Gritty Investor #55 - Lemming Investor

Pedro Cerize Publicado em 29/06/2018
5 min
Porque muitos vão buscar a liquidez, enquanto eu vou ficar quietinho

Gritty Investor

Oi.

O homem se diferencia dos animais por ter uma consciência, por ser racional. Bom, é assim que me ensinaram na escola. Em outras áreas da ciência, físicos e matemáticos encontraram equações que geravam padrões similares aos encontrados na natureza.

Benoit Mandelbrot, por exemplo, ficou conhecido principalmente, por suas contribuições no campo da geometria fractal — o próprio termo "fractal" foi determinado por ele em 1975. A forma de crescimento da copa das árvores, a formação de cristais de neve, o padrão de descargas elétricas em tempestades e muitos outros fenômenos naturais pareciam obedecer a essa equação.

Posteriormente, o matemático usou essa mesma teoria para explicar os movimentos dos mercados. Mas, ao mesmo tempo em que ele afirmava que esses fenômenos pareciam seguir uma equação matemática definitiva, ele assumia que não era possível prever com certeza o fenômeno, pois um componente de aleatoriedade sempre estava presente.

É como se Deus tivesse criado um jogo com regras precisas e tivesse adicionado a essas regras o aleatório.

A maioria dos investidores sonha com a possibilidade de que seja possível adivinhar o futuro. Como se fosse plausível saber o resultado antes de todos os outros por conhecer suficientemente as condições iniciais do jogo. E, muitas vezes, por períodos curtos de tempo, essa “ciência” parece funcionar. E, a cada sucesso, cresce a confiança no “modelo” preditivo e racional de tomada de decisões.

Nessas fases, os formuladores esquecem-se das leis naturais às quais os homens estão subordinados.

Mais recentemente, estudos de comportamento humano demonstram que esse “ser racional” constantemente age de forma irracional. E pior, previsivelmente irracional. Já existe um catálogo de quais são os vieses no processo de decisão, e, mesmo assim, continuamos agindo igual.

No entanto, não estamos sozinhos nessa área. Se um extraterrestre observasse a Terra durante uma grande guerra, teria dificuldade de entender qual a lógica evolutiva naquele comportamento natural. Seria esse um processo natural de controle populacional? E se fosse, por que não aconteceram outras grandes guerras depois que a população mundial ultrapassou largamente a que existia antes dela? E se a aptidão para a guerra fosse um atributo negativo, por que os humanos beligerantes não tenderam à extinção?

Esse cientista extraterrestre teria dificuldades de entender tudo o que se passa por aqui, assim como os cientistas têm dificuldade de entender a migração dos lemmings.           

                     
A cada 3 ou 4 anos, grande parte da população desses animais comete suicídio coletivo. Como um lemming vive aproximadamente dois anos, poderíamos traduzir isso para 110 a 150 anos humanos.

Trazendo isso para os mercados, vemos gerações de investidores que estudam o passado e olham com espanto como tantas pessoas agiram irracionalmente em alguns momentos.

Não imaginam que isso um dia possa acontecer com eles. Passam a confiar em seus modelos e esquecem que continuamos humanos. 
Acham que se algo funcionou por 30 anos, podem ter certeza de que o modelo é seguro.

Assim como os lemmings trocam de local em busca de água e comida enquanto crescem e se multiplicam, a cada crise investidores buscam novos locais. E, para isso, é necessário atravessar rios. Em pânico, e em grandes grupos, os investidores fogem para a liquidez. E depois de 150 anos fazendo isso, eventualmente chegam a um abismo e se jogam em um mar de liquidez e morrem afogados.

Essa metáfora sempre me assustou. Inclusive em 2002 – e ao final foi só um alarme falso –, pois do outro lado estava um gramado verdinho com a China crescendo e levando junto os produtores de commodities, como o Brasil.

Estamos sentindo certo nervosismo entre a comunidade de investidores. Podemos passar novamente por um período de pânico em que muitos vão buscar a liquidez. Eu vou ficar quietinho no meu pasto seco e evitar entrar de cabeça no mar.

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Um abraço,

Pedro Cerize

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