Mercadores da Noite #17 - Não trabalhamos com dinheiro

Ivan Sant'Anna Publicado em 23/08/2017
6 min
O que eu acho de criptomoedas

Mercadores da Noite

Caro leitor,
Para ser honesto, eu deveria ser a última pessoa do mundo a falar (e muito menos a escrever) sobre criptomoedas, já que jamais as usei, nem como meio de pagamento, nem como investimento ou especulação. Mas como tenho lido muitos artigos sobre bitcoins, inclusive de meus colegas da Inversa, resolvi devanear um pouco sobre o assunto.  Vamos de saída virar a clepsidra do tempo e deixá-la recuar algo como dois milênios. No apogeu do Império Romano, começou a chegar muito ouro na Cidade Eterna, resultado de pilhagens das legiões dos césares na Ásia, África e Europa.

Como os escambos haviam sido substituídos por negócios feitos com moedas, e sendo as de ouro as mais valiosas, logo os preços começaram a subir. Tratava-se do óbvio ululante: inchaço do meio circulante, tendo como contrapartida quase a mesma quantidade de bens e serviços à disposição dos romanos. O resultado surgiu sob a forma de inflação. A culpa, como muitas vezes aconteceu na História, recaiu sobre os comerciantes. Muitos deles foram, literalmente, lançados às feras (no Coliseu)

Já em meados do segundo milênio, durante as Grandes Descobertas, os galeões que chegavam à Europa recheados de barras de ouro e prata vindas do Novo Mundo provocaram um surto inflacionário na Inglaterra, França, Holanda, Portugal, Espanha, etc. Ganância dos comerciantes, concluiu o populacho. Consequência: comerciantes na fogueira.

Mais tarde, para facilitar as coisas, e apenas para facilitar as coisas, o papel-moeda passou a ser usado para as transações. Só que o total do meio circulante tinha de coincidir com a quantidade de metais preciosos nos cofres do Tesouro.

De vez em quando um país emitia moeda sem lastro. Durante a guerra civil americana (1861-1865), por exemplo, os estados do sul imprimiram dólares sem reservas correspondentes. Resultado: hiperinflação. No último ano do conflito o dólar confederado desvalorizou-se 5.725 por cento.

No final do século 19 e na primeira metade do século 20 a prática de se emitir papel-moeda deslastreado tornou-se lugar-comum. Durante as duas guerras mundiais apelava-se para o patriotismo dos investidores, que compravam bônus de guerra de seus respectivos países.

A conferência de Bretton Woods, realizada na cidadezinha do mesmo nome, no estado americano de New Hampshire, em julho de 1944, quando já era praticamente certa a vitória dos Aliados, optou pela volta do padrão-ouro. A onça de ouro valeria 35 dólares e as moedas de cada país passaram a ter um valor fixo em relação ao dólar.

Evidentemente seria impossível manter essas correspondências. Safras, oscilações nos preços das commodities e desatinos monetários provocavam alterações. Surgiram daí os acordos com o Fundo Monetário Internacional, sempre que um dos países-membros do FMI não conseguia manter sua paridade com o dólar.

Nos Estados Unidos o padrão-ouro durou até o governo Nixon, embora à época se desconfiasse que o dólar em circulação já não correspondesse, na proporção de 35 por 1, às reservas de Fort Knox, onde o Tesouro americano guarda suas barras de ouro.

O presidente da França, Charles de Gaulle, foi o primeiro estadista a dizer: “Pago pra ver. Quero que os Estados Unidos nos entreguem o ouro que o Tesouro francês tem lá.”

Não fosse De Gaulle, teria sido outro. O certo é que Nixon não teve outra alternativa a não ser a de liberar geral no mercado de moedas, desvinculá-las do dólar e do ouro. Cada cidadão passou a depender da confiabilidade de seus governantes e de seus bancos centrais e, nas situações emergenciais, de acordos com o FMI, que impõe às nações que a ele recorrem um programa de austeridade.

Temos então a situação atual. Ninguém confia no bolívar venezuelano, por exemplo. Todo mundo faz fé no iene japonês apesar do país “pagar” taxas de juros negativas em seus títulos públicos e a despeito do déficit japonês equivaler a 250 por cento do PIB.

O Equador e o Zimbábue abdicaram de ter moedas. No primeiro circula o dólar. No segundo: o dólar, o rand sul-africano, o euro e a libra. Em Barbados, por exemplo, onde estive no ano passado, a cotação é permanente: dois dólares locais valem um americano. Você pode pagar num deles e receber o troco no outro.

 

 

 

Agora surgiram as criptomoedas, sendo bitcoin a mais importante delas. Alguns dizem que é bolha, outros garantem que é corrente (jogo das cadeiras), e finalmente há os que a ignoram. Acontece que quem investiu em bitcoins até agora se deu bem.

 

 

 

Digamos que a coisa realmente dê certo. Já imaginou uma companhia aérea vendendo passagens em bitcoins? Já imaginou um supermercado que aceita bitcoins? Ao que tudo indica, logo isso poderá estar acontecendo.

 

 

 

Bolha, crash ou revolução?

 

 

 

Moeda é um atestado de confiabilidade no presente e de confiança (ou desconfiança) no futuro.

 

 

 

O que me fascina no bitcoin é o fato de não poder ser emitido por um país. Imaginemos, por exemplo, um juiz do estado do Alto Madeira (inventei agora), que acaba de receber um ordenado equivalente a 15 vezes o teto salarial do funcionalismo, que já é obsceno. Pois bem, esse juiz vai a uma concessionária de automóveis comprar um SUV novinho para o filho que está fazendo 18 anos.

 

 

 

“Quanto é?”, pergunta o magistrado, seu ar blasé dando mostras ao vendedor de que não irá pechinchar.

 

 

 

“Um bilhão, quatrocentos e dois milhões e quinhentos mil bitcoins.”

 

 

 

Se estivesse montado, o juiz cairia do cavalo. “Me disseram que custava 100 mil reais. Eu faria um TED agora”, o ar blasé de Sua Excelência transformara-se numa fisionomia mista de perplexidade e profunda indignação.

 

 

 

“Nós não trabalhamos com dinheiro.”

 

 

 

Pode ser que isso jamais aconteça. Só que sonhar não é proibido. Eu dava tudo para que aquelas cuias de banda para cima e de banda para baixo não tivessem a menor influencia sobre o que nós, empreendedores independentes, pagamos e recebemos.

 

 

 

Afinal de contas, o primeiro estalajadeiro inglês que recebeu, por um pernoite, uma nota de dois shillings ao invés de uma moeda que pudesse morder deve ter desconfiado um bocado.

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