Ideias do Paletta #7 - Lições de uma Copa

Felipe Paletta Publicado em 31/03/2020
1 min
Muitas vezes, em especial em momentos de crise, o investidor tem de reduzir ainda mais o fluxo de variáveis da hora de tomar uma decisão. É melhor ganhar do que estar certo.

 

Caro leitor,
  
O que é melhor: estar certo ou estar 100% confortável com suas escolhas? Parece meio confusa essa interrogação, eu sei, mas esta é uma das lições mais valiosas que tive em toda minha trajetória como investidor.
  
Vou usar um exemplo bem prático para chegarmos a uma conclusão.
  
Não sei se você gosta de futebol, mas de uma coisa tenho certeza: você sabe que a cada quatro anos o mundo “para” para assistir à Copa do Mundo.
  
Este é, literalmente, o único evento esportivo que reúne mãe, irmã, primos e todos aqueles que reclamam duas vezes por semana enquanto o vizinho grita gol ou xinga pelos cotovelos.
   
Lá em casa, sempre tivemos o costume de reunir todo mundo para assistir aos jogos da amarelinha e, como não podia faltar, rolava o tradicional bolão, em que cada um aportava 10 reais. O ganhador levava tudo.
  
Para quem já tem alguma familiaridade com os instrumentos mais sofisticados de investimento, digamos que você estava comprando uma call (opção de compra) bem fora do dinheiro. Ou seja, ganhava uma nota se cravasse o placar ou zerava.
  
Para isso acontecer, obviamente, ninguém podia colocar um placar igual. 
  
Ganhava quem cravasse (ou chegasse mais perto) do placar da partida e acertasse também o artilheiro da partida (ou último a marcar). Se acertasse só um dos dois, metade do prêmio acumulava.
  
Bom, é aí que a história começa.
  
Na Copa de 2006, na Alemanha, decidi usar um pouco de estatística pra fundamentar meu palpite. O primeiro jogo que conseguimos juntar uma boa quantia era Brasil versus Japão, ainda pela fase de grupos. 
  
Parecia bem óbvio que o Brasil ganharia fácil, mas para não deixar o emocional falar mais alto, planilhei os scouts da seleção desde a Copa de 2002, passando por amistosos e todos os torneios que tivemos no período.
  
Peguei os dados mais recentes dos gols anotados pelos jogadores brasileiros e japoneses em seus respectivos times, o retrospecto dos árbitros da partida, o histórico de placares no estádio de Dortmund e tudo mais que você possa imaginar.
  
Criei uma espécie de modelo que me cuspia o placar mais provável, segundo todos aqueles parâmetros que havia determinado.
  
Demorei tanto pra fazer isso que quando cheguei à resposta (Brasil 2 x 1 Japão, com gol do Ronaldo Fenômeno), minha tia que odeia futebol já o tinha escolhido.
  
Fiquei possesso. Realmente estava confiante no palpite. 
  
Restou seguir o palpite que meu lado fanático gritava: Brasil 4 a 1, com Ronaldinho artilheiro – o Fenômeno mesmo, não o Ronaldinho que está hoje preso no Paraguai. 
  
Como fã do esporte, e conhecendo muito bem aquele time, o placar me parecia muito razoável, mas não estava nem de longe confortável com a minha decisão, simplesmente porque placares elásticos são raros. Enfim, todo mundo sabe disso.
  
Não deu outra: faltando dez minutos pro fim do jogo, o Fenômeno marcou seu segundo na partida e sacramentou a virada e o placar de 4x1 sobre os nipônicos.
  
Sei que este não é o melhor dos exemplos, mas a mensagem que quero passar é que muitas vezes nos esforçamos para sofisticar nossos modelos, tudo para nos sentirmos confortáveis com a resposta, ainda que ela seja mais simples de se alcançar do que parece.
  
Não estou dizendo que você não precisa se aprofundar, muito pelo contrário (muito mesmo). Mas precisa concentrar seus esforços no que realmente importa. Acompanhar os noticiários 24 horas por dia não vai ajudar muito.
  
Não adianta ficar planilhando o número de novos casos do coronavírus em diversos países, ouvindo a entrevista de cada chefe de Estado ou vidrado no twitter. Isso não vai te garantir vantagem alguma.
  
O que é preciso fazer, neste momento, é: estudar as empresas das quais podemos ser acionistas, entender como elas podem ser afetadas neste momento e refletir sobre o que vemos ao nosso redor. Afinal, a economia é composta por tudo aquilo que nos cerca.

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Será que o mundo vai acabar? Será que as pessoas vão ficar desempregadas para sempre? O preço dos bens e serviços está aumentando de forma irracional? Quais empresas e setores serão menos impactados pelo corona?
  
Fazer as perguntas corretas vai fazer com que a sua margem de segurança seja muito maior. É melhor do que simplesmente tentar adivinhar o melhor momento de comprar bolsa. 
  
ostumo dizer que quando você compõe um portfólio, deve investir 90% do seu dinheiro onde estão suas convicções e o resto naquele diabinho que anda sobre os seus ombros, para o caso de acontecer o que está acontecendo neste exato momento.
  
Lembre-se de que estamos bem no olho de um grande furacão, cuja probabilidade de ocorrência não era muito diferente daquele placar contra o Japão, apontado em minhas planilhas.
  
Como diria o ex-técnico do Timão Fábio Carille, às vezes, é melhor saber sofrer, e levar os três pontos para casa, do que jogar bonito e ter de dar desculpas aos leões.
  
Se você quiser se tornar realmente um investidor que pensa em construção de patrimônio a longo prazo, precisa entender que é preciso estar confortável no desconforto.
  
E não há problema algum em buscar ajuda especializada no começo. Ninguém nasce sabendo andar.
  
Um abraço e até semana que vem!

Felipe Paletta

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