Ideias do Paletta #38 - GameStop e IRB, crime ou irresponsabilidade?

Felipe Paletta Publicado em 01/02/2021
5 min
O mercado é como um narrador de futebol. Atrai sua atenção, mas, no final, só ganha (ou perde) quem torce ou entra em campo. Não faça de um narrador o seu ídolo. Cuidado com esquemas de manipulação de preço com as ações, cada vez mais comuns na web.

Olá,

Escrevo, principalmente, para aqueles que seguiram de alguma forma os esquemas de manipulação de preço com as ações da norte-americana GameStop (GME) ou, na versão tupiniquim, em IRB (IRBR3).

Vimos um grande esquema de manipulação (pump and dump) ou um acidental short squeeze (em tradução livre, pressão sobre os vendidos) com grandes derivadas?

A linha é muito tênue.

Enquanto nos EUA não há – pelo menos até agora – provas de uma coordenação de esquema de manipulação, aqui no Brasil mais de 30 mil pessoas se reuniram em um grupo público de Telegram para articular uma compra forçada em IRB.

 

(acredite ou não, isso está acontecendo)

 

Como resultado, IRB chegou a subir mais de 17% em um dia, enquanto GameStop chegou a subir mais de 1.000%, em apenas cinco dias.

Sem fundamentação prática ou argumentação plausível que sustente a valorização expressiva dessas empresas, o mercado foi tomado por uma narrativa libertária, travestida na “vingança” dos pequenos contra os grandes tubarões do mercado.

No sense.

Qual seriam os limites desse liberalismo de quem tem defendido esses esquemas?

Vi muita gente crucificar as decisões de interferência nas negociações das ações dessas empresas, mas me responda: qual a solução prática para evitar esses esquemas sem que a regulação sobre o mercado aumente e, assim, sua estrutura de custos?

Lembre-se de que estamos falando de empresas que operam todos os dias, que têm funcionários, pagam boletos...

Empresas têm um valor. E o valor delas não tem respaldo algum na opinião e apostas de grandes hedge funds ou grupos de pequenos investidores.

Não participe disso. Não faz sentido.

Podemos até discutir as regras do jogo, o que é ou não justo, o que precisa mudar urgentemente. Todavia, uma vez definidas, elas não podem ser aplicadas de forma diferente.

Como analista de valores mobiliários, sou obrigado a me reportar à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e a respeitar uma série de exigências da lei.

Justo.

O que não pode acontecer é mascararem todas as ações na internet com disclosures do tipo:

“Isso não configura recomendação de investimento”.

Me desculpe.

Apoiando-se ou não na liberdade de expressão, manipular o mercado é crime, como reforçou a CVM na última sexta-feira (29).

Em uma era em que pseudônimos no Twitter ganham respeito e levam as pessoas a tomarem ações, cabe ao investidor tomar consciência da arquitetura do mercado para evitar as armadilhas.

E não basta ter consciência. É preciso exercício diário e autorreflexão.

Se você leu – se não, sugiro que o faça – a brilhante obra de Ray Dalio, Princípios – Vida e Trabalho, sabe que o sucesso dele como gestor de ações foi resultado de décadas de, quase que religiosas, anotações de erros, acertos e experiências.

Por mais genial que você possa ser, só a prática é capaz de te formar...

Como Pedro Cerize já disse aqui por vezes, não é um MBA em finanças que te fará tomar melhores decisões.

Nada é tão linear na prática como os livros de finanças narram.

Tivemos a prova disso na semana passada.

A conta... bom, os desinformados pagarão.

Por exemplo, há um campo em branco na palavra abaixo e falta uma letra. Você é capaz de dizer qual é a palavra em apenas um chute?

 

BO_A

 

Se você completou com um “L”, não é coincidência.

As palavras “campo”, “falta”, “chute” na pergunta ajudaram a condicionar a sua resposta.

Você nem precisava, por exemplo, ter respondido à minha pergunta anterior.

O que te obrigou?

Tudo jogava contra você...

Sua chance de acertar essa resposta não era maior do que 17%.

Você investiria em alguma coisa cuja probabilidade de retorno negativo é de 83%?

Muita gente sabe disso no mercado e não usa isso em favor dos investidores. Pelo contrário.

As pessoas querem responder a perguntas, querem fechar GAP, preencher vazios. Isso é um prato cheio para toda a indústria.

“Vara é 10”

“Conga é 20”

Entre o crime da promoção e a irresponsabilidade de quem segue ou seguiu esse tipo de esquema com GameStop ou IRB, ficam as dores e as marcas naqueles pagarão a conta no final.

Se tem uma lição que espero que você tire dessa carta é que isso acontece o tempo todo no mercado sem que você perceba.

A boa notícia é que você só precisa ficar de fora.

O mercado é como um narrador de futebol. Atrai sua atenção, mas, no final, só ganha (ou perde) quem torce ou entra em campo.

Não faça de um narrador o seu ídolo.

Vou ficando por aqui, se você gostou dessa newsletter não esqueça de escrever para ideias@inversa.com.br dizendo o que achou, combinado?


Grande abraço,

Felipe Paletta, CNPI

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