Mercadores da Noite #166 - Chegou a hora?

Ivan Sant'Anna Publicado em 21/03/2020
1 min
Podendo ter já antecipado o pior, mercado apresenta oportunidades de compra de ações

Caro leitor,
 
Volta e meia os assinantes da Inversa me perguntam sobre como agir nas circunstâncias atuais, com o mundo sendo afetado por uma séria crise de saúde e ainda mais séria crise financeira.

Fora a de confiança.

Nas suas indagações, eles procuram se ancorar na minha experiência, pelos 62 anos em que atuei no mercado, seja como trader, broker e, finalmente, escritor e analista.

Por mais que dê tratos à bola, não consigo me lembrar de nenhuma situação parecida como a de agora, simplesmente porque isso não aconteceu. Não deste modo.

Retroagindo a momentos anteriores à minha entrada no mercado, em 1958, e mesmo pautado por acontecimentos que se passaram antes disso, e até a fatos ocorridos antes do meu nascimento (em 1940), dá para se notar que mesmo os piores eventos tiveram início, meio e fim.

Comecemos por cinco hecatombes infinitamente piores do que a atual.

Estou me referindo à Primeira Guerra Mundial, à Gripe Espanhola, ao crash da Bolsa de 1929, à Grande Depressão e à Segunda Guerra.

Nem estou computando o colapso de 19 de outubro de 1987, mais conhecido como Black Monday, cuja recuperação aconteceu rapidamente graças à pronta atuação do FED.

Fora esses cinco, acho que a crise do coronavírus é o pior momento do mercado desde o início do século passado. Bem mais grave do que o do subprime (2007/2010).

Comecemos pela Grande Guerra (1914-1918) que, com o advento de uma segunda, 21 anos mais tarde, passou a ser conhecida como Primeira Guerra Mundial.

Um mês após o assassinato, em Sarajevo, na Bósnia, em 28 de junho de 1914, do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, evento que foi o estopim do conflito, a Bolsa de Valores de Nova York suspendeu os negócios por quatro longos meses.

Durante a guerra, ora a vitória pendia para os alemães, ora para os Aliados. Era quase impossível prever seu término, muito menos quem iria ganhar.

O que ninguém esperava era que, aos combates, se sucederia uma epidemia que deixaria 50 milhões de mortos, três vezes mais do que na Grande Guerra.

Claro que estou me referindo à Gripe Espanhola (janeiro de 1918 a dezembro de 1920).

Surpreendentemente, nos seis anos e seis meses compreendidos entre o assassinato do arquiduque e o fim da pandemia, o Índice Industrial Dow Jones se valorizou quase 50% (+ 46,63), quem sabe antecipando o fato de que os Estados Unidos estavam se transformando na maior economia mundial, liderança que mantêm até hoje.

Para efeitos de mercado, o crash de 1929 foi a maior catástrofe do século XX e deste início do XXI.

Tratou-se de uma bolha provocada pelo sentimento de que os Estados Unidos estavam erigindo uma sociedade na qual “todos seriam ricos”.

O FED nada fez para evitá-la. Muito pelo contrário, a estimulou.

Quando o crash aconteceu, o governo americano declarou que não era problema dele.

Resultado: sobreveio a Grande Depressão dos Anos 1930.

Entre a máxima do Dow Jones nos “Esfuziantes Anos Vinte” (The Roaring Twenties) e a mínima, alcançada na sexta-feira dia 8 de julho de 1932, o índice perdeu 89,19% de seu valor. Caiu de 381,17 para 41,22.

Apressando a ampulheta do tempo, passemos à Segunda Guerra Mundial. Face aos seus horrores, o mercado de ações perdeu a importância.

Empresas começaram a produzir o que os governos determinavam, para ajudar no esforço de guerra, e não aquilo que lhes trazia mais lucro.

Executivos, quando não tinham mais idade para combater na Europa e no Pacífico, trabalhavam para o Estado recebendo um dólar por ano (one dollar men).

Nos Estados Unidos, investidores aplicavam seu dinheiro em bônus de guerra, com remuneração apenas simbólica.

Vieram então as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e a rendição do Japão. Só então o mercado de ações voltou a ser relevante.

Guerra Fria, guerras de Suez, Seis Dias e Yom Kippur, Revolução Iraniana, Guerra Irã-Iraque, duas guerras do Golfo, desmantelamento da União Soviética, ataques terroristas do 11 de setembro, Talibã, Al Qaeda, Estado Islâmico, guerra do Afeganistão…

Nada disso assustou tanto o mercado de ações quanto um vírus que se desenvolveu num mercado de animais vivos na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China.

Embora o vírus continue se expandindo horizontalmente através do planeta, alguns sinais de recuperação econômica começam a surgir em seus pontos de origem, principalmente a própria China e vizinhos asiáticos.

Acho que o mercado já embutiu a pior das realidades possíveis.

Ao contrário de outras ocasiões, os governos e os bancos centrais agiram com ligeireza e competência sem precedentes.

O mundo se viu inundado de liquidez.
Nos Estados Unidos, os cidadãos receberão cheques de mil dólares em casa, independentemente de suas necessidades.

Isso simplifica as coisas. Muita triagem e burocracia atrapalham.

Nos mercados de renda fixa, trilhões e mais trilhões de dólares estão sendo aplicados a taxas de juros negativas.

Está na hora de o dinheiro ainda disponível tomar o caminho das bolsas de valores, inclusive a brasileira.

Tenho recomendado investimentos em ações, lenta e seletivamente, o que reitero.

Embora o coronavírus esteja longe de atingir seu pico no Brasil, acho que o mercado de ações já se antecipou ao pior momento, tal como sempre acontece.

É o que as histórias que testemunhei, e as outras sobre as quais apenas li, me ensinaram.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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