Mercadores da Noite #120 - Do zero ao infinito

Ivan Sant'Anna Publicado em 03/06/2019
6 min
Até chegar aos contratos futuros e operações mais sofisticadas, onde os ganhos e as perdas podem ser estratosféricos, quem acabou de sair da poupança precisa ir devagar

Nota do editor: Hoje, o Ivan escreve sobre a melhor forma de você experimentar investimentos cada vez mais sofisticados e rentáveis. Mas um passo de cada vez. Para este momento do mercado, vale a pena conhecer aqui a estratégia de ganhos rápidos do José Castro.

Caro leitor,

Quase todos os especialistas de investimento da Inversa (eu, inclusive) sugerem aos leitores que não invistam em caderneta de poupança.

Só acho que deve haver exceções.

Digamos que você more com sua família (três gerações: filhos, pais e avós) no sertão da Paraíba, viva de um plantio rudimentar de mandioca e tenha, além do rendimento dessa roça, Bolsa Família e a aposentadoria rural dos velhinhos. Nesse caso, é melhor deixar o dinheiro na caderneta.
 
Se for ao banco tentar coisa melhor, o sub do subgerente que o atender vai tentar lhe empurrar um plano de capitalização ou um fundo de renda fixa no qual a comissão corroa toda a gordura da aplicação.

Por outro lado, se está lendo esta crônica, é sinal de que não tem o perfil acima, nem algo próximo dele, mesmo que sua renda se aproxime desses valores.
   
Claro. Você se tornou um cara que se interessa e lê sobre investimentos.

Formou-se aqui um paradoxo. Se não leu, não sabe o que eu disse acima.

Se leu, esqueça a caderneta. Provavelmente não é um plantador de mandioca, nem recebe Bolsa Família. Apenas um assalariado que morre de medo de arriscar o fruto de seu trabalho suado.

Essa crônica está sendo escrita exatamente para ser lida por pessoas como você.

Volta e meia recebo mensagens de leitores que jamais investiram em coisa alguma, nem mesmo na poupança, e já querem operar contratos futuros de Ibovespa ou de dólar.

É melhor ir devagar. Começar do começo. Do risco e lucro zero (nenhuma aplicação) ao risco e potencial de ganho infinito (venda a descoberto de calls e puts) há um longo caminho a percorrer.

Antes de mais nada, leia o máximo possível de publicações isentas sobre o mercado financeiro, escrita por gente que, como nós da Inversa, não ganha comissões sobre aquilo no qual você vai investir.
   
Enquanto vai aprendendo os fundamentos mais rudimentares sobre o mercado, aplique seu dinheiro, por menor que seja a quantia, em fundos administrados por bons profissionais.
   
A newsletter Cesta & Fundos, escrita pelo especialista Luiz Cesta, e publicada por nós às sextas-feiras, dá ótimas dicas sobre esses fundos de investimento. Lendo-a, e seguindo as orientações do Cesta, você não comprará gato por lebre. E começa a erigir seu próprio portfolio.
   
Após algum tempo, já dá para aplicar parte do dinheiro em títulos de renda variável. Sempre seguindo bons mentores.

Um dia, quando menos perceber, chegará a época de alavancar. Isso significa comprar títulos em valores superiores àqueles dos quais você dispõe.

Falando assim, parece até pecado. Ou crime. Algo como cheque sem fundo. Mas não é nada disso, desde que você ponha sempre um stop em seus trades.

Quase todas as fortunas do mundo surgiram através de alavancagem. Um banco, por exemplo, que tem três bilhões de reais de depósito de clientes, empresta aproximadamente oito vezes isso: R$ 24 bi.
   
Quando sai mundo afora comprando grandes empresas, a trinca Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles usa muito mais do que o capital de que dispõe. Para fazer isso, toma dinheiro emprestado em bancos.
 
A lógica é que os ativos que adquiriram rendam mais do que o custo do dinheiro, princípio básico da alavancagem bem-sucedida.

Tudo bem, eu sei que você, caro amigo leitor, ainda não tem (um dia, quem sabe?) essa bola toda. Mas se, ao invés de comprar 50 mil reais em ações em bolsa, ficar long em dez contratos futuros do mini-índice Bovespa, terá alavancado aproximadamente quatro vezes o seu capital.
   
A partir desse instante, terá de operar com stop.
 
Sua estratégia será mais ou menos assim:
   
“Vou comprar dez mini Bovespas a 97 mil com stop a 96.500.”

Ao longo dos 37 anos nos quais especulei nos diversos mercados, quase sempre operei alavancado ao extremo. Por isso dei muitas porradas e levei outras tantas.

Se tinha cem mil dólares de saldo em minha conta na corretora e comprava 50 contratos de prata, a US$ 15,00 a onça, estava arriscando 375 mil dólares.
   
Não raro, exagerava: ficava short em 200 contratos de soja a oito dólares e 78 centavos. Isso equivalia a ir para casa devendo quase nove milhões de bushels (medida de volume, equivalente a 35,2 litros) ou aproximadamente 9 milhões de dólares.
   
stop tinha de ser curtíssimo. Caso contrário, se a soja subisse muito, e eu não reforçasse minha margem de garantia, a CBoT (uma das bolsas de mercadorias de Chicago) liquidava minha operação compulsoriamente, coisa que, felizmente, jamais aconteceu.

Voltando a você, amigo, que quer subir na hierarquia dos marqueteiros, prepare-se para duas coisas:

— Acompanhe as cotações e o noticiário o tempo todo. Com o advento dos celulares, isso, ao contrário de minha época, é facílimo.

— Dedique-se de corpo e alma ao mercado. Mesmo sem se dar conta, você se tornou um trader profissional.

O último degrau do risco é o daqueles que ficam shorts em calls e puts. São os vendedores do tempo.
 
Eu gostava muito de fazer isso, pois ganhava dinheiro até nos fins de semana e feriados, quando o tempo para nas bolsas e suas opções continuam perdendo valor, já que diminui o prazo de vencimento.
   
Mas não gosto de ser exemplo para ninguém. Fui imprudente demais. Nem sei como saí inteiro (embora com algumas cicatrizes) de todos esses anos de mercador.

Repito. Se quiser ter sucesso, comece devagar. Compre ou venda um ou dois contratos de mini-índice ou mini-dólar, por no mínimo dois ou três anos, até se julgar apto a ir para a primeira divisão, onde brigam os cachorros grandes.
   
Chegando lá, não fique oscilando entre o zero e o infinito. Não seja uma pessoa de extremos.

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Um abraço.

Ivan Sant'Anna

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