Mercadores da Noite #13 - Compre na alta, venda na baixa

26 de julho de 2017
Você já ouviu falar de autobol?

Mercadores da Noite

Caro leitor,
        
A partir de abril de 1995, quando deixei de lado o ofício de trader para me dedicar à literatura, parei também de seguir o dia a dia dos mercados. Mas não abandonei de todo o hábito de acompanhar as cotações.

No início de cada mês, eu entrava no site da Bloomberg e via o preço de tudo: Ibovespa, libra esterlina, barriga de porco (pork belly), café, cacau, prata, índices Nikkei e S&P 500, etc. Sempre que um desses ativos fazia o high dos últimos 12 meses, eu o comprava. Em minha imaginação, mas comprava. E toda vez que surgia um novo low anual, eu vendia. Também de mentirinha, mas vendia. E me dava super bem. Pena que não era à vera.

Acho das mais improdutivas a filosofia de comprar alguma ação, ou commodity, só porque está num preço histórico muito baixo ou vender porque fez a máxima de todos os tempos. E daí, cara-pálida?
      
Quando, em 13 de março de 1986, a Microsoft fez seu primeiro IPO, o preço de lançamento foi de 21 dólares por ação. Esses representavam a maior cotação até aquele dia, ou seja, um high histórico. 
    
Apesar dessa nova máxima, um felizardo que por ventura aplicou, digamos, mil dólares nesse lançamento, caso tenha se sentado sobre o papel, tem hoje, graças às bonificações (splits) e a valorização da ação, mais de meio milhão de dólares. Se aplicou 100 mil, tem 50 milhões. Caso já fosse um ricaço e tenha alocado um milhão, tornou-se um bilionário. Bilionário em dólares, bem entendido, o que significa 3,15 vezes mais do que bilionário em reais.
    
Moral da história: um novo high pode ser um excepcional alerta de compra.

O mesmo pode se dizer de um ativo que tenha feito um novo low. É possível que seja o alarme de uma derrocada que vai culminar com a falência da empresa. Talvez exprima o momento ideal de se vender a descoberto ou de se comprar puts. Quem acompanhou a derrocada do grupo EBX, por exemplo, sabe muito bem disso.
   
Ainda sobre novas mínimas, quando, em meados dos anos 1960, eu estudava na Universidade de Nova York e estagiava em firmas de Wall Street, uma das grandes estrelas do mercado americano de ações era a Polaroid.
   
“A foto sai na hora. Não há necessidade de revelação”, dizia um trader bullishno papel. “A Kodak vai quebrar. Esta, sim, é o grande short.”
    
Só que as fotografias da Polaroid não tinham boa definição, se amarelavam com o tempo e a empresa nunca vingou de verdade. Saiu de moda. Ainda existe, mas jamais monopolizou o mercado como chegou a se supor naqueles tempos de glória. Nesse processo de decadência, o papel foi fazendo nova mínimas e cada uma delas era uma excelente oportunidade de short ou de compra de puts.
     
O curioso é que o mesmo viria acontecer com a Kodak, só que por um motivo diferente: o advento das fotos digitais. Fotografias hoje, todo mundo sabe, são tiradas diariamente aos bilhões, quase sempre por celulares, que existem em maior número do que gente e com os quais ninguém sonhava no apogeu da Polaroid e da Kodak.
      
Durante meus primeiros anos de mercado eu tinha a mania de ser um bottom picker (garimpeiro de fundos) ou bargain hunter (caçador de barganhas), ou seja, tentava descobrir o fundo do poço de um ativo. Perda de tempo. Tentava também achar o teto de algum movimento. Cansei de “shortear” o S&P 500 só porque fizera novas máximas, para ser “stopado” horas, ou até mesmo minutos, depois.

“Você está querendo entrar na frente de um trem em alta velocidade e pará-lo com as mãos”, censurava o Maneco (Manoel Joaquim Sampaio), analista da Merrill Lynch com quem eu conversava todo dia. “Vai quebrar a cara toda vez que fizer isso. Esquece, Ivan.”
    
O mesmo dizia o Maneco quando eu queria comprar, por exemplo, açúcar só porque estava a dois centavos a libra-peso em Nova York.
   
“Porra, Maneco, dois centavos! Os produtores vão parar de plantar cana e beterraba”, eu ponderava. E quebrava a cara, pois o mercado de açúcar estava em contango (futuros longos mais caros do que os curtos) e toda vez que rolava minha posição comprada pagava o pedágio da diferença.
 
Bottom pickers ou bargain hunters nunca levam porradas mortais. Eles simplesmente sangram aos pouquinhos. Já beques de locomotivas não raro são esmigalhados por elas.

Felizmente não insisti muito tempo no erro de querer comprar só porque estava nominalmente barato ou de vender porque estava numericamente caro. Passei a encarar um novo high como sinal de força e um novo lowcomo demonstração inequívoca de fraqueza.

Entre os anos 1970 e 1975, eu jogava autobol no Rio de Janeiro. Para quem não sabe, autobol era futebol praticado com automóveis. Cinco contra cinco. A bola, evidentemente enorme, era fabricada pela Drible com couro de búfalo. O esporte fazia sucesso, costumava ter bom público e chegou a ser transmitido pela TV Globo no programa Esporte Espetacular.

Para profunda tristeza dos praticantes e dos espectadores, o governo proibiu todas as competições automobilísticas em 1975, na época do racionamento de combustíveis provocada pela primeira crise do petróleo. Sendo inequivocamente uma competição automobilística, o autobol foi no bolo. Da noite para o dia, acabou.

Inconformado, em janeiro de 1978, fui com um amigo conversar em Nova York com Ahmet Ertegun, CEO mundial da Warner. Levamos fotos, recortes de jornais e revistas, inclusive da Time e da Playboy americanas. Queríamos, com o apoio e com a grana da Warner, lançar o autobol nos Estados Unidos.

O chefão ouviu nossos argumentos e examinou as fotos. “Pequeno esse estádio, não?”, ele estava vendo imagens do campo do Fluminense, nas Laranjeiras, Zona Sul do Rio, onde um Fla-Flu de autobol reunira uma “multidão” de umas cinco mil pessoas (a capacidade era de oito mil). “E não está cheio. Olha só esses claros na arquibancada.”

Evidente que brochamos na hora. Ertegun ficou com pena. “Façam o seguinte: no dia em que esse jogo de vocês encher o Maracanã, voltem aqui. Nós não contratamos um cantor promissor. Contratamos o Frank Sinatra e os Rolling Stones.”

O cara só comprava nos highs.

Conheça o responsável por esta edição:

Ivan Sant'Anna

Trader e Escritor

Uma das maiores referências do mercado financeiro brasileiro, tendo participado de seu desenvolvimento desde 1958. Atuou como trader no mercado financeiro por 37 anos antes de se tornar autor de livros best-sellers como “Os Mercadores da Noite” e “1929 - Quebra da Bolsa de Nova York”. Nas newsletters “Os Mercadores da Noite” e “Warm Up Inversa”, Ivan dá sugestões investimentos, conta histórias fascinantes e segredos de como realmente funciona o mercado.

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