Mercadores da Noite #168 - De volta ao G-2

4 de abril de 2020
Todo mundo sabe que existe um G-20, mas quem importa mesmo são os EUA e a China. E o Ivan te explica como isso impacta os mercados e os seus investimentos nos próximos anos.

Caro Leitor(a),

Depois que a extinta União Soviética explodiu sua primeira bomba atômica em Semipalatinsk, no Cazaquistão, em 29 de agosto de 1949, o ditador Joseph Stalin expandiu sua influência pelo mundo.

Garantiu o avanço comunista em diversos países, que a imprensa ocidental passou a chamar de satélites de Moscou.

Uma vez que os Estados Unidos, após a explosão experimental de Los Alamos (num deserto do Novo México em 16 de julho de 1945) e as explosões para valer de Hiroshima e Nagasaki (respectivamente em 6 e 9 de agosto do mesmo ano), já eram uma potência nuclear, passaram a ser duas as superpotências.

Washington e Moscou dividiram o mundo em dois feudos, cada um sob sua área de influência.

Eis como defino esse domínio na página 200 de meu livro “Os Mercadores da Noite”, edição da Inversa, quando narro um encontro entre os líderes americano, Richard Nixon, e soviético, Leonid Brezhnev, na fazenda de Nixon em San Clemente, na Califórnia.

“…Os dois participavam de mais uma reunião de cúpula, colocando em dia a eterna agenda comum das duas superpotências: desarmamento, paz mundial e, bem lá entre eles, divisão da Terra entre os feudos soviético e americano...”

O termo G-2 não era usado, como aliás nunca foi até hoje, mas eram eles que mandavam.

Quando, dez anos mais tarde, o presidente Ronald Reagan deu ordens para o início da execução do projeto Star Wars, segundo o qual os Estados Unidos teriam escudos de mísseis orbitando ao redor da Terra, os soviéticos se conscientizaram que já não eram mais páreo para os americanos.

Moscou começou a perder a importância. Isso se acentuou com a eleição de um papa polonês, o cardeal Karol Józef Wojtyla, que adotou o nome de João Paulo II, e, com a ascensão de Mikhail Gorbatchev ao posto de Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética.

Sem que os soviéticos conseguissem impedir, o papa apoiou o líder Lech Walesa, e seu sindicado Solidariedade, com sede na cidade de Gdansk. Walesa se opunha ao governo polonês que, até então, seguia as diretrizes de Moscou.

Percebendo que a URSS estava à beira do colapso, Gorbatchev adotou a perestroika (reforma do sistema econômico) e a glasnost (transparência).

Como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas reunia 15 repúblicas, 113 grupos étnicos, 11 religiões e 123 idiomas diferentes, tornou-se impossível manter unido o país com um regime democrático.

Em 1991, a união desmoronou feito um castelo de cartas (com minhas desculpas pelo clichê).

Desde 1976, as nações mais ricas do mundo haviam criado o Grupo dos Sete (G7), do qual a União Soviética não participava. Apesar de todas as aparências, no frigir dos ovos era dos Estados Unidos a palavra final. Quando a contraparte URSS se desmantelou, os EUA tornaram-se a única superpotência mundial.

Enquanto tudo isso acontecia, a China, que abrigava a maior população do planeta, passava por grandes transformações.

Após o fracasso do Grande Salto para a Frente, de Mao Tsé-Tung, que deixou dezenas de milhões de mortos, por causa da grande fome gerada pelo plano, da Revolução Cultural, que retrocedeu o país em décadas, surgiu um líder transformador, Deng Xiaoping, aquele do gato preto ou branco.

Iniciou-se aí o crescimento, em níveis estonteantes, da economia chinesa. Por mais que isso possa parecer uma heresia aos defensores do sistema democrático, o segredo do sucesso foi a perestroika sem glasnost.

Aos poucos, surgiu uma nova superpotência e, com ela, um novo G-2, embora o termo continuasse não sendo usado.

A maior prova de que o G-2 existe é o que está acontecendo durante o surto do Covid-19. Embora a China exiba o maior número de infectados, e os Estados Unidos o de mortos, a força dos dois países não diminuiu nem de leve.

Exemplo disso, são as coisas que estão acontecendo na luta contra a pandemia.

O governo americano se apropriou de equipamentos de combate ao coronavírus (máscaras de proteção e respiradores artificiais) que já estavam vendidos para a França. Fez isso de maneira truculenta e antiética.

America first, prevaleceu o slogan de Donald Trump.

Washington enviou 23 grandes aviões cargueiros, levando negociadores. Estes adquiriram a carga já embalada para ser enviada para os franceses, 
 
Além de pagarem três vezes mais, em dinheiro vivo, à firma produtora do equipamento, arcaram com as multas decorrentes do não cumprimento da obrigação contratual com a França. O presidente Emmanuel Macron ficou furioso.

Aqui, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, acusou os americanos de se apropriarem de máscaras e luvas chinesas já destinadas ao Brasil.

Fora isso, os EUA compraram 100 mil sacos mortuários de plástico, praticamente zerando o estoque chinês.

Se tais evidências não bastassem para demonstrar a existência de um G-2, a China aproveitou a baixa nos preços do petróleo para adquirir estoques para três meses.

Agora os chineses anunciaram que estão pensando em dobrar a compra para elevar seus estoques estratégicos de modo a abranger um semestre inteiro.

Já saindo da epidemia do vírus que surgiu em uma de suas províncias, Pequim conta com mais de três trilhões de dólares de reservas cambiais. Anuncia, com pesar, que a economia do país “só” crescerá dois ou três por cento em 2020.

Quanto aos Estados Unidos, eles não só contam com o privilégio de emitir moeda de aceitação mundial, como podem lançar títulos do Tesouro “pagando” zero de juros.

Pelas razões expostas acima, cada vez que Donald Trump conversa ao telefone com seu parça Xi Jinping é o G-2 em ação.

Enquanto isso os demais Gs (como todo mundo sabe, existe um G-20, do qual até a Argentina faz parte), é pura enganação. 

Se o caro amigo leitor quer mesmo estudar os fundamentos que regerão os mercados nos próximos anos, mantenha um olho em Washington e outro em Pequim. Esqueça o resto.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Nas newsletters “Os Mercadores da Noite” e “Warm Up Inversa”, Ivan dá sugestões investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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