Mercadores da Noite #16 - O mundo não pode ser dos loucos

Ivan Sant'Anna Publicado em 16/08/2017
6 min
Alerta norte-coreano

Mercadores da Noite

Caro leitor,         

É evidente que com os índices Dow Jones e Standard & Poor’s 500 (S&P 500) sendo negociados muito próximos de suas máximas históricas, os traders de todo o mundo, assim como os do Brasil, se preocupem com as trapalhadas de Donald Trump, com a maneira como a Grã-Bretanha irá lidar com o Brexit e com as ameaças que o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, terceiro da dinastia de uma monarquia absolutista, implantada e patrocinada pelo “grande timoneiro” chinês Mao Tsé-Tung, à sua imagem e semelhança, faz quase todos os dias de atacar a Coreia do Sul, o Japão e os Estados Unidos, inclusive usando mísseis balísticos com ogivas nucleares.

Alto lá! Se houvesse a mínima possibilidade desses ataques acontecerem, é evidente que o mercado de ações de Wall Street estaria longe de sua máxima, preparado para o crash que se sucederia a uma detonação atômica em território americano, isso se a explosão não acontecesse na própria Nova York, hipótese em que o mercado seria (fisicamente) pulverizado.

Pois bem, nem esse mínimo de chance há. Por mais que Kim Jong-un seja um fanfarrão ridículo, suas bravatas se destinam ao consumo interno (a se consolidar no poder) e a obter vantagens comerciais da China e dos Estados Unidos.

Mesmo nos momentos mais críticos da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, nenhum dos lados disse onde jogaria uma eventual bomba, tal como Jong-un fez agora, ameaçando lançá-la sobre Guam, uma ilha do Pacífico onde os americanos possuem bases militares de grande importância estratégica.

Houve três ocasiões nas quais o NORAD – North American Aerospace Defense Command − emitiu o alerta DEFCON 3, que significa estado de alerta nuclear. Isso implica em pôr em prontidão máxima os submarinos equipados de mísseis com ogivas múltiplas de bombas atômicas e/ou de hidrogênio, ativar os silos instalados no território continental americano, assim como pôr em movimento os gigantescos veículos militares e vagões ferroviários que passam a percorrer as rodovias e os trilhos do país, monstrengos de onde saem mísseis nucleares. Como se tudo isso não bastasse, eles lançam no ar, onde serão reabastecidos por aviões tanques, bombardeiros de longo alcance com igual teor de letalidade.

Essas ocasiões foram, por ordem cronológica: a crise dos mísseis de Cuba (outubro de 1962); a guerra do Yom Kippur (outubro de 1973); e os ataques de 11 de setembro de 2001.

Na crise de Cuba, o presidente John Kennedy chegou a convocar à Casa Branca os embaixadores dos países amigos (inclusive Roberto Campos, do Brasil) para informar que se os soviéticos não retirassem os mísseis instalados na ilha de Fidel Castro e não fizessem dar meia-volta os cargueiros que se dirigiam à ilha comunista do Caribe com mais armamento nuclear, ele daria a ordem de um ataque atômico. Segundo afirmou Kennedy aos diplomatas, a União Soviética destruiria um terço do território americano, mas, em contrapartida, o imenso território soviético teria sido varrido do mapa.

Na guerra do Yom Kippur o DEFCON 3 foi acionado por excesso de zelo. Após o ministro da Defesa de Israel, Moshe Dayan, ter cogitado usar armas nucleares contra a Síria e o Egito, providência imediatamente rechaçada pela primeira-ministra Golda Meir (evento que eu narro em meu livro “O Terceiro Templo”), agentes dos órgãos de Inteligência ocidentais, localizados no estreito de Dardanelos, captaram emissões de nêutrons procedentes de navios de carga soviéticos em rota para o Mediterrâneo, o que poderia, muito remotamente, significar que os russos estariam deslocando armas atômicas para o Egito.

Uma rápida reunião, em Moscou, entre o secretário de Estado Henry Kissinger e o líder máximo soviético, Leonid Brezhnev, pôs fim ao mal-entendido.

Nos quatro ataques de 11 de setembro, o DEFCON 3 foi acionado por puro pânico (no início ninguém sabia do que aquilo se tratava) e logo cancelado.

Para as fanfarronices de Kim Jong-un, não está havendo DEFCON nenhum.

Outros países que estocam armas atômicas uns contra os outros, tal como acontece entre Índia e Paquistão, jamais ameaçaram lançá-las, já que a consequência seria uma destruição mútua.

Rússia, França, Grã-Bretanha e China, outros integrantes do clube atômico, nem de leve mencionaram a hipótese de usar seus arsenais nucleares, muito menos citando alvos, como é o caso do caricato norte-coreano.

Se Kim Jong-un lançasse seus mísseis, eles provavelmente seriam interceptados no ar e o território da Coreia do Norte seria reduzido a escombros por uma força aeronaval aliada. Isso sem uso de armas atômicas, já que a radiação iria sobrar para os vizinhos China, Coreia do Sul e até mesmo o Japão.

Vale lembrar que Seul, com dez milhões de habitantes, fica a menos de 60 quilômetros de distância da fronteira norte-coreana.

Há motivos e mais motivos lógicos para que o mercado de ações brasileiros tome rumo sul e inicie um prolongado bear market. Entre eles, agravamento da crise política; não inclusão da reforma previdenciária na pauta do Congresso Nacional; proposta de aumento do déficit fiscal para 2017 e 2018; rebaixamento do Brasil por parte das agências classificadoras de risco, possibilidade de Lula se candidatar à Presidência; saída do Henrique Meirelles ou do Ilan Goldfajn; enfraquecimento da Lava-Jato e uma série de outras calamidades.

Do lado externo também não se pode descartar a hipótese de Donald Trump fazer uma trapalhada sem tamanho (e sem volta), antes que alguns republicanos mais sensatos virem casaca e, aliados aos democratas, o “impichem”. Existe também a possibilidade do agravamento do conflito racial, iniciado em Charlottesville, na Virgínia.

A única coisa que não vai acontecer é um ataque nuclear norte-coreano. Seria a mesma coisa que jogar uma bomba atômica para cima, bem na vertical, e deixá-la cair em seu próprio território.

Toda vez que o mercado desabar por causa disso, vale a pena realizar lucro em posições shorts no Ibovespa futuro e em puts comprados.

A Inversa é uma Casa de Análise regulada pela CVM e credenciada pela APIMEC. Produzimos e publicamos conteúdo direcionado à análise de valores mobiliários, finanças e economia.
 
Adotamos regras, diretrizes e procedimentos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Resolução nº 20/2021 e Políticas Internas implantadas para assegurar a qualidade do que entregamos.
 
Nossos analistas realizam suas atividades com independência, comprometidos com a busca por informações idôneas e fidedignas, e cada relatório reflete exclusivamente a opinião pessoal do signatário.
 
O conteúdo produzido pela Inversa não oferece garantia de resultado futuro ou isenção de risco.
 
O material que produzimos é protegido pela Lei de Direitos Autorais para uso exclusivo de seu destinatário. Vedada sua reprodução ou distribuição, no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa.
 
Analista de Valores Mobiliários responsável (Resolução CVM n.º 20/2021): Nícolas Merola - CNPI Nº: EM-2240

Conteúdo protegido contra cópia