Mercadores da Noite #157 - Saco de gatos

Ivan Sant'Anna Publicado em 08/02/2020
6 min
Durante muitos meses, disse que em 2020 a Bolsa de Nova York seria fortemente influenciada pelas eleições presidenciais americanas. Pois bem, se achei, não acho mais.

 

Caro leitor,
  
Durante muitos meses, boa parte dos analistas, inclusive este que escreve para vocês, disse que em 2020 a Bolsa de Nova York seria fortemente influenciada pelas eleições presidenciais americanas de 3 de novembro.
  
Pois bem, se achei, não acho mais. Penso que, a não ser que se descubra um fato terrivelmente escabroso (porque escabroso de primeiro grau já surgiram diversos) na vida de Donald Trump, sua eleição será um passeio pela raia.
  
Isso no colégio eleitoral, quero dizer. Na contagem do voto popular, pode até ser que ele perca, por causa dos votos da Califórnia e de Nova York.

São duas as razões para essa minha quase certeza.
  
Trump está bem nas pesquisas de avaliação de seu governo, acaba de ser absolvido no processo de impeachment e a economia vai bem, apesar do coronavírus chinês, que pouco está afetando os Estados Unidos.
  
No caucus republicano de Iowa, o primeiro desta campanha eleitoral, Donald Trump conseguiu 97,1% dos votos, contra 1,3% de seu adversário, Bill Weld. Com esses números, Trump leva, para a convenção republicana, 39 delegados. Weld, apenas 1.
  
Do lado democrata, o caucus foi uma zona completa, um verdadeiro saco de gatos. Numa votação muito contestada, e que poderá até ser anulada, Pete Buttigieg e Bernie Sanders chegaram praticamente empatados: 26,2% dos votos, o primeiro; 26,1%, o segundo. Em terceiro lugar, aparece Elizabeth Warren (a Pocahontas), com 20,4%, seguida por Joe Biden (vice-presidente de Barack Obama), com 13,7%, e Amy Kobluchar, 12,2%. Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, surge lá na rabeira.
   
Esses resultados não são ainda definitivos, mas a contagem final, se mudar, será muito pouco.
  
Mas quem são essas pessoas que estão loucas para levar uma sova de Donald Trump?
  
Comecemos por Pete Buttigieg, 38 anos, apenas três a mais do que o mínimo necessário para assumir a presidência dos Estados Unidos. Sua experiência administrativa (é verdade que Trump não tinha nenhuma na área pública) se resume à prefeitura da pequena cidade americana de South Bend, no estado de Indiana.
   
Buttigieg é gay assumido. Em minha opinião, os americanos ainda não estão num estágio de avanço liberal para aceitar um presidente com esse perfil pessoal. Essa rejeição deve se manifestar no escondidinho das urnas.
  
 Os eleitores dos Estados Unidos levaram 219 anos para eleger um presidente negro. Nunca puseram uma mulher, nem um hispânico, nem um nativo americano (índio) no cargo. Os gays, julgo eu, ainda vão levar um bom tempo para atingir esse estágio, que ainda está em nível escandinavo.
   
Bem, mas Pete Buttigieg está empatado com Bernie Sanders.
  
E quem é Sanders? Para começar, tem minha idade: 79 anos. E terá oitenta ao (e se) assumir a presidência. Já sofreu um ataque cardíaco. É senador pelo estado de Vermont e extremamente popular entre os jovens, que constituem a grande maioria de seus eleitores.
  
Socialista declarado, promete um sistema universal e gratuito de saúde nos Estados Unidos, investimento maciço em educação, também gratuita. Quer promover a desconcentração de renda no país. É crítico feroz de Wall Street.
  
Vamos à terceira colocada entre os democratas no caucus de Iowa: Elizabeth Warren. O apelido de Pocahontas foi dado por Donald Trump. A história é a seguinte: Loiríssima, de olhos azuis, Elizabeth se declarou descendente de cherokees.
   
Como duvidaram, ela fez um teste de DNA que revelou uma percentagem irrisória de sangue indígena, retroativa a dez gerações. Os cherokees não gostaram nem um pouco e Trump aproveitou para chamá-la de Pocahontas. Ser cherokee não é problema. Mas seria um problemaço obter, em impostos, os US$ 20,5 trilhões necessários ao programa Medicare-for-All, que consta da plataforma de Warren.
   
Joe Biden, que seria bem acolhido pelo mercado financeiro, surge em quarto lugar na primeira disputa democrata da campanha.
  
Mas qual o peso de Iowa no colégio eleitoral? Seis votos num total de 538, ou seja, 1,1%. 
  
Então, por que se dá tanta importância ao caucus desse estado agrícola do Meio-Oeste? Primeiro, porque é lá que se se trava a disputa inaugural. Segundo, porque quase sempre os vencedores em Iowa costumam ficar com a indicação na convenção decisiva de seu partido.
   
Barack Obama, George W. Bush, George H. W. Bush (Bush pai) venceram os caucus em Iowa e levaram a indicação (mais tarde, a presidência). Donald Trump foi a exceção que confirma a regra.
   
O sistema eleitoral americano favorece muito a reeleição. Enquanto a oposição se destrói, cada candidato tentando descobrir podres dos adversários, o presidente em exercício não costuma ser desafiado por ninguém, a não ser simbolicamente.
  
Fora isso, há de se admitir que a economia americana está indo bem. O nível de desemprego é baixíssimo (3,5%, praticamente pleno emprego). Os índices Dow Jones, S&P500 e Nasdaq estão próximos de suas máximas históricas, a despeito do susto do coronavírus chinês.
   
Raramente o Fomc (Federal Open Market Committee – Comitê Federal de Mercado Aberto do Fed), mexe nas taxas de juros em ano eleitoral.
  
Por esses motivos, acho que Donald Trump será reconduzido ao cargo. Portanto, a disputa eleitoral não afetará a Bolsa de Nova York, tal como a gente pensava no ano passado. Isso pelo menos é o que o script do momento está mostrando.
  
Para quem opera ações no Brasil, é melhor se ligar nos fundamentos internos (como a recuperação da economia) e externos (como o coronavírus) não eleitorais. Eles darão o tom do mercado ao longo de 2020.

Um abraço,

Se você tiver críticas, elogios, sugestões ou perguntas ao autor desta newsletter, envie um e-mail para mercadores@inversa.com.br.

A Inversa é uma Casa de Análise regularmente constituída e credenciada perante CVM e APIMEC.

Todos os nossos profissionais cumprem as regras, diretrizes e procedimentos internos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Instrução 598, e pelas Políticas Internas estabelecidas pelos Departamentos Jurídico e de Compliance da Inversa.

A responsabilidade pelas publicações que contenham análises de valores mobiliários é atribuída a Felipe Paletta, profissional certificado e credenciado perante a APIMEC.

Nossas funções são desempenhadas com absoluta independência, não sendo dotadas de quaisquer conflitos de interesse, e sempre comprometidas na busca por informações idôneas e fidedignas visando fomentar o debate e a educação financeira de nossos destinatários.

O conteúdo da Inversa não representa quaisquer ofertas de negociação de valores mobiliários e/ou outros instrumentos financeiros. Os destinatários devem, portanto, desenvolver as suas próprias avaliações.

Todo o material está protegido pela Lei de Direitos Autorais e é de uso exclusivo de seu destinatário, sendo vedada a sua reprodução ou distribuição, seja no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa, sob pena de sanções nas esferas cível e criminal.  

Conteúdo protegido contra cópia