Mercadores da Noite #161 - Um autor e seus personagens

Ivan Sant'Anna Publicado em 25/02/2020
1 min
Quem já se ferrou em futuros, opções e derivativos, quem já acordou rico e dormiu pobre, quem já acordou pobre e dormiu rico, não haveria de ser por causa de um fracasso literário qualquer que iria desistir da carreira de escritor

Caro leitor,

Outro dia, conversando com a Olivia Alonso, diretora da Inversa, ela sugeriu que de vez em quando eu variasse o tema, não me atendo exclusivamente ao mercado financeiro. Hoje, até em razão de a bolsa estar fechada pelo feriado de Carnaval, vou fazer isso nesta coluna. Vou contar para você, caro amigo leitor, como foi o processo criativo do meu livro Caixa-preta, que trata de tragédias aéreas.

A ideia de escrever sobre assuntos diversos já brotara quando lancei meu terceiro livro, Armadilha para Mkamba, tal como os dois que o antecederam, Rapina e Os Mercadores da Noite, ficções ambientadas no mundo das finanças.

Não que tivessem sido fracassos. Muito pelo contrário, os três livros foram bem recebidos pela crítica e pelo público. Mesmo assim eu quis variar. Só que, antes de Caixa-preta, decidi escrever um água com açúcar para revelar meu lado feminino. Para minha mais profunda desolação, descobri que não tenho lado feminino. Que sou um porco chauvinista.

Que nem sabão em pó foi um fracasso. A crítica só não demoliu totalmente o livro porque decidiu, quem sabe por pena, ignorá-lo. Foi pouco falado e não vendeu quase nada.

Mas quem já se ferrou em futuros, opções e derivativos, quem já acordou rico e dormiu pobre, quem já acordou pobre e dormiu rico, não haveria de ser por causa de um “sabão em pó” qualquer que iria desistir da carreira de escritor, embora tenha descoberto uma das minhas limitações. 

Como jamais escrevera um livro-reportagem, foi com certa dose de audácia que me lancei de cabeça no Caixa-preta. Foram três anos de trabalho, pesquisas e entrevistas. Descobri coisas surpreendentes, uma delas a de que matérias dos jornais raramente são confiáveis como fontes de informação.

Um avião cai às 14h03m, hora de Paris, 09h03, de Brasília. Através dos terminais de telex das agências, a notícia pipoca nas redações antes das nove e meia. Pouco mais tarde, quando os repórteres e editores começam a chegar, o chefe chama alguns deles e ordena:

“Você, pega a lista dos passageiros, tripulantes, vê se alguém sobreviveu. Preciso disso prontinho, no máximo, às seis da tarde.”

“Você, vai ao Galeão e descobre como foi o embarque.”

“Você, mocinha, quero a biografia completa dos mais importantes. Nesse tipo de voo tem sempre gente graúda.”

Enquanto o telex vomita novas notícias, muitas delas desmentindo as anteriores, o chefe de redação vai juntando tudo e disparando novas ordens. Às 23h, no máximo, o texto final tem de ir para as rotativas.

No dia seguinte, sai muita coisa errada nos jornais. Simplesmente porque não dá tempo para apurar, com precisão, a queda de um Boeing a 9.200 quilômetros de distância.

Eu, ao contrário, tive tempo mais do que suficiente para descobrir tudo sobre os acidentes com os voos Varig 820, em Paris, em 1973, e 254, também da Varig, na selva amazônica, em 1989, além do sequestro do Vasp 375, em 1988, num voo entre Belo Horizonte e o Rio. Os desastres haviam ocorrido respectivamente 25, 9 e 10 anos antes.

Para relatar o que aconteceu naqueles voos, executei um enorme trabalho investigativo. Já de posse do relatório oficial do Bureau d’Enquêtes et d’Analyses pour la Sécurité de l’Aviation Civile francês (voo 820), do Cenipa brasileiro (voo 254) e da Polícia Federal (voo 375), e, portanto, sabedor das histórias oficiais, fui atrás dos sobreviventes e dos parentes dos mortos nas tragédias.

Tive a oportunidade de demolir diversas teorias conspiratórias, entre as quais a de que o acidente do 707 em Orly foi causado por um foguete de Mirage que o Boeing supostamente transportava em seu porão e que pegara fogo (o incêndio foi causado por uma ponta acesa de cigarro), de que a FAB pensou em abater o Boeing 737-300 da Vasp (isso jamais aconteceu, pois o Planalto não sabia que o sequestrador queria lançar o avião lá) e que o Boeing 737-200 do comandante Garcez se perdeu porque os pilotos estavam ouvindo, pelo rádio, o jogo de futebol Brasil x Chile, pelas eliminatórias da Copa de 1990. Garcez ouviu o jogo após constatar que estava perdido, justamente para se orientar pelo radiogoniômetro.

Na apuração dos fatos, fiz dois amigos que se tornaram meus irmãos: Ricardo Chust Trajano, o único dos 117 passageiros que sobreviveu ao acidente do RG820;  o comandante Fernando Murilo de Lima e Silva, que precisou virar o Boeing de cabeça para baixo para desequilibrar o sequestrador. Essa manobra jamais fora executada num jato comercial.

Nada mais normal do que o autor de um livro autografar exemplares para seus leitores. Ainda mais no caso de Caixa-preta, que ficou na lista dos mais vendidos durante 30 semanas.

O que não é normal é o exemplar que tenho aqui na minha frente, autografado, para mim, por diversos dos “meus” passageiros e tripulantes, gente que sobreviveu aos desastres que narrei.

“Ao meu grande amigo e guru é com grande prazer que escrevo estas palavras de agradecimento por ter perpetuado a maior aventura de minha vida. Um beijão de seu amigo Murilo”, 14 de novembro de 2000 (comandante do Vasp sequestrado na quinta-feira 28 de setembro de 1988).

“Ao querido amigo Ivan, sucesso sempre para você! Um forte abraço do amigo Ricardo Trajano” (passageiro sobrevivente do voo 820).

“Foi um prazer poder ter contribuído para o seu sucesso”, escreveu a comissária de bordo Luciane Morosini de Melo, do Varig 254.

“Ivan, é um prazer ter lido essa história. Parabéns por esse relato. Ele está perfeito. Beijos, Bruna Lorena (que tinha três anos quando seu avião caiu na floresta).  “Parabéns pelo livro, desejo muito sucesso!”, escreveu Marinêz Coimbra, que levava a filha, a própria Bruna, no colo e que atravessou a noite caminhando pela selva, para evitar que a garotinha perdesse uma das pernas.

“Meu querido Ivan, foi uma honra conhecê-lo! Obrigada pela sua curiosidade. Ainda bem que existem pessoas como você! Obrigada. Um grande beijo.”, escreveu Georgiana Lecléry,     que tinha três anos, e estava em Paris, aguardando a mãe, Regina Lecléry, que morreu na queda do voo 820.

Eles legitimaram minha narrativa.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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