Mercadores da Noite #164 - A Europa que estou vendo

Ivan Sant'Anna Publicado em 07/03/2020
1 min
Sem bolsas e coronavírus por perto, Ivan reflete sobre a cordialidade dos escoceses, avalia o Brexit como positivo contra migração de mão de obra desqualificada e relaciona altos cargos trabalhistas na Península Ibérica com baixa produtividade na Europa.

Caro leitor,
  
São 10h24 (hora do Reino Unido) de terça-feira, dia 3 de março. Começo a escrever esta crônica do meu quarto de hotel em Edimburgo, Escócia, a cidade mais bonita que visitei neste tour pela Europa.
  
Como se não bastasse, os escoceses são extremamente amáveis e educados. Exemplo disso é um episódio que aconteceu num ônibus de turismo no qual estávamos (viajo com minha mulher) fazendo um sightseeing pela capital escocesa.
  
Ocupávamos um banco na primeira fila do segundo andar do double deck bus, tentando, sem sucesso, conectar os earphones no pequeno painel ao lado do assento.
  
Vendo, pelo circuito interno de TV, nossa dificuldade, a motorista parou o ônibus, subiu as escadas e foi lá em cima ajustar os fones de ouvido.
  
A partir de 12h52, continuarei a redigir esta crônica a bordo do trem de alta velocidade da Virgin, que nos levará a Londres. Lá, dormiremos na casa de nossa filha. Ela mora na Inglaterra há 13 anos, é casada com um inglês e tem nacionalidade britânica.

Como esta “Os Mercadores da Noite” só será disparada para os assinantes no sábado, dia 7, nada falarei sobre bolsas e coronavírus. Em termos de mercado, quatro dias são muita coisa e não estou a fim de dar uma de adivinho e quebrar a cara. Prefiro comentar alguns aspectos interessantes que estou observando aqui na Europa.


  
Já estamos no trem, onde, como você pode perceber na foto abaixo, redijo com relativo conforto esta crônica. Mas antes de partir, fomos obsequiados com uma última gentileza. Pedimos à recepção do hotel para chamar um táxi para a estação ferroviária. Como ela fica a menos de 100 metros de distância, a concierge nos aconselhou a ir a pé. E, para nossa surpresa, foi conosco carregando as duas malas, sem que isso nos custasse um centavo. 
  
São assim os escoceses.

Mudando completamente de assunto, há três dias, jantando em Londres com minha filha, meu genro, e diversos casais amigos ingleses, que conhecemos há anos, falamos a respeito do Brexit.
  
Sendo londrinos e jovens, todos preferiam que o Reino Unido tivesse permanecido na União Europeia.
  
Tenho lá minhas dúvidas.
  
Após a Segunda Guerra Mundial, com milhões de refugiados vagando pela Europa, o Brasil tornou-se um dos polos de recepção de imigrantes.
  
Que fez o governo Dutra? Criou um Conselho de Imigração.
  
Não havia regras fixas. Os candidatos a fixar residência no Brasil eram analisados caso a caso. Desse modo, não recebemos quase nenhum nazista, tal como aconteceu na Argentina, nem pessoal muito desqualificado. Por outro lado, vieram muitos judeus que tinham perdido suas famílias em campos de concentração e se mostraram cidadãos extremamente empreendedores.
  
Acho que é isso que Boris Johnson tentará fazer no Reino Unido. Não permitir uma enxurrada de europeus do leste dispostos a trabalhar por qualquer salário, prejudicando os britânicos. Por outro lado, tenho a impressão de que os estrangeiros que já estão aqui vão ficar. Assim como vão permanecer no continente europeu os britânicos que já estão lá, inclusive os aposentados que mudaram definitivamente para países de clima mais ameno, como Portugal e Espanha.
  
Quero deixar claro que isso é apenas uma impressão minha e que não ouvi essa tese da boca de ninguém. Mas acho que o Brexit vai dar certo. 
  
O que os britânicos não podem deixar acontecer é o que acabo de ver em Paris: ruas imundas, lixo por toda a parte e pedintes agressivos. Vimos inclusive, do táxi, um assalto nas proximidades da Gare du Nord. Era um pequeno arrastão de três homens tirando todo o dinheiro de uma mulher, imobilizada por eles, sem que nenhum dos passantes fizesse nada.
  
Neste momento, o trem está cruzando a divisa e entrando na Inglaterra. Só sei disso porque consultei o GPS de meu celular. Não há nenhum posto ou checagem de fronteira.
  
Difícil acreditar que a Escócia vá se tornar independente. A identidade com a Inglaterra, e principalmente com a rainha, é muito grande.
As finanças escocesas dependem muito da economia inglesa.
  
Como se esses argumentos não bastassem, uma Escócia independente, se quiser entrar para a Comunidade Europeia, terá de entrar no final da fila e se enquadrar nas regras rígidas do Tratado de Maastricht.
  
Acho que os escoceses, cujo parlamento visitei ontem (foto abaixo), não vão cometer essa asneira. Mas tudo depende da maneira como Johnson vai conduzir o Brexit.     

Voltando a mudar de tema, mas sem sair do cenário europeu, fiquei impressionado com os encargos trabalhistas dos empresários, principalmente portugueses e espanhóis.
  
Despedir um empregado é algo quase impossível em Portugal, tantos são os direitos e multas rescisórias. Mesmo que o (a) cara tenha dado um desfalque.
  
A Espanha não fica muito atrás. Isso talvez explique os altos níveis de desemprego do país, quase nunca menos de 15%. 
  
Para quem como nós, brasileiros, testemunha a relativa facilidade com que a reforma previdenciária foi aprovada, é curioso testemunhar como os franceses estão saindo às ruas, e travando verdadeiras batalhas contra a polícia, para evitar que mexam em suas aposentadorias.
  
Na viagem de ida para Edimburgo, dividimos um compartimento do trem com um casal de escoceses, com o qual fizemos amizade.
  
Ele, Billie, é um homem forte, que está comemorando seu 50º aniversário. Trata-se de um oficial de polícia aposentado, que dedica a vida a cuidar de seus cachorros. Poderia tranquilamente trabalhar mais uns dez ou quinze anos, nem que fosse em tarefas administrativas ou de comando.
  
Esta é a Europa de contrastes que estou testemunhando e compartilhando com você, caro amigo leitor.
  
Coronavírus fora, jamais conseguirá competir com os chineses.

Um abraço.

Ivan Sant'Anna

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