóticas quanto especiais.

Em suas conversas, um trader nunca deixa de aumentar os lucros que obteve em uma operação.

“Um milhão, meu chapa. Ganhei um milhão de reais. Foi shortear e correr pros abraços. Não deu nem um segundo de sofrimento”, gaba-se o profissional, numa roda de uisqueria, falando bem baixinho, como se revelasse um segredo de estado, para um colega de outra instituição.

“Puxa vida! Meus parabéns”, responde o outro, arreganhando um falso sorriso de admiração, enquanto deduz, in pectore: “Um milhão. Considerando-se o F3 (fator segundo o qual todo trader no mínimo triplica seus ganhos quando os relata), ele lucrou no máximo 350 quilos, ou quem sabe até menos.”    

Na época em que eu trabalhava na linha de frente do mercado, já vi trader morando em apartamento de fundos, num bom endereço da orla do Rio de Janeiro, só para que os outros, ao ver seu cartão de visitas, ficassem impressionados com o status do colega. Já vi trader se endividar para comprar carro importado do ano. Gente que ganhava Fusca e gastava BMW.  

Eu mesmo, confesso humildemente, durante o saudoso bull market de ações de 1971, época em que trabalhava como floor trader na bolsa do Rio, na primeira grande tacada tratei logo de comprar um Galaxie 500 (o carrão da época) e uma cobertura (de frente, juro), com piscina e tudo, na orla de Ipanema. Bem, para ser honesto, não era bem na orla, mas a meio quarteirão dela.

Durante uma festança que dei em meu aniversário de 31 anos, levei um colega trader até o andar de cima. Do deque da piscina, fiz questão de mostrar:  

“Olha a praia”.

O outro não perdeu tempo. Debruçou-se sobre a amurada, pôs a mão espalmada na testa e respondeu:

“O mar? Ah, sim, lá longe. Do meu apê, dá pra ver o mulherio na areia.” 

Um grande abraço,

Até a próxima!

Ivan Sant'Anna

 

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