Mercadores da Noite #169 - Como operar um bear market

Ivan Sant'Anna Publicado em 11/04/2020
5 min
Ivan avalia cenário atual e compartilha ensinamentos para operar na crise

Caro Leitor(a),

Antes de mais nada, é preciso que nos conscientizemos que, desde 24 de janeiro deste ano, a Bolsa de Valores de São Paulo iniciou um bear market.

Claro que nesse dia ninguém sabia disso, a não ser que tivesse bola de cristal. O Ibovespa fizera uma máxima de todos os tempos a 119.593,10 e tudo indicava que os 150.000 eram questão de meses.

A razão para essa alta era simples. Embora a economia não estivesse respondendo como se esperava, a rentabilidade dos fundos e dos títulos de renda fixa se aproximava de zero. Em alguns casos, tornara-se negativa.

Poucas coisas são tão bullish para o mercado de ações quanto a falta de alternativa de investimentos com retorno positivo.

Veio então o coronavírus e, com ele, o pânico. E pânico nos highs é garantia certa de crash.

De suas máximas, também alcançadas no início deste ano, até as mínimas recentes, o índice Industrial Dow Jones da NYSE caiu 37%, o S&P500, 34%, o Nasdaq, 30%, e o nosso Ibovespa aterrorizantes 45,80%.

O curioso é que todos os quatro índices acima citados atingiram seu low no dia 23 de março. Pudera! Nessa data:

    − O Ministério da Saúde da Espanha anunciou que o coronavírus já contaminara 33 mil pessoas, com 2.182 mortos.

    − O Reino Unido, após uma resistência inicial do primeiro-ministro Boris Johnson, foi posto em lockdown, após o próprio Johnson ter feito um teste que acusou positivo para o Covid-19.

    − O coronavírus chegou para valer nos Estados Unidos, com 13.119 casos positivos e 125 mortos só na cidade de Nova York. Detalhe: atualmente esses números decuplicaram.

Retire aqui sua cópia do livro 1929: a quebra da Bolsa de Nova York, por Ivan Sant'Anna.

De lá para cá, os mercados de ações começaram a se recuperar. Pena que se trata apenas de rali típico de bear market e não um caso de inversão de tendência.

Mesmo que ao longo dos próximos meses a pandemia reverta, restará a conta a ser paga. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram gastos trilhões. Quinhentos bilhões será o déficit do orçamento no Brasil. Por enquanto.

A recessão mundial é inevitável, havendo riscos de depressão. Nada parecido com a dos Anos Trinta (ocasião em que o governo americano se omitiu), mas mesmo assim depressão. Fala-se em queda de dois dígitos nos PIBs de diversos países.

Quem teve a sorte, ou o reflexo instintivo, de detectar as mínimas, está com o dedo no gatilho para vender ao primeiro sinal de fraqueza.

Se tiver ganhado 10 ou 15%, vai achar o máximo. Isso poderá equivaler a uma década, ou até mais, de rendimentos de títulos do Tesouro americano.

Para os profissionais, afeitos ao risco, a melhor maneira de se operar um bear market é vender os índices Ibovespa ou S&P 500 em ralis. Com stops curtos, bem entendido.

Já para aqueles que só gostam de operar do lado long (comprado), sugiro procurar barganhas, empresas que não têm o menor risco de quebrar e estão cotadas abaixo do que seria razoável tendo em vista as perspectivas futuras.

Eu já disse isso em outra crônica, mas não custa repetir. Nos próximos 12 ou 24 meses dificilmente o Ibovespa voltará a testar as máximas a 119.500. O mesmo acontecerá com o Dow, o S&P e o Nasdaq.

Um quarto de hotel ou poltrona de avião (que, aliás, não decolou) são as mercadorias mais perecíveis do mundo. Uma vez não ocupadas, jamais se recuperarão. Os restaurantes não servirão, ao mesmo tempo, dois steak au poivre para a mesma pessoa.

Ninguém irá rodar em dobro com o carro quando puder sair de casa. Petróleo não consumido, não será queimado duas vezes para compensar.

Quando a doença for embora, sobrarão os números. Números negativos, bem entendido, a não ser os dos déficits. Ou positivos, se estivermos falando de inflação futura ou de aumento de impostos.

O momento é dos ursos. Quem souber se aliar a eles, vai ganhar dinheiro. Aqueles que acham que em breve tudo voltará ao normal terão forte decepção.

Em 1980, a Petrobras se beneficiava com a queda do petróleo e perdia com a alta. Pois produzia apenas pequena parte do consumo brasileiro. Era importadora do produto e, por decisão do governo Figueiredo, não repassava integralmente os preços para os consumidores.

Quando, em 22 de setembro de daquele ano, o Iraque invadiu o Irã, disseram que a guerra duraria apenas algumas semanas. Eu acreditei nessa previsão e aproveitei a queda dos papéis da Petrobras para comprar um bom lote no mercado futuro.

O conflito durou simplesmente oito anos. Evidentemente fiz um stop logo no início, não sem antes me lascar todo.

Jamais “treidei” pandemias. Estou aprendendo agora. Mas de bear markets entendo bem, porque alguns doeram no meu bolso.

Desde o começo do ano, estamos em um deles. Resta saber operá-lo.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

Se você está se perguntando como será do futuro, eu vou te mostrar… Saiba aqui.

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