Mercadores da Noite #171 - Colunista a futuro

Ivan Sant'Anna Publicado em 25/04/2020
5 min
Ivan avalia turbulência política no Brasil, intempestividade do Palácio do Planalto e desdobramentos recentes nos ministérios

Caro leitor,

Sempre escrevo estas newsletters “Os mercadores da noite” às quintas-feiras. Nas sextas, elas são copidescadas pelos revisores da Inversa. No dia seguinte, sábado, são disparadas para os assinantes, geralmente no início da tarde.

Quando o tema não é imediatista, esse time lag não me causa nenhum problema. Semana passada, por exemplo, falei de minha impossibilidade de escrever um livro-reportagem sobre a pandemia de coronavírus. Expliquei que, aos 80 anos de idade (que completo mês que vem), correria o risco de não concluir o trabalho.

Como o Covid-19 é um assunto que não morre tão cedo, se voltasse hoje a falar sobre ele, não haveria a menor chance do tema ficar obsoleto até sábado.

Neste exato instante, 19h00 de 23 de abril, a situação é completamente distinta. A conjuntura está confusa em Brasília. Isso me obriga a tecer considerações sobre hipóteses. Faz de mim uma espécie de adivinho, um colunista a futuro.

Há leitores com posições políticas extremadas que não gostam quando escrevo sobre o presidente Jair Bolsonaro.

Quando jovem, eu era assim com o político Carlos Lacerda, entre outras coisas lendário deputado, jornalista e governador do Estado da Guanabara. Concordava com tudo que ele dizia, fosse o que fosse. Até que li “Depoimento”, livro de memórias escrito pelo próprio.

Ao longo do texto, ele conta (em tom de confissão), nos mínimos detalhes, as inúmeras vezes que mentiu para obter vantagens políticas. Inclusive dá o nome das pessoas que difamou, entre elas um ex-presidente da Panair do Brasil.

Voltando a Bolsonaro, não há como evitar citá-lo a todo momento, já que ele mesmo faz questão absoluta de ser sempre o centro das atenções.

Na sexta-feira dia 20 de março, disse que uma “gripezinha” (referia-se, obviamente, ao Covid-19) não iria derrubá-lo.

Quatro dias mais tarde, rebaixou o vírus para “resfriadinho”.

Esta semana declarou que 70% dos brasileiros serão alcançados pela doença, número esse que nenhum infectologista do mundo arriscou prognosticar.

O capitão tinha três ministros importantíssimos:

Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, vinha se comunicando diretamente com a população todos os fins de tarde, dando conta do andamento da pandemia no Brasil. Com isso, acrescido de enorme carisma e afabilidade pessoal, angariou respeito e confiança dos que o viam e ouviam, tendo sua popularidade chegado a 76%, mais do que o dobro da aprovação do presidente.

Como o ministro defendia o isolamento horizontal, e Bolsonaro propugnava o vertical, o choque foi inevitável.

Tendo Mandetta se recusado a renunciar ao cargo, foi demitido.

Coronavírus fora, o ministro mais importante do governo sempre foi Paulo Guedes, da Economia, o Posto Ipiranga.

Sua equipe avançava em direção às reformas, inclusive explicando cada detalhe às casas do Congresso, tendo sido peça-chave na aprovação da Reforma da Previdência, quando foi atropelada pelo Covid-19.

Agora os generais palacianos anunciaram um ambicioso projeto de investimentos públicos em infraestrutura, o Pró-Brasil, sem a presença de Guedes, que ficou sabendo do “Plano Marshall” brasileiro pela mídia.

Tudo indica que se trata de mais uma fritura.

Enquanto escrevo esta crônica, com medo da obsolescência da matéria, vejo que Jair Bolsonaro está querendo demitir o diretor-geral da Polícia Federal, Mauricio Valeixo, homem de confiança do ministro da Justiça, Sergio Moro, outro cujo índice de aprovação supera, por larga margem, o do presidente da República.

Numa época como esta, minhas newsletters deveriam estar tratando de outros assuntos, principalmente da pandemia de coronavírus e do mercado de petróleo. Mas Bolsonaro simplesmente não me deixa.

Tal como faz com a imprensa e com a opinião pública, ele se insere em primeiro plano.

Como este tipo de atitude é um dos fundamentos que, no momento, regem os mercados brasileiros de ações e de câmbio, só me resta falar sobre eles, mesmo sob pena de ser desmentido pelos fatos.

Tenho de escrever e torcer para que, quando o caro amigo assinante ler esta crônica, ela já não tenha se tornado um assunto totalmente ultrapassado. Letra morta.

Sabe-se lá o que o capitão-presidente estará pensando amanhã (sexta-feira), ou que tipo de comportamento terá no fim de semana.

A única coisa da qual posso ter certeza é que, qualquer que sejam as atitudes de Bolsonaro, elas afetarão o mercado. Afinal de contas, ele não aceita que um simples vírus vindo lá dos cafundós da China lhe roube o protagonismo.
 

* * *
 

Sexta-feira, 24 de abril. Meio dia. Após uma entrevista de 45 minutos, o ministro da Justiça, Sergio Moro, anunciou seu pedido de demissão.

Com isso, o governo vai se fechando em torno do círculo palaciano e da “primeira família”, faltando ao presidente (ele sempre dá um tempo entre uma investida e outra), criar novo inimigo.

Ao longo de minha vida, já vi isso acontecer outras vezes: com Getúlio Vargas (que acabou em suicídio), com Jânio Quadros (que terminou em renúncia), com Collor de Mello e Dilma Rousseff (que sofreram impeachments).

Se o mando do clã dos Bolsonaros durar muito tempo, isso será negativo para a Bolsa e o câmbio. Caso o destino encurte esse período turbulento de nossa República e o país, dominada a pandemia do coronavírus, se volte para as reformas imprescindíveis, o mercado de ações voltará a subir.

Um grande abraço,

Ivan Sant'Anna

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