Mercadores da Noite #170 - Covid-19, o livro

Ivan Sant'Anna Publicado em 18/04/2020
6 min
Ivan retoma vasta experiência de livros-reportagem do setor aéreo para exemplificar como escreveria a história do coronavírus.

Caro leitor,

Diversos amigos, leitores, assinantes da Inversa e colegas de empresa têm sugerido que eu escreva um livro sobre a pandemia do novo coronavírus, suas consequências na vida (e morte) dos habitantes do planeta.

Pedem também, é claro, que eu conte como se comportou o mercado financeiro em meio à tragédia de amplitude mundial.

A todos, explico que não pretendo fazer isso. Até gostaria, mas na minha idade (faço 80 anos no mês que vem), corro o risco de morrer antes de concluir o trabalho.

Além disso, as pesquisas para um livro como esse devem começar, no mínimo, uns dois ou três anos após o encerramento total da pandemia. Isso, segundo minhas suposições (sem nenhuma base histórica ou científica, apenas “palpitômetro”), não ocorrerá antes de meados de 2021.

Até agora, já publiquei 11 livros-reportagem. Em cada um deles, esperei que todos os fatos tivessem sido esclarecidos antes de dar início às pesquisas.

Em 1929: a quebra da bolsa de Nova York, publicado pela Inversa em 2018, os eventos ocorreram 80 anos antes. Pude ler mais de 30 livros a respeito do crash e da Grande Depressão, fora o que eu já conhecia, pois sempre me interessei pelo assunto.

Quando, em 1998, comecei a pesquisar para o meu livro Caixa-Preta: o relato de três desastres aéreos brasileiros, lançado em novembro de 2000, o acidente mais recente (Varig-254), acontecera nove anos antes.

Caixa-Preta se tornou best-seller, permanecendo na lista dos mais vendidos durante sete meses. Sem falsa modéstia, um prêmio merecido ao meu esforço.

Para narrar as três tragédias, entrevistei oito tripulantes sobreviventes dos desastres, além de 12 aeronautas que conheciam bem as histórias. Controladores de voo foram três e autoridades aeronáuticas, 9.

Conversei, pessoalmente ou por telefone, com nove parentes próximos dos mortos, além de nove jornalistas que cobriram os desastres.

Consultei seis integrantes do Poder Judiciário.

Gravei depoimentos, troquei e-mails, obtive arquivos de fotos, li, em bibliotecas, incontáveis exemplares de jornais e revistas. Assisti a diversos vídeos que me foram cedidos pela TV Globo.

Cartas aeronáuticas, relatórios de órgãos oficiais de investigação de desastres, processos judiciais: tudo isso foi lido antes que eu escrevesse a primeira palavra da narrativa.

Plano de Ataque, que conta a história dos quatro voos do 11 de setembro de 2001, quase me enlouqueceu, tantos eram os documentos que tive à disposição, inclusive The 9/11 Commission Report, relatório oficial do Congresso americano sobre os atentados.

Agora imaginem descobrir o que aconteceu nos quatro cantos do planeta depois que um vírus misterioso e altamente letal começou a se espalhar na cidade de Wuhan, província de Hubei, no interior da China.

Boa parte das pesquisas eu poderia fazer na internet. Só que com um agravante: há informações demais e isso confunde.

Depois de aproximadamente um ano de estudos, gostaria de ir a Wuhan, capital da província de Hubei. Como não falo uma palavra de mandarim, nem tenho a menor intimidade com a China, teria de contratar um fixer.

Quando, por exemplo, uma equipe da CNN ou da BBC vai cobrir um terremoto ou guerra civil, a primeira coisa que a produção faz é encontrar um bom fixer. Trata-se de um profissional num nível acima de guia ou intérprete.

Fixers contratam carros com motoristas (quando não são eles os próprios), levam você às pessoas e aos lugares que interessam para as pesquisas.

Talvez uma moça de Wuhan que perdeu o pai e a mãe para o coronavírus não queira hoje falar sobre o assunto. Mas, daqui a quatro ou cinco anos, ela irá falar.

Mais do que isso, ela vai se sentir aliviada em relatar seu sofrimento. Sei disso por causa de minha experiência com parentes de vítimas de desastres aéreos.

Na Itália, o Covid-19 começou a se espalhar no estádio San Siro (ou Giuseppe Meazza), em Milão, durante uma partida entre o Atalanta e o Valencia pela Champions League.

Já na Espanha, o estopim foi uma passeata de 200 mil mulheres em Madrid.

Para descrever os dois fatos, não precisaria ir lá. Só que, indo, sempre se descobre um plus, algo comovente, quem sabe a história de um homem de 90 anos que sobreviveu após ficar 30 dias entubado no CTI de um hospital, para logo em seguida perder o filho para a doença.

Meus livros-reportagem não contém gráficos, tabelas ou notas de pé de página. Procuro, em todos eles, o lado humano, aquilo que irá sensibilizar o leitor. Sem que ele deixe de tomar conhecimento do principal.

Até agora, e esta calamidade está longe de chegar ao final, o cenário mais funesto é o da cidade de Guayaquil, no Equador, onde urubus sobrevoam bairros pobres com cadáveres putrefatos abandonados nas calçadas.

Jamais pesquisaria sobre o Covid-19 sem ir a Guayaquil. Quero saber, das testemunhas, nos mínimos detalhes, como as autoridades locais deixaram que isso acontecesse?

Claro que o mercado financeiro é um dos componentes importantes de um relato como o que imagino. Afinal de contas, em todo o mundo, muita gente perdeu suas economias e seu emprego, quando não ambos.

Por essas razões, não me resta tempo para escrever a história que essa história merece. História que será relembrada daqui a 100, 200, 300 anos, tal como se fala até hoje da Gripe Espanhola (1918/1920) e da peste bubônica (ou Peste Negra), que dizimou um quarto da população da Europa no século XIV.

Minha colaboração, assim como a da Inversa, para alguém que um dia resolver encarar essa empreitada, são as dicas e sugestões acima, baseadas na experiência que adquiri nesse tipo de relato.

Boa sorte, bom trabalho, meu caro amigo autor desconhecido.

Abraço,

Ivan Sant'Anna

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