Ideias do Paletta #8 - Acorda... Não está vendo suas ações caindo?!

Felipe Paletta Publicado em 16/04/2020
1 min
Paletta avalia sobrecarga de informações para questionar racionalidade das decisões nos investimentos.

“Nunca conte o seu dinheiro enquanto estiver sentado à mesa. Haverá tempo suficiente para fazê-lo quando o negócio for fechado”
– Kenny Rogers, na canção “The Gambler”.

Caro leitor,

Recebi há poucos dias a carta mensal da gestora brasileira especializada em small caps (empresas de menor valor de mercado), Trígono, que me fez lembrar de um texto que escrevi aos meus leitores aqui na Inversa e que não poderia ser mais atual, por isso acho que vale a pena compartilhar com você.

São poucas as habilidades essenciais para que pessoas comuns, como eu e você, possam dominar a arte – e essa é a melhor definição do que fazemos aqui – de gerar riqueza no longo prazo e uma delas é, indubitavelmente, a capacidade de enxergar nossas próprias limitações.

Ainda que tentemos nos desfazer de nossas paixões, experiências passadas e outros tantos vieses que construímos com base na experiência pessoal, cada um de nós carrega um fator de subjetividade na hora de tomar decisões, especialmente no que se refere aos investimentos.

Frente à essa limitação, o simples fato de conseguir observar esses vieses de perto nos permite atuar ativamente para que cheguemos o mais próximo possível do limite da racionalidade. Aliás, esse é o grande motivo pelo qual várias teorias financeiras clássicas são criticadas, por assumirem que os investidores são racionais o tempo todo, algo demasiadamente impreciso.

Para não te deixar apenas com as implicações filosóficas do que estou falando, vou trazer uma adaptação do brilhante exemplo que retirei do livro Nudge: Como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade, escrito pelo ganhador do prêmio Nobel de Economia, Richard Thaler, e pelo professor de Harvard, Cass Sustein.

Hey Rip, acorda... não está vendo suas ações caindo?!

Imagine dois investidores. De um lado temos o Vince, um corretor de Bolsa e investidor experiente, com acesso constante às informações em relação ao valor de todos os seus investimentos e aos acontecimentos em tempo real.

Digamos ainda que, por ter acesso irrestrito ao valor dos ativos, criou ao longo dos anos o hábito de consultar diariamente o valor do seu portfólio.

Agora, imagine que do outro lado temos o Rip que, após herdar uma grande fortuna, recebe a notícia dos médicos: em função de uma tradição familiar, dormiria por 20 anos.

Você já recebeu seu livro? Retire aqui a obra de gestão e vida do Pedro Cerize.

Sem saber o que fazer em seguida, decidiu seguir a sugestão do médico da família e consultar-se com o seu corretor quanto a melhor alocação de seu patrimônio recém-herdado, que ficaria alocado pelos longos 20 anos que teria de repousar.

Agora te pergunto: qual dos dois você acredita que tende a ter uma alocação maior em ações?

Bom, no livro os autores respondem sem a menor sobra de dúvidas que o Rip estaria muito mais disposto a investir em ações do que o Vince, pelo seguinte motivo: nos EUA, em múltiplas janelas de 20 anos, os principais índices acionários do país superam o retorno da renda fixa (me refiro aos títulos livres de risco).

Desta forma, o investidor se sentiria confortável em expor o seu patrimônio em ações, enquanto o Vince, que costuma consultar todos os dias o valor de seus investimentos, tenderia a ter uma posição substancialmente menor, mesmo sendo um investidor experiente.

Isso acontece porque os investidores – mesmo que profissionais – tendem a ser avessos a perdas, deixando de vender ações que estão caindo por fixarem-se ao seu valor de aquisição e/ou realizando os lucros muito rapidamente, ainda que os ativos estivessem negociando bem abaixo do que poderíamos chamar de “valor justo”.

Em outro estudo, Thaler também chegou a discutir a tal da “Miopia de Aversão a Perda”, que sugere a tendência de darmos mais importância a acontecimentos recentes, fazendo com que os ativos negociem com distorções em relação aos fundamentos de longo prazo.

Talvez para você essa resposta não seja tão simples quanto os autores colocam no livro – para mim também não soou desta forma quando o li pela primeira vez, mas isso é reflexo de outro de nossos vieses.

Como no Brasil, em um passado recente, investir em títulos de renda fixa superava, em várias janelas, o retorno do Ibovespa, talvez a decisão do Rip em alocar tudo em ações não fosse tão óbvia assim. 

Mas, de qualquer forma, isole esse fator por alguns instantes para interpretar a mensagem dessa metáfora: enquanto o Rip, em tese um leigo, foi capaz de dormir tranquilo sabendo que todo o seu patrimônio estaria investido em ações por 20 anos, o Vince, que é um profissional do mercado, em virtude de sua rotina de consulta diária à volatilidade de seu portfólio, provavelmente se expõe muito menos a Bolsa (e a quaisquer outros ativos de risco).

Isso que nem comentei que em períodos de alta há uma tendência de gastarmos mais. Isso mesmo: valorização, mesmo que virtual do patrimônio, faz com que nossa disposição a consumir aumente, o que é irracional, se você parar para pensar.

Como profetizou Kenny Rogers na música que abriu a edição, não caia na tentação de consultar os seus investimentos a todo momento – obviamente, desde que esteja fundamentado (a), pois isso evitará que cometa vários equívocos.

É mais ou menos o mesmo efeito de pesar-se todos os dias quando está de dieta: ao perder um quilo, provavelmente a sua disposição a comer doces aumenta, comportamento este que talvez não teria ao diminuir o fluxo com que passa pelo estresse de consultar o visor do algoz.

Agora, isso não quer dizer que devemos ser passivos e esquecer os ativos que investimos por 20 anos, como exageraram os autores no livro, até porque o mercado carrega vários traços de ineficiência que podem, e devem, ser explorados.

Como o autor da música citada anteriormente diz:

“Você tem que saber quando segurá-las [suas apostas]
Saber quando dobrá-las
Saber quando sair fora
E saber quando correr"

Um abraço e até a próxima!

Felipe Paletta

Reserve aqui seu livro Who Cares, por Pedro Cerize e leia as crônicas que vão durar para eternidade com lições de investimentos e vida de um dos maiores Gestores de Ações do nosso país.

Conteúdo protegido contra cópia