Mercadores da Noite #162 - Espanha, 66 anos depois

Ivan Sant'Anna Publicado em 29/02/2020
4 min
Em seu diário de viagens pela Europa, Ivan fala das transformações na Península Ibérica, mas sem desviar a atenção do noticiário sobre o coronavírus. Para ele, é improvável que o Ibovespa volte a testar os 120 mil pontos.

Caro leitor,

São 11h58, horário da Espanha, do dia 25 de fevereiro, terça-feira de Carnaval. Estou começando a escrever este texto a bordo de um trem-bala, viajando entre Madri e Barcelona. Nossa velocidade é de 297 quilômetros por hora.

Nos últimos dias, voamos (viajo com minha mulher) do Rio para Londres num Boeing 787 (Dreamliner). Em Heathrow, fizemos uma conexão para Lisboa, onde chegamos num Airbus A321 da TAP. Tanto o chefe de equipe como o comandante e a copiloto eram leitores de Caixa-preta e nos deram um tratamento especial.

Ficamos três dias na capital portuguesa, de onde partimos ontem à noite para Madri, de trem, saindo da estação Oriente. Na plataforma, um assinante da Inversa me reconheceu e veio falar comigo.

Esse tipo de coisa é sempre gratificante para um escritor ou cronista, mais ainda quando acontece fora do Brasil.

Em janeiro de 1954, quando tinha 13 anos de idade, viajei no mesmo percurso desta noite, só que no sentido contrário: Madri/Lisboa. Outros tempos: Portugal e Espanha eram países muito pobres, principalmente o segundo, ainda resquício da Guerra Civil (1936-1939).

Com o cruzeiro valendo muito, principalmente em relação à peseta e ao escudo, tudo era quase de graça na Península Ibérica. A diária de um bom hotel em Madri, para uma família de cinco pessoas, custava o equivalente a cinco dólares.

Por ocasião do embarque para Lisboa na estação ferroviária da capital espanhola, minha mãe obrigou os três filhos a dar seus sobretudos para algumas crianças sem teto, que vagavam pela estação morrendo de frio e pedindo esmolas aos turistas, raros naquela época de pós-guerra, principalmente no inverno.

Com relação ao trem noturno no qual passamos esta noite de Carnaval de 2020, acreditem, passados 66 anos, não mudou nada, nem em velocidade nem em conforto. Acho até que piorou um pouco. Houve um momento, na subida da serra da Estrela, em que a velocidade era tão baixa que deu vontade de descer para dar uma forcinha à locomotiva.

Voltando ao magnífico trem-bala, como se fosse uma viagem no tempo, paramos agora em Calatayud, cidade da qual eu jamais ouvira parar.

Ontem, na plataforma da estação Oriente, em Lisboa, acompanhei, pelo celular, a estrondosa queda do Dow Jones, mais de 3,5%. Estou vendo agora, como não podia deixar de ser, as bolsas da Ásia acompanharem.

Digamos que houvesse um Ibovespa futuro funcionando 24 horas, inclusive sábados, domingos e feriados, também estaria desmoronando.

Já que ainda não atingimos esse estágio, suponho que mesmo nos blocos de Carnaval muita gente saracoteou preocupada. 

Vejo também que o coronavírus está se espalhando pela Coreia do Sul e chegou para valer na Itália, não muito longe daqui.

Voltando a falar sobre o mercado (esta crônica está uma salada, mas é sempre assim quando escrevo em viagens), não é a primeira vez que vejo o mundo das bolsas levar um tombo enquanto os brasileiros brincam o Carnaval.

Foi numa segunda-feira de Carnaval, em 1995, que o trader inglês Nick Leeson, chefe da trading desk da filial de Singapura do Barings Bank, então o banco mais antigo da Inglaterra, operando na ponta comprada o índice Nikkei da Bolsa de Tóquio na Symex, quebrou a instituição.

Pit stop. Acabamos de parar na estação de Zaragoza por não mais do que um minuto e retomamos viagem.

Retomando o fio da meada, quando Leeson alavancou ao máximo e se ferrou, levando o banco consigo, deixou os traders brasileiros impotentes, estando os mercados brasileiros fechados.

Em outra ocasião, sempre no Carnaval, quando o mercado de ouro na Bolsa de Mercadorias de São Paulo (Bolsinha) tinha grande liquidez, os futuros na Comex em Nova York deram quatro limites de baixa, caindo de 500 para 400 dólares, com os negócios aqui parados. Resultado: ferro para os touros.

Sei que ainda estamos no início do ano, mas acho extremamente improvável que o Ibovespa volte a testar, e muito menos ultrapassar, os 120 mil pontos. Coronavírus fora, acho que o bull market já fez suas máximas lá fora e dificilmente São Paulo deixará de acompanhar.

Uma recuperação do mercado brasileiro de ações, quando houver, será lenta. A cada etapa haverá fortes realizações de lucros.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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