Mercadores da Noite #125 - A magia do câmbio e dos juros

Ivan Sant'Anna Publicado em 08/07/2019
5 min
Na hora em que o Brasil for considerado confiável, quem sabe até recuperando o grau de investimento, o real será muito procurado, tal como aconteceu durante o boom dos BRICS.

Nota do editor: Faltam só dois dias para um evento diferente de tudo o que você já viu no mercado financeiro. Entre aqui para fazer parte disso. 

Caro leitor,

Quando, recentemente, sugeri a venda de dólar futuro a R$ 4,00, minha recomendação se baseava em algumas premissas. Entre elas:        

- Considerava a aprovação da reforma da Previdência extremamente provável. Agora dou como favas contadas.        

- Apostava num amplo programa de privatizações a ser posto em prática durante os três anos e meio que faltam para o fim do mandato de Jair Bolsonaro.        

- Embora a taxa Selic esteja em suas mínimas de todos os tempos, assim como acontece com os juros reais (descontada a inflação), supunha, e continuo supondo, que o dinheiro externo comece a fluir em maior quantidade para o Brasil.

O mundo no qual estamos vivendo é completamente diferente daquele dos meus tempos de trading desk. Naquela ocasião, o dólar subia sempre (com eventuais flutuações de correção de exageros), primeiro por causa da inflação, depois da inflação galopante e, finalmente, da hiperinflação. Era uma questão de ajuste permanente.        

Durou décadas, esse processo.

Agora não. Segundo o boletim Focus, os bancos acreditam que a moeda americana esteja valendo R$ 3,80 tanto no fim deste ano quanto no do ano que vem.

Se essas previsões se materializarem, e me parecem razoáveis, o gringo que trocar dólares por reais, levando-se em conta a cotação atual de R$ 3,82, e aplicar em papéis do Tesouro brasileiro, mesmo considerando a hipótese, mais do que provável, de que a taxa Selic seja reduzida de 6,5% para 5% ao ano, terá um ganho, em reais, de 7,50%.        

Na verdade, será mais, já que o Copom não fará esse corte de uma vez só. Entre os 6,5 e os 5% transcorrerão alguns meses e várias etapas de 25 e/ou 50 pontos-base.

Vamos fazer as contas direitinho. Tomemos como base um milhão de dólares. Este valor será trocado por nossa moeda e se transformará em R$ 3.820.000,00, que poderão ser aplicados em papéis do Tesouro.        

Ao final de 2020, considerando a taxa de 5% ano, como se ela fosse imediatamente implantada, os R$ 3.820.000,00 crescerão para R$ 4.106.500,00.

Como, sempre segundo o Focus, o dólar custará R$ 3,80 no final de dezembro de 2020, os R$ 4.106.500,00 poderão comprar US$ 1.080.657,89.

Conclusão: o gringo terá obtido uma taxa de retorno de 8,07%. Como a inflação americana em um ano e meio deverá ser de 2,72%, isso significará um ganho real de 5,35%.

No momento, os títulos do Tesouro dos países ricos estão dando rentabilidade negativa (se é que esta expressão faz sentido). Com isso, os fundos de investimento precisam desesperadamente procurar vias alternativas para preservar o valor de suas quotas.        

Na hora em que o Brasil for considerado confiável, quem sabe até recuperando o grau de investimento, o real será muito procurado, tal como aconteceu durante o boom dos BRICS.

Finalmente, e mais importante, a entrada de recursos externos no país, aliada ao superávit da balança comercial brasileira, atuará para valorizar nossa moeda. Nessa pressuposição, os prognósticos de câmbio do boletim Focus irão diminuir aos poucos, com a cautela que costuma prevalecer, tal como acontece nas súmulas das reuniões do Copom.

Outros fatores contribuirão para esse quadro. Entre eles, a assinatura do tratado comercial entre o Mercosul e a União Europeia, a independência do Banco Central brasileiro, cuja concessão está em pleno andamento nas Casas do Congresso em Brasília, e uma possível entrada do Brasil no bloco da OECD, sigla em inglês para Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que propicia a seus membros uma série de regalias.

Como se tudo isso não bastasse, os mercados de câmbio costumam exagerar em seus movimentos. Nessas ocasiões, ocorre o efeito manada. Todo mundo quer passar por uma porta estreita ao mesmo tempo.        

Isso será ótimo para o estrangeiro que comprar a moeda brasileira neste momento, antes do estouro da boiada.

Se o real começar, como acredito, a se valorizar, há muito espaço de queda para o dólar. Não duvido que, ainda esse ano, ou no primeiro semestre de 2020, tenhamos a moeda americana cotada a R$ 3,50.

Neste último cenário, na hora do câmbio dos reais por dólares no final de 2020, aquela continha acima passa a ter o seguinte resultado:        

Troca hoje de US$ 1 milhão por reais a 3,82: Resultado: R$ 3.820.000,00.        

Aplicação de R$ 3.820.000,00 a 5% por 18 meses: R$ 4.106.500,00.        

Até aqui, tudo igual.

Só que se o dólar cair para R$ 3,50, o gringo vai levar de volta para casa, em vez do que previ nos cálculos do início deste artigo (US$ 1.080.657,89), US$ 1.173.285,71.

Tal número representará para ele um ganho de 17,32%. Se a operação for alavancada, muito mais.

Essa é a magia do câmbio e das taxas de juros. Cria a possibilidade de se trocar uma moeda forte por outra (historicamente fraca, mas em processo de se tornar conversível num futuro não muito distante) e faturar um lucro que cada vez está mais difícil de se obter nos mercados de renda fixa.

Hoje à noite, às 20h30, o Marink, o José e o Mateus vão falar mais sobre dólar no webinar gratuito organizado pela Inversa. Você só precisa entrar agora aqui para poder acompanhar e pegar dicas de investimentos.

E, antes de ir, sugiro que anote em sua agenda: 10 de julho, 12 de julho, 15 de julho e 16 de julho. São as datas dos quatro episódios da produção original da Inversa "Além do Dinheiro", com discussões e insights de enorme valor para o investidor brasileiro. Entre aqui para ficar na lista preferencial da minissérie.

Gostou desta newsletter? Então, envie a sua opinião para mercadores@inversapub.com.

Um abraço.

Ivan Sant'Anna

A Inversa é uma Casa de Análise regularmente constituída e credenciada perante CVM e APIMEC.

Todos os nossos profissionais cumprem as regras, diretrizes e procedimentos internos estabelecidos pela Comissão de Valores Mobiliários em sua Instrução 598, e pelas Políticas Internas estabelecidas pelos Departamentos Jurídico e de Compliance da Inversa.

A responsabilidade pelas publicações que contenham análises de valores mobiliários é atribuída a Felipe Paletta, profissional certificado e credenciado perante a APIMEC.

Nossas funções são desempenhadas com absoluta independência, não sendo dotadas de quaisquer conflitos de interesse, e sempre comprometidas na busca por informações idôneas e fidedignas visando fomentar o debate e a educação financeira de nossos destinatários.

O conteúdo da Inversa não representa quaisquer ofertas de negociação de valores mobiliários e/ou outros instrumentos financeiros. Os destinatários devem, portanto, desenvolver as suas próprias avaliações.

Todo o material está protegido pela Lei de Direitos Autorais e é de uso exclusivo de seu destinatário, sendo vedada a sua reprodução ou distribuição, seja no todo ou em parte, sem prévia e expressa autorização da Inversa, sob pena de sanções nas esferas cível e criminal.  

Conteúdo protegido contra cópia