Mercadores da Noite #174 - Lembranças e projetos de um octogenário

Ivan Sant'Anna Publicado em 16/05/2020
1 min
Aproveito a ocasião de meu aniversário para recapitular meu passado, contar meu presente e planejar o futuro, entre aviões, trades e livros.

Caro leitor,

Hoje, sábado, dia 16 de maio de 2020, completo 80 anos de idade. Como não podia deixar de ser, a carcaça está meio corroída. O motor rateia de vez em quando.

Felizmente, a lucidez é a mesma de quando tinha 20 anos, acrescida da experiência adquirida com o passar do tempo.

Junto com minha mulher, Ciça, estou há 66 dias isolado em casa, fazendo o possível para me proteger da Covid-19.

Trabalho no computador todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados. Escrevo as newsletters “Os mercadores da noite” e “Warm Up Pro” para a Inversa, além de gravar lives para responder a dúvidas dos assinantes do “Masters of Money”.

Uma vez por mês, redijo um artigo para o site “Seu Dinheiro”.

Como se não bastasse, trabalho num projeto novo, ficção ambientada nos mercados financeiros brasileiro e internacional, algo semelhante ao livro “Os mercadores da noite”. Estou no 25º capítulo e ainda não cheguei ao meio da história. No momento, a ação transcorre no ano de 1982.

Tenho diversos outros planos pela frente.

“Mas pera aí, Ivan”, pode estar indagando o leitor. “Como você pode estar falando em futuro se já está com 80? A expectativa de vida dos homens brasileiros é de menos do que isso. Teoricamente, você já morreu.”

É verdade, amigo. Só que, neste exato segundo, o coração arrítmico está batendo 59 vezes por minuto, um ritmo meio lento mas que ainda dá para irrigar o cérebro.

Mas chega de presente e futuro. Deixe-me falar, em ordem cronológica, sobre esses 80 anos completados hoje.

No dia em que nasci, 16 de maio de 1940, o cenário mundial era infinitamente mais trágico do que o de hoje. Estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. A Wehrmacht e a Luftwaffe de Hitler, após terem desrespeitado a neutralidade da Holanda e da Bélgica, devastavam o Norte da França. Tanto que a manchete de uma das edições do jornal O Globo daquela data era:

“MONSTRUOSA OFFENSIVA GERMÂNICA!”

Pois bem, minhas primeiras lembranças de infância são do lançamento da bomba atômica em Hiroshima (06.08.1945) e da deposição de Getúlio Vargas (29.10.1945), sendo que esta última mais porque o meu pai cancelou uma viagem que faríamos a Petrópolis. Eu iria para uma casa com piscina pela primeira vez na vida.

A década seguinte, a de 1950, definiu meus rumos profissionais. Em 1958, abandonei os sonhos de uma carreira de piloto comercial (continuaria durante 25 anos sendo aviador esportivo), ao começar a trabalhar como operador de câmbio numa corretora de Belo Horizonte, a H. Picchioni, justamente para custear meu brevê.

Pudera: em menos de seis meses no mercado já ganhava um salário maior do que o de um comandante de Constellation, o state-of-the-art em aeronaves daquela época.

Em meados dos Anos Sessenta parei de trabalhar e, com uma bolsa de estudos bancada pelo governo americano, fui estudar Mercado de Capitais, mais precisamente Portfolio Management, na New York University.

Regressando ao Brasil, comecei a trabalhar, no Rio de Janeiro, num grande conglomerado financeiro, comercial e industrial, mais conhecido como grupo Ducal. Lá, fundei a Fator Corretora de Títulos S.A., que existe até hoje, agora como Banco Fator, sediado em São Paulo. Nessa época, nasceu meu primogênito, Kiko.

Nos primeiros sete anos da década de 1970, simplesmente fiquei rico. Rico de comprar avião, um Cessna 180, de ter vários carros, inclusive um Galaxie 500 e uma berlineta, uma motocicleta japonesa Honda 360 e uma cobertura dos sonhos em Ipanema, duplex, com piscina e vista para o mar. Acompanhava todos os jogos do Fluminense, fossem onde fossem. Cheguei a ver um amistoso em Sarajevo, na antiga Iugoslávia.

De onde veio tanta riqueza?

 


Primeiro, do grande bull market da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro (então a mais importante do Brasil), na qual eu era floor trader. Depois, do open market, onde negociávamos dinheiro de um dia para o outro (overnight ou simplesmente over), lastreados em títulos públicos: ORTNs e LTNs.

Perdi quase todo o meu dinheiro, algo como cinco milhões de dólares em valores de hoje, na tarde de 11 de maio de 1977, quando o Banco Central interveio no grupo Independência (o antigo Ducal), do qual a Fator fazia parte.

Nossa corretora só escapou da intervenção (e da posterior liquidação extrajudicial) porque nosso caixa era maior do que o passivo da empresa, providência que eu começara a adotar em novembro do ano anterior.

A razão pela qual sofri a perda dos tais US$ 5 milhões é que decidi pagar do meu bolso todos os clientes para os quais vendera CDBs do Banco Independência. Para fazer isso, vendi minha participação na Fator.

Após um ano sabático, no qual consegui ganhar uma boa grana investindo em ações da CRI (Companhia Real de Investimentos), tomei duas decisões que prevaleceram até minha saída da linha de frente dos mercados:

− Operar somente nos mercados internacionais de grande risco.

− Na função de broker, ter como clientes apenas pessoas que topassem especular com grandes somas sabendo dos perigos inerentes a tais trades.

Em 1970, nascera meu filho Flavio. Doze anos mais tarde, em 1982, já em meu segundo casamento, nasceu a caçula, Leticia, atualmente cidadã britânica e executiva de uma grande empresa sediada em Londres.

Após rápida incursão, em 1986, no mercado futuro de ouro de São Paulo, que gerou uma pequena fortuna, em 1988 dei minha maior tacada, no mercado de soja na CboT, em Chicago.

Embora meus clientes tenham sido os maiores beneficiários dessa operação, que rendeu, em pouco mais de um mês, US$ 1.000.000,00 para cada 90 mil investidos, esse trade me trouxe grande prestígio, tanto no Brasil como lá fora.

No final de 1992, me apaixonei por um americano de origem irlandesa. Seu nome: Julius Clarence.

Antes que alguém faça uma leitura errada da frase acima, esclareço que Julius é o personagem principal de minha ficção “Os mercadores da noite”.

Para escrever o livro, tive de viajar por diversos países e pesquisar semanas a fio na biblioteca municipal da Quinta Avenida, em Nova York.

No final de abril de 1995, abandonei definitivamente as profissões de trader e broker e passei a me dedicar à literatura.

De lá para cá, são 18 livros publicados, um em gestação e diversos outros se formando no HD de meus neurônios inquietos e impacientes.

No início de 2017, fui convidado pela Olivia Alonso para ser um dos colaboradores da Inversa.

Aqui estou, queridos amigos leitores, trabalhando, como faço há 62 anos. Se for um homem sortudo, em algum momento da década que se inicia, meu coração cessará de bater enquanto teclo um artigo no laptop, de preferência a bordo de um avião comercial.

Assim, conciliarei todas as minhas paixões e irei em paz.


Um grande abraço,

Ivan Sant'Anna

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