Mercadores da Noite #155 - A triste sina de José da Silva

Ivan Sant'Anna Publicado em 01/02/2020
6 min
Foi só ele entrar no mercado e este passou a seguir um único fundamento: coronavírus, gripe que surgiu na China só para lhe ferrar, como se o demo estivesse havia anos esperando a ocasião para jantar sua presa.

 

Caro leitor,

Para facilitar a argumentação desta crônica, criei um personagem fictício: José da Silva, o Zé. Como esse nome é quase um anonimato, nenhum dos homônimos de meu protagonista poderá dizer que me inspirei nele para escrever a história.

Pois bem, o Zé tem 60 anos de idade, é solteirão (se autoclassifica como celibatário), e aposentado do serviço público. Mas não é nenhum marajá. Recebe mensalmente R$ 6,5 mil, mais do que o teto do INSS, mas nada de escandalizar.

Econômico, desses de assistir o pay-per-view do futebol na casa de um parente, e de só fazer feira na hora da xepa, José da Silva sempre conseguiu economizar uma merreca todos os meses. O dinheiro, é claro, ia para uma caderneta de poupança.

De alguns anos para cá, Zé ficou sabendo que a caderneta estava rendendo menos que a inflação. Portanto, deduziu o óbvio. Ela “não estava rendendo”.

Após alguns meses de pesquisa, e consulta a dois gerentes de seu banco, acabou optando por um fundo de renda fixa.

Deu xabú. Computada a taxa de administração e o imposto de renda, o fundo rendia (ou melhor, “desrendia”) o mesmo que a caderneta.

Enquanto isso, os jornais e os telejornais só falavam em bolsa de valores. Que tal ação rendera cem por cento em um ano e que outra triplicara de preço.

E o Zé, ali, borrando de medo de entrar. Lembrava-se sempre do que seu pai (uma das vítimas do bull market roubado de 1971) dizia: “Aquilo ali é um covil de ladrões”.

Eu, Ivan Sant'Anna, que fui floor trader no Rio naquela época, não tenho como desmentir o pai do Zé da Silva. Só que o mercado mudou. Quem fizer hoje o que se fazia em 1971 vai para o xilindró. Daqueles tempos, felizmente restaram apenas alguns poucos protagonistas e as lembranças, muitas delas reunidas no meu último livro: Ivan, 30 lições de mercado.

Bem, estou ficando prolixo e me afastando da linha narrativa de minha história.

A resistência psicológica do Zé foi vencida. Justamente na abertura do mercado de quinta-feira, dia 23 de janeiro de 2020, quando o Ibovespa fez sua máxima de todos os tempos.

Como não podia deixar de ser, nosso herói comprou ações de empresa que ele conhecia bem: Banco do Brasil, Petrobras, Itaú e Bradesco.

Foi só ele entrar no mercado e este passou a seguir um único fundamento: coronavírus, gripe que surgiu na China só para lhe ferrar, como se o demo estivesse havia anos esperando a ocasião para jantar sua presa.

É chato aplicar na caderneta de poupança ou num fundo de renda “fria” malaquias que só fazem o investidor perder dinheiro. Só que essa tragédia se resumia a meio ou um por cento ao ano.

Agora, o rico dinheirinho do Zé, em apenas cinco pregões, desvalorizou-se 5%, perda essa que ele levaria vários anos para sofrer na caderneta.

José da Silva tomou a decisão que a maioria dos investidores toma em momentos de queda:

“No dia em que minhas ações voltarem ao meu preço de compra, eu vendo e nunca mais quero saber de Bolsa. O velho é que tinha razão. Ladrões!”

É esse tipo de raciocínio que faz o mercado retornar muito lentamente a uma determinada máxima após uma queda abrupta.

Por mais que os especialistas digam que preço de compra ou de venda não tem a menor importância, todos os investidores, gestores e especuladores sabem de cor quanto custou cada um de seus  ativos. E até alardeiam isso.

“Comprei Amalgamated a oito reais e vendi a 137.”

Certa ocasião, quando operava mercados internacionais da trading desk da filial paulista do Banco Graphus, comprei para mim um lote grande de aveia futuro na CBoT, em Chicago.

Eu acabara de ler The Market Wizards e The New Market Wizards, dois dos melhores livros para quem quer aprender a operar com êxito nos mercados. São entrevistas de Jack D. Schwager com os traders mais bem-sucedidos em ações, commodities, moedas e diversos outros derivativos nos Estados Unidos.

Quem lê os Wizards, toma consciência da importância dos stops. “No primeiro prejuízo, cai fora”, eles podem ser resumidos assim.

Pois bem, eu tinha sido “stopado” umas cinco vezes seguidas, em diversos mercados, só para ver o ativo que comprara dar um cavalo de pau e subir.

Resolvi, então, ser mão forte na aveia. A cotação caiu, caiu mais, caiu muito mais e eu, firme, sempre com meu preço de compra na cabeça.

Quando o mercado voltou a subir, e tirei meu prejuízo, pulei fora da posição imediatamente. E assisti a aveia encetar um tremendo bull market.

Não sei quando o Ibovespa vai voltar aos highs de 23 de janeiro. Só posso afirmar (com 98% de certeza) que o retorno vai ser lento, sofrido, agoniento. Isso porque os Zés da Silva da vida vão vender no momento, e na cotação, em que recuperarem seu prejuízo.

No final, a não ser que o coronavírus se transforme em uma pandemia mundial, com milhares de mortos, e cerceamento total de viagens, o que vai prevalecer mesmo são as taxas de juros negativas no mundo desenvolvido e quase negativas nos demais países.

Mas fiquem atentos. Daqui a uns cinco ou seis anos, se souberem que o José da Silva voltou a comprar ações, pulem fora. É esse tipo de cara que faz o topo dos mercados.

E se você não tem o perfil de José da Silva, não pode ficar de fora de um trade que até a publisher da Inversa está apostando. Uma das especialistas aqui da casa encontrou um investimento que pode subir até 1.000% em 12 meses (a partir de agora) e gravou este vídeo contando. Recomendo que você assista e veja se faz sentido para você.

Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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