Investidor Inteligente #2 - Biden e a vacina da Pfizer mexem com suas ações?

Flávio Conde Publicado em 12/11/2020
1 min
Na segunda edição da Investidor Inteligente, Flávio Conde mostra como os eventos externos influenciam seu patrimônio

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Olá leitor(a),

Meu nome é Flávio Conde e esta é minha segunda newsletter Investidor Inteligente, sou o novo head de análise aqui da Inversa.

Neste nosso bate-papo de hoje, vou apresentar para você como eventos externos influenciam (e muito) seus investimentos. 

Como exemplo, vou utilizar dois fatos recentes deste mês: a eleição de Biden e o anúncio da alta eficácia da vacina da Pfizer contra a Covid-19 em testes realizados com voluntários.
 

O que são os eventos “macro”?

De início, quero explicar para você o que são eventos externos denominados “macro”.

Eventos “macro” são sistêmicos. Desta forma, afetam a tudo e a todos ao mesmo tempo, seja aqui no Brasil, na Turquia, na Alemanha ou no Japão – o mundo inteiro é influenciado.

Como o capital flui por todos os países de forma livre, investidores requerem maior prêmio em nações consideradas com maior nível de risco. 

Em um exemplo do dia a dia, você ficaria um pouco mais preocupado se emprestasse dinheiro para um amigo distante (e desempregado) e mais tranquilo se concedesse o empréstimo a um mais próximo (com salário de R$ 10.000) que sempre pode contar por perto. 

Voltando, os títulos públicos de renda fixa de um país são afetados, em termos de preço e de rentabilidade, pela natureza creditícia do emissor do título.

Precisamos ter em mente que cada país tem um nível de risco de crédito diferente, devido à capacidade de honrar o pagamento de sua dívida (igual o caso do seu amigo).

Os EUA são considerados um dos países mais seguros do mundo. Mesmo tendo sua dívida pública próxima a 107% do PIB, ela é bem financiável devido à confiança de investidores de que o país será capaz de pagar os juros dos títulos que a financia. 

Assim, a mudança do presidente dos EUA é muito importante porque ele poderá, com seu plano econômico, aumentar ou diminuir o risco de crédito do país. 

E isso terá efeito direto nos preços e rentabilidades dos títulos públicos americanos (imagine se seu amigo que ganha R$ 10.000 resolve gastar R$ 9.999, fica um pouco mais difícil para ele te pagar).

O mesmo risco ocorrerá com outros ativos – como renda fixa privada, ações, moedas, fundos imobiliários, ouro e até bitcoin – porque economia, juros, indústria, comércio, serviços, agronegócios, imóveis, etc. também serão afetados pelo eventual plano econômico de Biden, que detalharemos mais adiante.
 

Biden na Casa Branca e a reação dos mercados

Os EUA elegeram Joe Biden como presidente em 3 de novembro de 2020, mas o democrata somente tomará posse no dia 20 de janeiro de 2021. 

Mesmo faltando cerca de 10 semanas para a posse, o mercado financeiro já começou a precificar essa mudança a partir de 9 de novembro, quando os meios de comunicação reportaram a vitória de Biden.

Naquele dia, os índices futuros das bolsas americanas negociados nas principais bolsas de todo o mundo (Tóquio, Xangai, Londres, Frankfurt e Nova York) apresentaram forte alta, com o Dow Jones subindo 3,5% por volta das 9h00 (horário de Brasília). 

Quando o relógio marcava 11h00, a bolsa subiu mais ainda, atingindo valorização de 5% após a chegada da notícia de que a vacina da Pfizer e BioNTech tinha atingido um nível de eficácia de mais de 90% nos participantes de testes realizados.

Assim, em um dia que sempre será lembrado, dois eventos macro influenciaram positivamente o mercado acionário dos EUA e, por tabela, do mundo. No Brasil, por exemplo, o Ibovespa subiu 2,6% neste dia.

Então, por que as ações brasileiras subiram tanto se o presidente americano somente tomará posse em 2021 e a vacina ainda está em testes?

Resposta: a posse de Biden será apenas em 2021, mas como deverá gerar forte mudança em vários aspectos macro – tanto econômicos como geopolíticos que devem impactar positivamente a economia americana e, por tabela, o mundo inteiro – os mercados financeiros sempre antecipam o que deve acontecer no futuro próximo (dentro do período de 1 semana a 2-3 meses).
 

O plano econômico de Biden

Vamos agora olhar alguns pontos do plano econômico do Biden que reforçam a perspectiva de melhora dos fatores macro:

1. Aprovação de um novo plano de estímulos econômicos para os EUA de US$ 2 trilhões pelo Congresso, ajudando famílias a consumir e empresas a superar a queda de receita durante a pandemia. Isso pode ocorrer já em novembro se os senadores republicanos não atrapalharem, já que Nancy Pelosi, democrata e presidente da Câmara dos EUA, prometeu voltar a negociar passada a eleição presidencial.

