Ideias do Paletta #12 - As marcas da erupção

Felipe Paletta Publicado em 08/06/2020
5 min
Como vulcões, mercados são instáveis por natureza: para se antever, melhor estar em constante movimento

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Caro leitor,

Redescoberta entre os séculos 17 e 18, as cidades italianas de Pompéia e Herculano passaram quase 1.700 anos soterradas por uma das mais agressivas erupções vulcânicas já registradas, a do Vesúvio, no ano 79 d.C.

Andar por estas cidades, a 20 km do porto napolitano, é como ler visualmente um livro de história sem as narrativas e paixões inerente ao homem.

Nas ruas, ainda é possível visualizar as marcas das carroças sobre as pedras, assim como os pedaços elevados de rocha que eram usados como faixa de pedestre – sim, as faixas listradas como conhecemos hoje remontam a esse período.

Fonte: Arquivo Pessoal

É realmente impressionante.

Mas não há nada mais marcante, para mim, do que os vestígios de cachorros, crianças e adultos petrificados:

Fonte: Arquivo Pessoal

O entendimento dos especialistas é de que a erupção do Vesúvio não projetou lava sobre as cidades litorâneas, mas sim, fumaça, areia, pedras e um calor superior a 250 ºC, matando instantaneamente mais de 10% da população, que não conseguiu escapar a tempo.

O soterramento e posterior decomposição dos corpos permitiu que os arqueólogos injetassem gesso nas cavidades escavadas e trouxessem à vida, como você viu, o último suspiro dessas pessoas.

Mas a erupção do Vesúvio não aconteceu de repente.

No ano de 62 d.C., ambas as cidades foram assoladas por um forte abalo sísmico e ainda se reconstruíam quando o pesadelo de 79 veio à tona.

Lembrar dessa história me faz pensar, instintivamente, na pandemia que todos nós estamos enfrentando e nas marcas que ela deixará.

Está cada vez mais claro que o Corona veio para catalisar uma série de processos que já estavam em curso.

Os shoppings centers, por exemplo, já vinham passando por grandes transformações, com a prestação de serviços (restaurantes, cabeleireiros, cinemas, espaço de diversão etc.) ganhando cada vez mais representatividade no faturamento.

As grandes varejistas, como Magazine Luiza, Lojas Americanas e Via Varejo (dona das marcas Casas Bahia e Pontofrio) já vinham digitalizando seus negócios e transformando as megastores em grandes hubs de distribuição local.

Com relação a este último exemplo, em uma live (veja só, a novidade) da renomada Verde Asset, na semana passada, o CEO do Magazine Luiza, Frederico Trajano, destacou que a empresa está crescendo 50 semanas em 5, desde que a pandemia começou.


O varejo online no Brasil que representava algo como 5% do consumo nacional, pulará rapidamente para 10%, em sua opinião.

Os hábitos mudam e quem fica parado assume mais risco pelo mesmo nível de retorno potencial.

Assim como o abalo de 62 d.C. prenunciava o inevitável, os alertas estão aí há muito tempo.

Criada em 1997, oferecendo serviço de entrega de DVD pelos correios, o Netflix entendeu os sinais no começo do século e avançou sobre o streaming enquanto Blockbuster e outras tantas acabaram soterradas pelos avanços tecnológicos.

Na Bolsa, a mesma regra é válida.

Quem for teimoso e insistir nos mesmos ativos financeiros que foram vitoriosos no passado, corre o risco de ser “surpreendido” como foram as pessoas que resistiram ao êxodo de Pompéia e Herculano.

Minha sugestão? Invista em companhias que já estavam olhando para o futuro que agora nos parece mais óbvio e nas empresas que estarão em seu entorno.

Se o varejo online crescer mesmo nessa proporção, já imaginou o tamanho da importância que ganharão os fundos imobiliários de galpões logísticos? 

Pois é, isso já tem refletido nas cotas desses fundos, mas para quem está disposto a investir por 2, 3 ou mais anos, ainda vejo ótimas oportunidades. Meus favoritos na série Fundos Expert são: LVBI11 (VBI Logístico) e XPLG11 (XP Log).

É, se depois de 2 mil anos ainda consigamos ver as marcas de uma sociedade em meio ao caos, a tecnologia dos dias de hoje talvez permita que daqui a milênios pessoas vejam fotos de VHS, lojas de departamento e muitas outras coisas que nem sonhamos que irão desaparecer.

Como deixou registrado o filósofo Romano, Plínio (o Velho), antes de morrer soterrado pelo vulcão:

“O homem é o único animal que não aprende nada sem ser ensinado: não sabe falar, nem caminhar, nem comer, enfim, não sabe fazer nada no estado natural, a não ser chorar.”

A vida é dinâmica, caro(a) leitor(a). Experimente ficar parado(a)...

Gostou dessa newsletter? Tem algum assunto relacionado ao mundos dos investimentos que te interessa? Então me escreva no e-mail ideias@inversa.com.br 

Um abraço e até a próxima!

Felipe Paletta

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