Mercadores da Noite #128 - As grandes transformações

Ivan Sant'Anna Publicado em 29/07/2019
5 min
Privatizações e venda de ativos estatais podem aliviar dívida pública em R$ 1,4 trilhão. Estamos perto de uma guinada econômica colossal? Se sim, é razoável pensar em Ibovespa a 200 mil pontos no ano que vem.

Nota nº 1 – Na última sexta-feira, terminei de ler Os jogadores, de Vinicius Pinheiro. Trata-se de uma ficção ambientada no mercado financeiro de São Paulo. É um roman à clef, tal como se denomina livros que narram histórias verídicas, com personagens também verídicos, só que representados por nomes fictícios, além da inclusão de licenças poéticas pertinentes a esse tipo de literatura.

    Meu livro Rapina também é assim. Usei do mesmo artifício para contar episódios que vivi, ouvi falar ou testemunhei no mercado. A diferença é que os fatos narrados em Rapina são anteriores a 1996 e os do excelente Os jogadores se passam do início dos anos 2000 até os dias atuais.

        Os traders profissionais vão transitar com intimidade entre os acontecimentos e protagonistas de Os jogadores, ao passo que os leitores alheios ao mundo das finanças aprenderão muito sobre o que acontece no universo, nem sempre muito ético, dos bancos de investimento.

    Para saber mais, só conferindo.

   

Nota nº 2 – Amanhã, terça-feira, 30 de julho, estarei no programa Arquivo N que irá ao ar na GloboNews às 23:30, com replay no sábado, 3 de agosto, às 15:30.

    Trechos de minha entrevista irão compor a linha narrativa do documentário.

    Prefiro não adiantar detalhes do tema a ser apresentado, para que se constitua uma surpresa para os telespectadores. Mas posso garantir que, para os apaixonados pelo mercado financeiro, será um ótimo entretenimento, além da oportunidade de conhecer um dos episódios mais controversos do mundo das finanças nas últimas décadas.

    * * *

Caro leitor,

Diversas privatizações estão em andamento no Brasil, além de vendas de ativos do governo e de estatais. Isso é apenas um primeiro passo. O grosso do enxugamento do Estado começará a acontecer após a aprovação, pelo Congresso Nacional, da reforma da Previdência. 

Em vários estados da União, assim como em boa parte dos municípios, igual processo está sendo estudado, quando não já em andamento.

O Brasil chapa-branca faliu e muitos governadores e prefeitos têm perfeito conhecimento disso.

As privatizações serão uma ótima fonte de recursos, mas se não forem acompanhadas de profundas reformas estruturais, em pouco tempo voltará a faltar verba para pagar as despesas de custeio das paquidérmicas máquinas estatais.

Se essa tragédia acontecer, não haverá mais nada para se leiloar.

Só que há motivos para otimismo. Terça-feira da semana passada, por exemplo, a Petrobras vendeu 30% de sua subsidiaria BR Distribuidora, arrecadando R$ 9,6 bilhões na operação.

De acordo com um estudo elaborado pelo Bank of América, o Brasil poderá dispor de R$ 389,7 bilhões na venda de empresas como os Correios, a Eletrobras, o Serpro, a Dataprev e a Casa da Moeda. Desse valor, R$ 100 bilhões deverão entrar nos cinco meses restantes de 2019.

Num prazo mais longo, mas ainda dentro do mandato de Jair Bolsonaro, outras centenas de bilhões têm chances de serem arrecadadas.

É costume dizer, e não gosto da expressão, que para que isso aconteça é necessário “vontade política”. Melhor seria “vontade férrea”. Pois bem, isso é o que não falta no ministério da Economia.

Tem mais: se o BNDES seguir com sua postura de venda de participações acionárias em outras empresas, e a União se desfizer de imóveis desnecessários, outros R$ 990 bilhões poderão entrar nos cofres do Tesouro e abatidos da dívida pública.

Isso se chama desmonte do Estado, restando-lhe prover suas funções básicas: educação, saúde e segurança.

O melhor da história é que se torna um círculo virtuoso. Crescendo a economia, sobe a arrecadação. Diminuindo o endividamento interno, os juros tendem a cair.

É o tal círculo virtuoso do qual os economistas tanto falam e que precisa de um pontapé inicial.

A Reagonomics e o Thatcherismo nada mais foram do que isso.  Em outras épocas, o modelo era diferente. Para equilibrar suas contas, os governos vendiam partes de seus territórios, embora muitas vezes coagidos a fazê-lo.

Só para me deter em alguns exemplos:

Em 1803, os Estados Unidos adquiriam a Luisiana da França por US$ 15 milhões.

Quase meio século mais tarde, os americanos compraram, do México, simplesmente a Califórnia, Nevada, Utah e parte do Arizona.

Como se não bastasse, em 1867 os EUA entregaram ao tzar Alexandre II, da Rússia, US$ 7,2 milhões em troca do estado do Alasca. Diz-se, embora isso nunca tenha sido provado, que foi preciso que os russos subornassem alguns congressistas de Washington para conseguir fechar a transação.

O Brasil também participou desse jogo. Em 1903, pagou à Bolívia dois milhões de libras esterlinas pelo território do Acre.

Como esse tipo de negócio é impensável nos dias de hoje, quando nações entram em conflito por causa da posse de uma ilhota desabitada no meio do oceano, só resta vender bens e privatizar empresas.

É essa a intenção do governo brasileiro. Com a esquerda enfraquecida, são pouquíssimas as manifestações contrárias. Concluindo: se as reformas da Previdência e tributária forem aprovadas no Congresso sem grandes penduricalhos daninhos, e as ideias de Paulo Guedes forem em frente, a economia brasileira vai dar uma guinada colossal.

Nessa hipótese, 200.000 pontos para o Ibovespa até o final de 2020 pode ser mais do que razoável. Isso sem que os papéis se tornem tecnicamente mais caros, já que o lucro por ação de cada um deles deverá crescer na mesma proporção.

Nota nº 3 – Se Califórnia, Nevada, Utah, Arizona e Texas (este último foi tomado pelos Estados Unidos sem pagar nada) continuassem fazendo parte do território do México, quem provavelmente estaria pensando em construir um muro seriam eles, os mexicanos.

 

Gostou da newsletter de hoje? Então, envie a sua opinião para mercadores@inversapub.com.

Um abraço.Ivan Sant'Anna

A Inversa é uma Casa de Análise regularmente constituída e credenciada perante CVM e APIMEC.

Todos os nossos profissionais cumprem as regras, diretrizes e procedimentos internos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Instrução 598, e pelas Políticas Internas estabelecidas pelos Departamentos Jurídico e de Compliance da Inversa.

A responsabilidade pelas publicações que contenham análises de valores mobiliários é atribuída a Felipe Paletta, profissional certificado e credenciado perante a APIMEC.

Nossas funções são desempenhadas com absoluta independência, não sendo dotadas de quaisquer conflitos de interesse, e sempre comprometidas na busca por informações idôneas e fidedignas visando fomentar o debate e a educação financeira de nossos destinatários.

O conteúdo da Inversa não representa quaisquer ofertas de negociação de valores mobiliários e/ou outros instrumentos financeiros. Os destinatários devem, portanto, desenvolver as suas próprias avaliações.

Todo o material está protegido pela Lei de Direitos Autorais e é de uso exclusivo de seu destinatário, sendo vedada a sua reprodução ou distribuição, seja no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa, sob pena de sanções nas esferas cível e criminal.  

Conteúdo protegido contra cópia