Mercadores da Noite #102 - Pra não dizer que eu não fiz nada

Ivan Sant'Anna Publicado em 08/02/2019
6 min
Às vezes é preciso saber a hora de parar para respirar e ficar de fora. Veja o que o Ivan Sant’Anna diz sobre os investidores que não sabem quando dar uma pausa e correm riscos desnecessários

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Caro leitor,

“E aí, doutor Jamil, feliz com o casamento da filhota? Os jornais não falam de outra coisa. Estão chamando de festa do ano.” Às vezes Lúcia Helena, broker da Amalgamated, exagerava no puxa-saquismo. Ela só ficara sabendo naquela manhã que a festa de Fátima, filha do neurocirurgião Jamil Abdala, fora um sucesso tão grande que interrompera o trânsito na Alameda Santos, em frente ao hotel Renaissance onde acontecera a recepção. E que cada convidado recebera um tablet com imagens da vida dos noivos.

“Mais do que merecido”, Lúcia Helena complementou, embora não soubesse nada nem a favor nem contra Fátima Abdala, a não ser que se tratava da filha caçula de seu melhor cliente.

O professor doutor era podre de rico, mas sua fortuna nada tinha a ver com operações no mercado. Muito pelo contrário. Fora toda obtida graças aos seus conhecimentos técnicos, aliados às suas mãos mágicas. Se não especulasse nas Bolsas quase todo dia, mesmo quando sua agenda cirúrgica estava abarrotada, teria muito mais dinheiro.

Jamil Abdala era um perdedor nato em ações, opções e futuros. 
Boatos já tinham dado conta de que o cirurgião certa vez vendera, pelo celular, um lote gigante de calls de S&P 500 com o cérebro exposto de um paciente à sua frente na mesa do centro cirúrgico. Mas podia ser apenas boato, fofoca de invejosos, de quem não tinha o que fazer.

Mesmo assim, imaginemos a cena:

“Pinça Troeltsch, serra Weis, bisturi, escopro, vende 300 a mercado”, teria sido mais ou menos o diálogo simultâneo do cirurgião com a instrumentadora e com a broker, esta no celular que uma enfermeira segurava à frente do médico com o viva-voz ligado.

“O quê?”, perguntou a auxiliar da cirurgia.

“Não, nada, para em escopro, o resto não é com você. É coisa de outro paciente.”

Mercadologicamente falando, a semana que precedera o casamento da filha fora particularmente desastrosa para o doutor Jamil. Tudo que ele comprara, caíra. O que vendera a descoberto, subira.

“Tudo bem, isso agora é passado”, disse ele para Lúcia Helena. “Deve ter sido o nervosismo do casório. Mas agora é vida nova. E por falar em vida nova, o que você está achando do Ibovespa Junho?”

O que a corretora não sabia, nem tinha como saber, é que naquele momento o neurocirurgião procedia ao seu processo de higiene pré-operatória lavando com sabão antisséptico unhas, dedos, mãos, punhos e antebraços enquanto falava e ouvia no microfone e no earphone do celular que um assistente segurava.

“Nossos analistas estão achando que o mercado é de alta. Que tal comprarmos 50 contratos na abertura, com um stop de 200 pontos?”

“E quem disse que sou homem de stops?”, Abdala se irritou. “E desde quando sou homem de 50 contratos? Vocês garantem que vai subir, compra 200. Eu preciso pagar a festa no hotel. Você não calcula...”

“Professor, nós não garantimos. Apenas achamos...”

“Ah, acha? Compra 250. Vou fazer um aneurismazinho e depois telefono pra saber quanto estou ganhando.”

Lúcia Helena se assustou com o lote. Rezou uma ave-maria para o Ibovespa subir. Se o professor Jamil continuasse no seu ritmo de perdas, logo deixaria de operar (na Bolsa, é claro). Voltou a sugerir um lote menor para o professor.

“Por que o senhor não compra só os 50 e se o mercado correr na nossa direção a gente aumenta o lote? Piramidando morro acima, tal como manda o manual.”

“Duzentos e cinquenta lotes, foi o que eu disse”. Uma auxiliar de enfermagem agora secava os braços e as mãos do professor, logo seguida por uma outra que vestiu um par de luvas hospitalares no cirurgião.

“Puxa vida, doutor Abdala”, voltou a falar Lúcia Helena. “O senhor não sabe jogar um amistoso? Só valendo três pontos? O que eu disse foi que o pessoal do departamento técnico acha que a Bolsa vai subir. Não que tem certeza disso.”

“Tá bom, menina. Esquece tudo. Eu não vou fazer nada hoje.”

Agora Lúcia Helena se assustou de vez. Ficou com medo do médico ligar para outra corretora. Todo mundo no mercado sabia que o badalado cirurgião era um especulador nato. Qualquer brokerficaria feliz em tê-lo como cliente. Ela se arrependeu de ter freado os impulsos do doutor Jamil. Mais do que depressa, partiu para outra sugestão:

“Uma fonte fidedigna garantiu que a ata do Copom, que será divulgada hoje, vai dar indícios de que o BC está convicto de que a inflação perdeu o momentum. Na próxima reunião eles devem baixar a taxa básica em mais 100 pontos. Acho que é hora do senhor...”

“...comprar dólares a futuro”, Abdala sequestrou a conversa. “Duzentos e cinquenta... duzentos e cinquenta, não, 300 contratos de dólar para novembro.”

Lúcia Helena tinha pensado em DIs e não em dólares. Mas não ousou interferir.

“Comprar 300 lotes de dólar novembro. A mercado. Assim que o mercado abrir, e se o negócio for fechado, eu mando um WhatsApp.”

   

Minha ficção acima omite se o doutor Abdala ganhou ou perdeu. Esperamos apenas que ele tenha tido sucesso na cirurgia daquela manhã, mesmo sendo de mentirinha.

Pessoas como o doutor Jamil Abdala existem aos milhares, em todos os lugares do mundo. Isso há muitos séculos. Gente que está sempre esperando dar uma tacada milionária e não consegue ficar zerada, nem mesmo por alguns dias, esperando uma ocasião oportuna.

“Para não dizer que eu não fiz nada...”, já vi um colega de mesa falar, antes de passar uma ordem para o mercado de opções e levar o maior ferro.

“Preciso recuperar o que perdi na semana passada. Não vou fechar o mês no prejota”, cansei de ver, tanto de clientes como de traders profissionais.

“Sei que os juros do cheque especial são escorchantes, mas escorchante mesmo é o que farei no Ibovespa hoje. Vou depositar uma margem e vender o que tenho e o que não tenho. Aliás, só o que não tenho, já que não tenho nada. Com essa situação no Oriente Médio, o mercado vai vai cair de quatro.”

Se você, amigo leitor, é daqueles que se sentem na obrigação de estar sempre posicionado, está na hora de aprender a se comportar, de não agir como o cirurgião de minha fábula.

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Um abraço,

Ivan Sant'Anna

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