Mercadores da Noite #121 - Chernobyl, 26 de abril de 1986

Ivan Sant'Anna Publicado em 10/06/2019
6 min
Ivan escreve hoje sobre momentos, como o acidente nuclear de Chernobyl, em que o lucro vem de uma tragédia

Nota do editor: A edição de hoje trata de um dilema ético que se coloca a investidores quando estoura uma tragédia. Ganhar dinheiro ou não nesses eventos? E a guerra comercial EUA x China, é uma oportunidade? Saiba aqui.

Caro leitor,

À uma hora, vinte e três minutos e quarenta segundos da madrugada de sábado, dia 26 de abril de 1986, o núcleo da usina nuclear de Chernobyl (em russo pronuncia-se “Chernóbyl”) explodiu. A causa foi um erro operacional ocorrido na sala de controle.

Chernobyl situa-se na Ucrânia, à época uma das repúblicas da União Soviética.
 
Embora a extrema gravidade do acidente tenha sido constatada ainda naquele fim de semana, o governo de Moscou, tendo à testa o secretário-geral do Partido Comunista, Mikhail Gorbatchov, tentou evitar que a informação fosse divulgada no país e no exterior.
   
Não foi possível. No início da tarde de segunda-feira, dia 28, a notícia de que medições de radioatividade muito acima do normal haviam alcançado a Suécia, e que essas radiações procediam da Ucrânia, começaram a ser distribuídas pelas agências de notícia.
   
Sem poder disfarçar o que se tornara público, Gorbatchov confirmou aos líderes das nações amigas, e inimigas também, a seriedade do acidente.

Os informes sobre a tragédia chegaram aos mercados de commodities de Chicago e Nova York com os pregões em pleno andamento.
     
Diversos ativos subiram violentamente, entre eles o trigo, o milho e o açúcar (a Ucrânia era, e continua sendo, grande produtora de beterraba).

Como não tinha posição comprada nem vendida em nenhum desses produtos, eu podia simplesmente ficar de fora observando os fatos e deles extrair uma conclusão. Ou tentar entender logo os acontecimentos e tirar partido da situação.

Entre meus amigos, havia dois que tinham condições de explicar o problema: Frederico Birchel Magalhães Gomes (ITA e Eletrobras) e Wanderley Luís Desordi (Furnas e Nuclebrás).
 
Ambos pediram um tempinho e retornaram pouco depois, após consultarem outros especialistas.

“Ivan (me disse um deles), impossível dar um diagnóstico neste momento. A irradiação tanto pode se restringir às áreas próximas à usina como se espalhar pelos países vizinhos. É preciso saber se o núcleo (do reator) foi exposto.”

Após conversar com dois dos meus gurus, Naji Nahas e Alfredo Grumser, optei por comprar petróleo futuro na Nymex.
   
Meu raciocínio, que se mostrou correto, foi o de que haveria um clamor mundial contra as usinas nucleares, clamor esse que favoreceria os hidrocarbonetos.

Deu para ganhar uns trocados. O preço do barril subiu um ou dois dólares, já nem me lembro mais.

Anteontem, maratonando, de uma sentada só, os cinco episódios da minissérie Chernobyl, produzida pela HBO, fiquei sabendo que, por pouco, muito pouco, a explosão não produziu uma hecatombe que superaria, em desdobramentos, as bombas atômicas lançadas pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945.

Não fosse o heroísmo de voluntários (três bombeiros e centenas de mineiros de carvão) que entraram no interior da usina, mesmo sabendo que isso era uma sentença de morte, de morte horrível por queimaduras, a radioatividade teria se espalhado por diversos países da Europa e penetrado o lençol freático que deságua no rio Dnieper.

Fosse esse o caso, a contaminação atingiria, pelos ares e pelas águas fluviais e marítimas, a própria Ucrânia, grande parte do oeste da União Soviética, a Suécia, a Finlândia, a Áustria, a Noruega, a Bulgária, a Suíça, a Grécia, a Tchecoslováquia, a Itália e a Alemanha Oriental.
   
Se tal cataclismo tivesse acontecido, boa parte das terras desses países deixaria de ser agriculturável por pelo menos um século. Rebanhos, assim como animais domésticos, silvestres e selvagens, seriam abatidos e enterrados sob camadas de chumbo e de concreto.
   
Com certeza, teria sido o maior bull market de commodities de todos os tempos. E também o mais melancólico. Perto dele, a Dust Bowl dos anos 1930 teria sido um convescote ginasiano.

(Dá para se posicionar em ativos que vão se valorizar com a guerra comercial entre americanos e chineses? Ouça aqui os podcastsespeciais do Marink Martins para saber...) 

Trader que se julga merecedor desse nome deve pôr o constrangimento de lado e aproveitar essas ocasiões para ganhar dinheiro, já que se estiverem na ponta errada poderão perder tudo que têm e ainda ficar devendo.

Nós não somos os senhores do destino. Não temos méritos nos momentos auspiciosos nem demérito nas desgraças.
   
Precisamos apenas saber interpretá-los. Foi o que fiz comprando contratos futuros de petróleo logo após Chernobyl.

Operando no mercado, já fui contemporâneo de tantos acontecimentos imprevistos que até perdi a conta.
   
Quando, na sexta-feira 23 de novembro de 1963, John Kennedy foi assassinado em Dallas, no Texas, eu disse para mim mesmo:
   
“Só vai afetar a Bolsa (de Nova York) por alguns minutos. O governo Lyndon Johnson não fará nenhuma mudança significativa na política e na economia.”

O mesmo ocorreu por ocasião das tentativas de assassinato de Ronald Reagan e do papa João Paulo II. Foram acontecimentos neutros para a Bolsa. Quem governava por Reagan era James Baker. Papas não têm importância para o mercado. Nem mesmo o Hermano El Chico com suas heterodoxias.

Como já relatei diversas vezes nesta minha coluna semanal, houve ocasiões em que perdi dinheiro e outras nas quais ganhei por causa de eventos imprevistos.

O importante é que o caro leitor, se opera os mercados ao redor do mundo, fique atento às notícias. Se elas forem contrárias às suas posições, zere-as imediatamente.
   
“O menor prejuízo é o primeiro”, diz um ditado da Rua (Wall Street).

Por outro lado, se alguma hecatombe (como os ataques do 11 de setembro ou o tsunami asiático de 2004) lhe seja favorável, aceite os fatos como obra dos destino.

Meu amigo, não deixe que a emoção conduza seus trades. Isso é receita certa de fracasso nas bolsas e derivativos. 

Ah! E não deixe de assistir a minissérie Chernobyl. É imperdível.

Mas, antes de mais nada, ouça o último podcast da série especial "Guerra Comercial", produzido pelo Marink Martins e pela Inversa. Está excelente...

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Um abraço.

Ivan Sant'Anna

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