Mercadores da Noite #149 - Retrospectiva 2019

Ivan Sant'Anna há 1 mês
6 min
Tragédia em Brumadinho, crise da Boeing e reforma da Previdência foram temas das crônicas que mais repercutiram neste ano.

Prezados amigos leitores e leitoras. Ao contrário do que vocês poderiam supor ao ler o título desta crônica, ela não é um retrospecto jornalístico rigoroso dos fatos ocorridos no ano que está se encerrando.

No texto abaixo me refiro tão só a assuntos que comentei nas diversas edições de minha newsletter “Os mercadores da noite” de janeiro até esta, de hoje, que é a última de 2019.

Na crônica “O jogo virou durante o intervalo”, comentei a tragédia da barragem de Brumadinho, acontecida em 25 de janeiro. Eis o que escrevi:

Agora o cenário mudou e a Bolsa vai cair. Não acredito que volte aos 85.535 do início do ano mas acho que tão cedo não faremos novos highs.

O estopim da virada, todo mundo sabe, é a tragédia ocorrida em Brumadinho, MG, em uma barragem de contenção de rejeitos de minério de ferro da Vale S.A., não só causando graves consequências ambientais (embora muito inferiores às de Mariana, da Samarco, em 2015) mas com perdas humanas no mínimo dez vezes maiores.”

Em fevereiro, publiquei “A Previdência de cada um”, falando sobre a reforma previdenciária que tramitava no Congresso Nacional. Não fui só elogios. Muito antes, pelo contrário, como vocês podem constatar nos três parágrafos abaixo:

Pois bem, o atual projeto de reforma da Previdência não é o dos meus sonhos. Gostaria que a Constituição fosse atropelada na marra e, com ela, extintos os absurdos adquiridos pelas chamadas cláusulas pétreas.

Há uma dentista aqui do Rio de Janeiro que recebeu mensalmente dos cofres do Judiciário (ou seja, dos nossos bolsos), durante anos, o equivalente hoje a 43 mil reais. Seu benefício já foi cassado, reposto, cassado novamente e a doutora não se manca. Está sempre recorrendo em busca dos seus direitos.

Explicação: ela é filha solteira (não se casou no papel; uniu-se no religioso e teve dois filhos) de um desembargador que morreu em 1982.”

Fui um dos primeiros, em âmbito mundial, a perceber a amplitude da crise da Boeing Company após a queda, em 10 de março, do segundo 737 MAX, este da Ethiopian Arlines. Segue meu texto:

Poucas coisas são tão prejudiciais a um fabricante de aviões do que a queda de um dos seus exemplares. Se for um modelo relativamente novo (o primeiro voo do 737 MAX, ainda em fase de testes, ocorreu em 29 de janeiro de 2016), é uma tragédia sem tamanho.

Agora raciocinemos juntos, caro leitor: duas aeronaves idênticas caindo do mesmo modo num intervalo de cinco meses é uma verdadeira desgraça para quem as construiu. Pode (e deve) significar que o projeto tem algum erro de planejamento e/ou concepção. Talvez uma simples resistência elétrica, quem sabe uma falha estrutural gravíssima.”

O tempo veio a mostrar que a falha foi de projeto e todos os MAXs espalhados pelo mundo, interditados.

No artigo “God save the Kingdom”, lançado em maio, comentei a crise britânica causada pelo Brexit:

Cada vez está ficando mais óbvio que o Brexit é quase inevitável. A exceção fica por conta de uma improvável escolha – para ocupar a vaga aberta no número 10 de Downing Street – de um tory que se proponha, com a concordância dos seus pares nos Comuns, a convocar um novo referendo sobre a saída, ou não, da Comunidade.

Mesmo assim não se pode garantir que outra consulta ao eleitorado britânico vá produzir resultado diferente da primeira.

O ideário que fez com que o Brexit fosse aprovado pelo povo é muito parecido com o dos americanos que elegeram Donald Trump para a Casa Branca: nacionalismo e xenofobia. Isso aconteceu também em outros países, como Hungria e Polônia.

Em junho, na Mercadores “Do Zero ao Infinito”, defendi a caderneta de poupança. Sim, caro leitor, você leu certo: caderneta de poupança. Eis um trecho do texto:

Digamos que você more com sua família (três gerações: filhos, pais e avós) no sertão da Paraíba, viva de um plantio rudimentar de mandioca e tenha, além do rendimento dessa roça, Bolsa Família e a aposentadoria rural dos velhinhos. Nesse caso, é melhor deixar o dinheiro na caderneta.

Se for ao banco tentar coisa melhor, o sub do subgerente que o atender vai tentar lhe empurrar um plano de capitalização ou um fundo de renda fixa no qual a comissão corroa toda a gordura da aplicação.”

Em “Tempos de bonança”, crônica publicada em julho, falei da guerra comercial Estados Unidos/China. E tudo indica que minhas previsões nesse campo estão sendo concretizadas. Abaixo um pequeno recorte do artigo:

“Faltando um ano para as eleições presidenciais americanas, e com os chineses precisando reaquecer seu PIB, que anda vacilando com um crescimento de ‘apenas’ (que inveja) 6,2% ao ano, as duas grandes potências dependem demais uma da outra.

Os Estados Unidos compram produtos industriais chineses. Estes possuem mais de três trilhões de dólares em Treasuries do rival.

Inevitavelmente, as duas maiores potências mundiais chegarão a algum tipo de acordo que contemple, ao menos parcialmente, os anseios de ambas as partes.

“Comandante, temos um problema”, divulgado em setembro, foi meu artigo que mais repercutiu entre os leitores. Nele, falo da necessidade de encurtamento da hierarquia nas empresas, um exemplo a ser tirado da aviação comercial.

Se você não é piloto comercial, nem estudioso da aviação, não deve saber o que é CRM, Cockpit Resource Management (Gerenciamento dos Recursos da Cabine de Comando). Sua função é fazer com que um piloto, ou qualquer outro membro da tripulação de uma aeronave, se sinta à vontade para alertar o comandante sobre um erro que ele possa estar cometendo.

...

O encurtamento da distância hierárquica numa mesa de operações de mercado é essencial para que bons resultados sejam alcançados. Ninguém, por mais tarimbado que seja, é sempre o dono da verdade.

Nada como um estagiário que diz para o gestor:

Você não acha que as ações da Amalgamated vão bombar? Só na primeira semana esse novo produto deles vendeu o triplo do previsto. Já tem lista de espera’”.

Em outubro, na minha newsletter “Leitura obrigatória”, indiquei cinco livros para os leitores: Foram eles:

A Grande Guerra pela Civilização – A Conquista do Oriente Médio, Robert Fisk.

 O Petróleo – Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder, Daniel Yergin.

 A Lanterna na Popa – Memórias, Roberto Campos.

 Sequência de cinco livros de Elio Gaspari sobre o período de ditadura militar no Brasil: A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada, A Ditadura Encurralada e A Ditadura Acabada.

Uma Breve História da Euforia Financeira, John Kenneth Galbraith.

Daqui a uma semana, na próxima “Os mercadores da noite”, escreverei sobre o que penso que poderá acontecer em 2020. Feliz Ano Novo para você, caro amigo leitor.

Se você tiver críticas, elogios, sugestões ou perguntas ao autor desta newsletter, envie um e-mail para mercadores@inversa.com.br.

P.S.: Você terá uma maior chance de dar uma grande tacada neste ano se aproveitar um grande evento internacional, marcado para maio. Uma porta de ganhos potenciais altíssimos será aberta e sugiro que você entre aqui e assista a um vídeo para entender como se posicionar.

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