Ideias do Paletta #2 - Tá na chuva, é pra se molhar?

Felipe Paletta Publicado em 10/02/2020
5 min
Quando as Bolsas batem recordes, é fácil ignorar sinais claros de desaceleração. Este ano tem tudo para ser de muita volatilidade, só que, infelizmente, não estamos mais em condição de encontrar seguros a preço de banana

Caro leitor,
  
O que você faz quando imagina que algo grande está por vir? Veja, estou sendo bem genérico aqui para tentar chegar à essência da resposta. Você se prepara, certo? 
  
Não importa muito como, mas conseguimos concordar que é simplesmente contra nossa essência ignorar o que pode acontecer. 
  
Agora, vamos melhorar um pouco o exercício. Você está em São Paulo, que é conhecida como a cidade da garoa, sobretudo nos meses de verão, quando a cidade apresenta os maiores índices de pluviosidade.
  
Decide ir a um festival de rock, daqueles que duram um dia inteiro, em um estádio totalmente aberto. Imagine também que no dia do evento abriu aquele sol, com os termômetros passando dos 30 graus. 
  
O que você faz, agora? Leva uma jaqueta? Uma capa? Mas, e aí, fica segurando o dia todo? Sério?! 
  
Quero saber sua resposta, mas antes quero te contar o que eu fiz diante dessa situação.
  
Sim, no último fim de semana encarei um festival de rock aqui na cidade de São Paulo, no estádio da Lusa (Portuguesa) – mais nostálgico, impossível.
  
Capital Inicial, Legião Urbana, Biquíni Cavadão, CPM 22 e Detonautas são só alguns dos nomes, entre outros tantos, que animaram por mais de 12 horas o público.

Reserve aqui seu livro Who Cares, por Pedro Cerize e leia as crônicas que vão durar para eternidade com lições de investimentos e vida de um dos maiores Gestores de Ações do nosso país.

Com medo da chuva, antes de sair de casa, eu só conseguia pensar em quatro possibilidades:
  
Chuva - Capa = End Game;
Chuva + Capa = Proteção + Estorvo;
Capa - Chuva = Estorvo + Proteção;
- Capa - Chuva = Perfeito.
  
Bom, pelo menos eu tentei refletir sobre isso, pois quando aquele sol de rachar a cuca entrou pela janela e olhei para o armário, pensei: "não, sem chance".
  
Foi como se as probabilidades, de um momento para o outro, tivessem se voltado a favor da última. 
  
Já perto do estádio, com as nuvens se amontoando, brotavam pessoas do chão tentando me empurrar capas de chuva por 5 reais.
  
Resisti. 
  
Pensei: "se não peguei quando era de graça, por que raios pagaria por proteção agora?" 
  
Lá dentro, horas depois, uma nuvem negra, das grandes, estacionou sobre a minha cabeça. Nesse momento, a capa, acredite, não saia por menos de 20 mangos e o Biquíni Cavadão já se antecipava ao que poderia vir: "Chove chuva, chove sem parar".
  
Àquela altura, eu só conseguia pensar: "Ah, tá na chuva, é pra se molhar!". Para minha sorte, as poucas gotas que caíram não encheriam nem uma tampinha de Coca-Cola. I win! #SQN
  
Olhando o resultado, claro, parece que me dei bem, mas, na realidade, dei foi uma baita sorte.
  
Hoje, por exemplo, nem consegui chegar ao escritório da Inversa, de tanto que choveu na capital paulista.
  
Veja, eu poderia ter feito um seguro quando era de graça, simplesmente por ter consciência das possibilidades e do impacto que a chuva poderia ter causado. Teria o inconveniente de carregá-lo, mas e se chovesse de verdade?
  
Me deixei contaminar pelo sol de rachar a cuca e, como Shlomo Benartzi e Richard Thaler defendem na famosa Teoria da Perspectiva, a miopia de aversão à perda me fez superestimar acontecimentos recentes.
  
No mundo dos investimentos, cometemos esses erros a todo momento...
  
Com as Bolsas batendo recordes há mais de dez anos, é fácil ignorar os sinais claros de desaceleração, o risco da eleição norte-americana, entraves na agenda de reformas domésticas e muitos outros eventos fora do radar.
  
Este ano tem tudo para ser de muita volatilidade, só que, infelizmente, não estamos mais em condição de encontrar seguros a preço de banana (ouro, dólar, opções de venda sobre S&P 500, etc.).
  
Diria que, na minha analogia, já temos uma nuvem bem carregada sobre a cabeça. A capinha já é vendida por uns 10 mangos.
  
Minha sugestão: não tente ser mais esperto(a) que o mercado. Proteja-se em moeda forte e mantenha uma confortável posição de caixa para aproveitar boas oportunidades de compra.
  
Caso contrário, corre o risco de fazer par com o Dinho Ouro Preto ao entoar a composição de Kiko Zambianchi:
  
“Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros ah
Meu corpo viraria sol
Minha mente viraria sol
Mas só chove, chove
Chove, chove”


E quem mora ou trabalha em São Paulo, assistindo desde ontem à noite ao temporal que cai sobre a cidade, sabe que as chuvas podem ser intermináveis.

Um abraço

Felipe Paletta

Retire aqui sua cópia do livro 1929: a quebra da Bolsa de Nova York, por Ivan Sant'Anna.

Conteúdo protegido contra cópia