Mercadores da Noite #173 - Como perdi 385 mil dólares

Ivan Sant'Anna Publicado em 09/05/2020
5 min
Entre moeda de verdade e real fraco, conto como perdi toda essa dinheirama por conta do enfraquecimento do nosso país

Caro leitor,

Na verdade, o título desta newsletter deveria ser “Como perdi US$ 384.848,52 em oito anos e três meses”. Só que ficaria muito grande, por isso simplifiquei.

Deixem-me, caros amigos leitores, contar essa história desde quando ela teve início.

Em janeiro de 1966, me mudei do Rio para Nova York. Fui estudar Mercado de Capitais na NYU (New York University). Minha bolsa de estudos, patrocinada pela Aid for International Development, uma agência do governo dos Estados Unidos, era de mil dólares mensais, equivalentes hoje a oito mil (US$ 7.966,51), o que dava perfeitamente para viver na Big Apple.

Aluguei um apartamento em Brooklyn Heights, praticamente às margens do East River e pertinho da Promenade, passarela de madeira que proporciona uma visão magnífica de Manhattan.

Como precisava ter conta em banco, onde o valor da bolsa seria depositado todo final de mês, abri uma no Citibank (à época, First National City Bank) em Borough Hall, distante uma estação de subway de meu apartamento.

Desde então, e até novembro de 2016, quando me vali da Lei de Repatriação de Bens (governo Dilma Rousseff) para trazer meu dinheiro para o Brasil, sempre tive conta nos Estados Unidos.

Aliás, só encerrei tudo lá fora (a anistia da Dilma não exigia repatriação, apenas pagamento de Imposto de Renda e multa) por medo de morrer e meus herdeiros serem obrigados a fazer inventário em Nova York, o que daria muito trabalho e custaria uma nota preta em honorários de advogados.  Sem contar eventuais impostos de herança.

O certo é que, desde 1966, sempre raciocinei em dólares. Ainda mais que, no Brasil, atravessei períodos de inflação, de inflação galopante e de hiperinflação. Sempre calculando o valor de meus bens e investimentos na moeda americana.

Por isso afirmo, sem pestanejar, que perdi os tais 385 mil em oito anos e três meses.

Em 16 de fevereiro de 2012, o real era cotado a US$ 0,5828. Invertendo a conta, como a gente costuma fazer no Brasil, o dólar aqui estava a R$ 1,7158. Como agora se aproxima de R$ 6,00 – no momento em que escrevo este texto, está a R$ 5,8733, ou seja US$ 0,1703 −, é por isso que me sinto tão empobrecido em moeda forte.

Se não tivesse a mania de dolarizar meus bens, e raciocinasse na moeda na qual ganho e gasto, nesse período de 8 e ¼ de ano, consegui sempre bater a inflação brasileira e lucrar algo em torno de 150% do CDI. Isso porque, após anos e mais anos de especulação desenfreada, tornei-me um investidor desses que os bancos classificam como ultraconservador, para não dizer covarde.

Até em caderneta de poupança pus meu dinheiro.

Sempre, repito, calculando ganhos e perdas em dólares.

Tenho tão pouca confiança no real que chego a ficar com raiva quando o locutor do telejornal diz que Neymar recebeu uma proposta de 600 milhões de reais para renovar contrato com o Paris Saint-Germain. Resmungo para mim mesmo:

“Pô, por que eles não dizem 98 milhões de euros ou 102 milhões de dólares?”

Para mim, e para a maioria das pessoas que estudam os grandes números, fica mais fácil avaliar a proposta do clube francês.

Tenho uma grande amiga que durante alguns anos foi vendedora de joias na H. Stern. Muitas vezes, ao atender clientes americanos, e passar o preço de determinada peça em reais, cruzados, cruzados novos ou cruz credo, o gringo respondia:

“I want to know it in real money.”

Era até antipático do cara dizer isso, mas ele estava certo.

Quando, em 2008, passei 40 dias no Paquistão, e um comerciante me dava o valor em rúpias, eu me sentia totalmente perdido.

Desde o final da primeira metade do século XX, o mundo inteiro raciocina e negocia em dólares. 

Se, por exemplo, a União Soviética vendia uma grande partida de grãos para a China maoísta, o contrato era assinado na moeda dos imperialistas americanos.

O mesmo acontece agora, sempre que a Rússia capitalista e a República Popular da China (que, hipocritamente, ainda se autodenomina comunista) tratam de importações e exportações uma da outra.

Rapidinho: caro leitor. Quantos rublos ou renminbis o PSG está querendo pagar ao Neymar? 

Para outras pessoas, principalmente na crise deflacionária atual causada pelo coronavírus, com a economia mundial atravessando um choque de monetização, o ouro passa a ser a âncora da esperança.
Ninguém consegue, sem antes consultar as cotações das bolsas de commodities e fazer alguns cálculos, responder a seguinte pergunta:

Quantas onças (ou gramas) de ouro o PSG está oferecendo ao Neymar?

Nem o time francês, e muito menos o craque brasileiro, fez esse tipo de cálculo.

Eu nasci e vou morrer durante o reinado do dólar, mesmo que o Fed comece a lançar, de helicópteros, notas com o rosto de Benjamin Franklin sobre os grandes centros urbanos dos Estados Unidos.

É verdade que, na prática, eles já estão meio que fazendo isso, embora não tão democraticamente. Por enquanto, a dinheirama é lançada sobre os grandes bancos, os hangares das companhias aéreas e os galpões das plantas industriais mais importantes.

Por essas e outras razões é que eu, Ivan Sant’Anna, dolarizado desde os meus vinte e poucos anos de idade, choro a perda de meus 385 mil dólares.

Um grande abraço,

Ivan Sant'Anna

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