2. Plano de investimentos de US$ 1,3 trilhão em 10 anos para infraestrutura em rodovias, pontes, banda larga rural, energia limpa e trânsito em áreas mais pobres.

3. Volta ao Acordo Climático de Paris e adoção das mudanças climáticas como parte de política externa e negociações comerciais. Biden também exigirá uma proibição mundial de subsídios aos combustíveis fósseis;

4. Promoção de um setor de energia livre de poluição de carbono em 2035; e

5. Não proibição do fracking – faturamento hidráulico, método de extração no subsolo danoso ao meio ambiente – do xisto, mas não permissão de novas licenças para perfuração de petróleo e gás de xisto em terras federais e offshore.

Especificamente em relação aos pontos 3, 4 e 5, esses fatores devem gerar maior investimento em empresas não poluidoras e menor oferta de combustível de xisto.

Como resultado, as empresas que poluem muito, como as petrolíferas Chevron, ConocoPhillips e Exxon Mobil, podem perder valor. 

Paralelamente, empresas que poluem menos, como Siemens, Johnson e Unilever, com emissão zero de carbono, podem ganhar valor.

Isso não deve acontecer já, mas sim ao longo do tempo, conforme Biden tome decisões nesse sentido.
 

Gastos, dólar e bolsa americana 

Tomando como base apenas as cinco metas citadas, o governo Biden deverá aumentar muito o gasto público (US$ 3,3 trilhões), elevando o déficit fiscal.

O Fed, o banco central americano, não deve aumentar os juros (como mandaria os tradicionais livros-texto de Economia), pelo fato de, desde o período de Alan Greenspan (1987-2006) como presidente, ter um mandato duplo de manter a inflação em níveis satisfatórios e estimular o crescimento econômico. 

E diante do crescimento anêmico, a inflação está controlada em 1,2% para 2020 e em 1,7% no ano de 2021, segundo a última revisão do Fed.

A manutenção de juros baixos e gastos públicos maiores representa um dólar de menor valor frente a outras moedas – porque quanto maior a dívida pública de um país mais fraca será sua moeda ceteris paribus (tudo mais constante). 

Por sua vez, os novos gastos públicos com famílias, empresas e investimentos, devem acelerar a economia dos EUA e, por tabela, as vendas e lucros das empresas americanas.

Em decorrência da fragilidade fiscal e da aceleração econômica, o dólar deve se enfraquecer ao longo do tempo e a bolsa subir nos EUA. 

Como a bolsa americana costuma ditar a direção da maioria das bolsas do mundo, inclusive a do Brasil, o Ibovespa deve avançar também.
 

Vacina da Pfizer, Brasil e o Investidor Inteligente 

Agora que você entendeu bem como a mudança de presidente nos EUA pode afetar preços de ativos, vamos entender o porquê do anúncio da alta eficácia nos testes realizados pela Pfizer com sua vacina contra a Covid-19 influenciou tanto o preços de ativos no Brasil.

A economia brasileira quase parou nos meses de abril, maio e junho por conta do isolamento social para evitar a propagação do vírus. A paralisação gerou perdas enormes para a maioria das empresas, quebras de vários comércios e serviços e, por fim, forte aumento no desemprego.

No terceiro trimestre, a economia melhorou um pouco com o fim do isolamento social, mas muitos continuaram a trabalhar de casa, consumindo menos por medo de contaminação, já que o vírus continua a circular, embora numa intensidade menor.

Quando saiu a notícia da vacina da Pfizer, o otimismo foi generalizado com as ações, porque mesmo que a vacina ainda esteja em teste e sua produção e aplicação só devam acontecer no primeiro trimestre de 2021, isso significa uma “luz no fim do túnel”, ou seja, a economia voltará a crescer pós-vacinação, as empresas voltarão a vender bem, gerar caixa, lucrar e distribuir dividendos.

Portanto, fica aqui a segunda lição do investidor inteligente:

  • Sempre considere os fundamentos macros dos EUA e do mundo – como a vacina da Pfizer – antes de rebalancear sua carteira de investimentos porque o impacto nos preços dos ativos pode ser grande.
  • Além disso, há uma vantagem que é o efeito contínuo e de prazo longo que alguns eventos macros podem gerar, como os dois citados.
  • Explicando melhor, se você não se posicionou logo no primeiro dia, não se preocupe: no segundo, no terceiro ou mesmo no sétimo dia, ainda dará tempo, porque os efeitos benéficos de Biden e da vacina da Pfizer serão duradouros e não foram precificados em sua totalidade.

Finalizo com uma citação de Benjamin Graham, pai do value investing e referência para o nome desta newsletter:

“No curto prazo, o mercado é uma máquina de votação, mas no longo prazo, é uma máquina de pesagem” 

Pese seus investimentos com sabedoria. Conte comigo no que precisar. 

Boa semana e bons negócios a todos.

Abraços,

Flávio Conde, CNPI

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