Mercadores da Noite #176 - A noite dos cristais

Ivan Sant'Anna Publicado em 30/05/2020
5 min
Mercado dá menos importância à instabilidade de Brasília e se acostuma com as controvérsias: se quer investir, deixe as convicções políticas no armário.

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Caro leitor,

Numa de suas atitudes infelizes (para não usar adjetivo mais contundente), na quinta-feira o ministro da Educação, Abraham Weintraub, declarou, se referindo ao cumprimento de mandados de busca e apreensão executados pela Polícia Federal contra aliados de Jair Bolsonaro em inquérito sobre ameaças a ministros do STF e disseminação de fake news:

“Hoje foi o dia da infâmia, vergonha nacional, e será lembrado como a Noite dos Cristais brasileira. Profanaram nossos lares e estão nos sufocando. Sabem o que a grande imprensa oligarca/socialista dirá? SIEG HEIL”.

Em 1938, na Alemanha nazista, a perseguição aos judeus seguia sua escalada odiosa. No dia 7 de novembro, Herschel Grynszpan, de 17 anos, judeu que se refugiara em Paris, após seu pai ter sido enviado para um campo de concentração, foi até a embaixada alemã na capital francesa e matou a tiros o terceiro-secretário Ernst von Rath.

Em represália, na noite de 9 para 10, partidários de Hitler, em sua maioria integrantes das tropas de assalto SA (Sturmabteilung), saíram pelas ruas das principais cidades alemãs, espancando e matando judeus e incendiando suas casas, lojas e sinagogas.

No dia seguinte, o marechal do Reich, Hermann Göring, detalhou preliminarmente os acontecimentos a seu companheiro de partido, Reinhard Heydrich, diretor da Gestapo.

O relatório aparece na página 569 de Ascensão e queda do Terceiro Reich – Triunfo e consolidação 1933-1939, escrito pelo jornalista americano William L. Shirer, que durante anos fora correspondente de imprensa em Berlim:

“A extensão da destruição das lojas e casas judias ainda não pode ser calculada em números (...) 815 lojas destruídas, 171 residências incendiadas ou destruídas indicam somente uma fração do dano real quanto aos incêndios previstos (...) 119 sinagogas foram incendiadas, e mais 76 completamente destruídas (...) 20 mil judeus presos, 36 mortes confirmadas, e o número de feridos graves atingiu também 36. Os mortos e feridos são judeus (...)”

Na própria Alemanha, e História adiante, o episódio ficou conhecido como A Noite dos Cristais.

Weintraub comparar a execução de mandados de busca e apreensão executados pela Polícia Federal brasileira com A Noite dos Cristais hitlerista é um atentado ao bom senso e cria nova frente de atrito para Bolsonaro.

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Trata-se agora do governo de Israel, que tanto apoiou o capitão-presidente. A ponto do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ter sido o único chefe de governo importante a comparecer à sua posse em 1º de janeiro de 2019.

O curioso é que, na véspera da operação policial contra aliados bolsonaristas, estes, inclusive o presidente, se regozijaram publicamente com o mesmo tipo de ação, só que contra o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, desafeto do Planalto, e sua mulher.

Para aqueles leitores que me escrevem pedindo para não falar sobre política, explico que faço isso porque ela sempre influencia o comportamento do mercado, principalmente as cotações da Bolsa e do dólar.

Já para os que me rotulam de socialista, esquerdopata ou petralha, gostaria de explicar que sempre fui favorável às privatizações e ao enxugamento da paquidérmica máquina governamental.

Aliás, socialismo não é crime. Muito menos, defeito. É apenas uma corrente política que, entre outras coisas, defende o controle da economia e dos bens de produção nas mãos do Estado. Corrente essa da qual divirjo e sempre divergi, desde os tempos de João Goulart.

Em minha opinião, nos governos Lula e Dilma não houve socialismo. Houve sim, divisão de renda, ficando os petistas com a maior parte e criando programas de distribuição de dinheiro, alimentos e casas populares em troca de votos, no que obtiveram êxito.

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Só que a fatia dos governantes e seus asseclas era roubada, como ficou provado na operação Lava Jato.

Ao longo de minha vida, me acostumei com o fato de ser chamado de comunista pelo pessoal da direita e de fascista pelo da esquerda. E nem de centro posso dizer que sou pois isso pode ser confundido com Centrão, de melancólica folha corrida.

Pois bem, o mercado não gostou dos conflitos (até agora verbais) políticos desta semana. Mas não houve nenhum pânico. Acho que os investidores e especuladores já estão se acostumando.

Nos dias em que Bolsa, dólar e taxas de juros estão sendo influenciados pela pandemia de Covid-19, este é meu assunto.

Hoje (estou escrevendo este texto após o fechamento do pregão de quinta-feira, 28 de maio) o mercado está olhando para a contenda Planalto/STF. Amanhã poderá ser o conflito sino-americano. No dia seguinte, para as decisões do FED ou do nosso BC.

Só para completar: se o caro amigo leitor, ou a cara amiga leitora, quiser ganhar dinheiro nas bolsas de valores ou nos mercados futuros, guarde suas paixões políticas no armário. E só as tire de lá quando estiver de férias.

Aí, sim, se for de seu gosto, saia às ruas (após o fim da pandemia, por favor) enrolado na bandeira verde e amarela ou na vermelha e grite à vontade a favor de suas teses.

O artigo quinto da Constituição brasileira lhe garante isso.

Um grande abraço,

Ivan Sant'Anna

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