Mercadores da Noite #124 - O bull market que não aconteceu

Ivan Sant'Anna Publicado em 01/07/2019
5 min
Choque do petróleo de 1973 levou o preço do barril de 3 para 22 dólares, mas, para tristeza dos especuladores, não havia mercado futuro de petróleo e derivados na época

Nota do editor: xRecado rápido antes da crônica do Ivan. Três feras de diferentes especialidades de investimento decidiram se juntar numa imersão com um único objetivo: reprogramar sua mente financeira. Entre aqui para saber mais sobre esse projeto. 

Caro leitor,

“Às 2h da tarde do sábado, 6 de outubro (de 1973), dia do Yom Kippur, o barulho estridente de 200 jatos egípcios se fez ouvir sobre o canal de Suez e a península do Sinai.
   
Em cumprimento de suas missões, os pilotos atacaram as guarnições israelenses na margem oriental do canal. No mesmo momento, a artilharia egípcia abriu fogo contra as posições inimigas. Em sincronia com seus aliados, aviões sírios atacaram Israel pelo norte, seu ataque reforçado por 500 peças de artilharia.
   
Iniciara-se a Guerra do Yom Kippur, a quarta entre árabes e israelenses, cujas consequências o Ocidente amargaria por sete longos anos.”

Os parágrafos acima são os três últimos da página 208 de meu livro Os mercadores da noite, edição da Inversa.

A guerra do Yom Kippur durou apenas 19 dias, entre 6 e 25 de outubro de 1973. No início, quase foi vencida pelos árabes (Egito e Síria). Mais tarde, as forças de Israel, com ajuda bélica dos Estados Unidos, encurralaram os egípcios no Sinai e chegaram até as proximidades de Damasco.

Para pôr fim ao conflito, americanos e soviéticos, nas pessoas de Henry Kissinger e Leonid Brejnev, ordenaram um cessar-fogo. Como manda quem pode, e obedece quem tem juízo, a guerra do Yom Kippur acabou. Mas suas consequências para a economia mundial só estavam começando.
     
Veio o embargo do petróleo, liderado pela Arábia Saudita. No último trimestre de 1973, o preço do barril subiu de três para 22 dólares, uma alta de mais de 600%.
   
O impacto sobre a economia mundial foi gigantesco, com tremendo reflexo nos preços de diversas commodities.

Infelizmente, para os especuladores, naquela época não havia mercado futuro de petróleo e derivados. Fosse esse o caso, teria acontecido um dos maiores bull markets da história.

Só para efeito de comparação, imaginemos o índice Ibovespa, num prazo de apenas 90 dias, subindo de 100.000 para 733.000; o ouro, de US$ 1.400 para US$ 10.250 e o dólar contra o real de R$ 3,83 para R$ 28,00.
   
É por esse motivo que digo que o grande bull market de futuros (que teria sido o do petróleo no final de 1973) não aconteceu.

Só quase dez anos após a guerra do Yom Kippur, mais precisamente em 30 de março de 1983, surgiu o mercado futuro de petróleo na Nymex (New York Mercantile Exchange).
   
O primeiro preço do óleo cru tipo WTI (Western Texas Intermediate) foi de US$ 76,62, quase 20 dólares acima das cotações de hoje (os valores estão ajustados pela inflação americana no período). Fez uma mínima a US$ 17,53, em novembro de 1998, durante um período de superprodução, e uma máxima a US$ 163,80, em junho de 2008, no auge das compras chinesas.

Por ocasião dos dois choques do petróleo (1973 e 1980), era voz corrente entre traders e analistas que as reservas petrolíferas mundiais iriam se esgotar em meados do século 21.
   
Aconteceu exatamente o contrário. Além de novas e grandes jazidas terem sido descobertas, as indústrias automotiva e aeronáutica passaram a fabricar carros e aviões mais econômicos.
   
Como se não bastasse, fontes energéticas alternativas foram desenvolvidas. Entre elas, a eólica (dos ventos), solar e a de combustíveis biodegradáveis.

O petróleo tornou-se uma commodity como outra qualquer, influenciada pela oferta e procura. No momento, o preço do barril está em ligeira alta por causa da forte queda na produção do Irã, da Venezuela (detentora das maiores reservas mundiais provadas) e da Líbia.

Os iranianos sofrem sanções econômicas devido ao desenvolvimento de seu programa nuclear (em compasso de espera). Na Venezuela, o maquinário de prospecção e extração está sucateado. Finalmente, a Líbia vive uma guerra civil.
   
Estivessem os três produtores acima produzindo a plena capacidade, não me espantaria se o barril fosse cotado a menos de vinte dólares.

Atualmente, o presidente Donald Trump anda insinuando medidas militares contra os iranianos. Em resposta, estes últimos ameaçam fechar o estreito de Ormuz, que une os golfos Pérsico e de Oman. Por ali, passa um terço do petróleo produzido em todo o mundo.

Se alguma escaramuça ocorrer entre os Estados Unidos e o Irã, o máximo que poderá acontecer nos preços futuros da Nymex é um squeeze (aperto momentâneo).
   
Nesse caso, o mercado trabalhará em forte backwardation (futuros longos cotados muito abaixo dos curtos). Isso impedirá que empresas como a Petrobras, por exemplo, possam fazer hedgesaltamente compensadores.

Caso haja um bull market sustentado do petróleo, será por causa de um aumento do consumo na China. Isso se a demanda chinesa não for compensada pela normalização das produções venezuelanas, iranianas e líbias.

No início dos anos 1980, antes de começar a operar em quase todas as bolsas internacionais de futuros, commodities e derivativos em geral, eu iniciei pelo mercado de ouro, tanto na Comex (NY) como na Bolsinha (Bolsa de Mercadorias do Estado de São Paulo).
   
Naquela época eu era trader de uma fundidora brasileira de ouro (Cioci). Seu dono, Eli Saul Saltoun, tinha um grande sonho: o de que um dia o estreito de Ormuz fosse fechado.
     
Quase todo o petróleo do mundo passava por lá.
   
As cotações poderiam ter subido para níveis inimagináveis, puxando a onça do ouro em seu vácuo.

Agora, num horizonte previsível de tempo, esse bull market, que não aconteceu na década de 1970 devido à ausência de mercados futuros, não ocorrerá em razão do excesso de produtores e de fontes energéticas alternativas.
   
Mas, quem sabe, haverá um longo bear market provocado por guerra de preços.

Para um especulador, tanto faz se o mercado sobe ou desce.

O importante é estar no lado certo.

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Um abraço.

Ivan Sant'Anna

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