Gritty Investor #42 - Política x Bolsa

Pedro Cerize Publicado em 16/03/2018
10 min
Implicações e impactos

Gritty Investor

Oi.

Recentemente, a China anunciou que mudou a restrição constitucional que limitava a reeleição do líder supremo daquele país a dois mandatos (10 anos). Na prática, abriu espaço para a permanência do atual líder (Xi Jinping) por tempo indeterminado. Muitos analistas leram essa notícia com um ceticismo típico da mentalidade ocidental, que teme a ascensão ao poder de ditadores vitalícios.

Como a verdade do que aconteceu nos bastidores só será conhecida, eventualmente, em um futuro distante, resta apenas especular sobre o verdadeiro motivo que levou a China a mudar sua constituição sem uma crise institucional aparente.

Um pouco de história

Mao Tsé-Tung emergiu como líder supremo depois da longa revolução comunista que aconteceu na China. Isso aconteceu em 1949, quando o derrotado Chiang Kai-shek se isolou em Taiwan.

Mao, por sua vez, em 1954, reformou a constituição transformando sua presidência em vitalícia. De líder carismático e unânime, viu seu governo degringolar quando os ideais de igualdade promovidos no “Grande Salto à Frente” não deram resultado. Ideias econômicas mais moderadas foram enterradas pela “Revolução Cultural”, e o país mergulhou no isolacionismo econômico.

Milhões morreram de fome, mas o mito do pai da revolução nunca morreu e sua imagem ainda permanece na Praça Tiananmen e nas notas de Yuan. Com sua morte em 1976, sem sucessão definida, foram necessários cinco anos para que Deng Xiaoping se consolidasse definitivamente no poder e, então, iniciasse as reformas econômicas e abertura comercial que semearam as bases do crescimento da economia chinesa na virada do século.

Foi dele também a ideia de reformar a constituição, limitando os mandatos dos lideres a 2 termos. Negociou a retomada de Hong Kong para controle chinês, em 1992, o que se concretizou em 1997. Em 1993, transferiu o poder a Jiang Zemin, que permaneceu como líder supremo até 2003.

Nessa fase a China entrou definitivamente na economia global com crescimento de dois dígitos ano após ano. Hu Jintao assumiu em 2003 e manteve a política de pesados investimentos em infraestrutura, e o milagre chinês atingiu seu apogeu com a realização da Olimpíada de Pequim, em 2008.

Desde então, os exageros da política de crescimento de PIB a qualquer custo, que provocaram excesso de investimento em diversos setores e de riscos sistêmicos consideráveis por causa da alavancagem do sistema financeiro, são apontados como o motivo de uma grande crise financeira potencial. Em 2013, Xi Jinping assumiu com desafios enormes: 1) reequilibrar a economia para um crescimento menor (de 10% para 7%), 2) mudar o motor de crescimento de infraestrutura para consumo local, 3) retomar o controle financeiro de províncias que sistematicamente burlavam as ordens de Pequim; e 4) controlar o caos ambiental provocado pelo crescimento desordenado de indústrias poluidoras.

Aparentemente, com sua competência e sua habilidade política, todos esses desafios têm sido conduzidos com relativo sucesso. Com isso, cresceu o poder de Xi Jinping e, logo após a renovação de seu segundo mandato, foi feito o anúncio de que ele poderia continuar sendo “reeleito” indefinidamente para o cargo.

Nesses quase 70 anos de história, vimos mais uma vez o pêndulo oscilar de uma escolha de líder vitalício para mandato limitado e novamente para mandato vitalício. Mas o que motivou o Partido Comunista - na sua missão de permanecer para sempre no comando da China - a mudar novamente de posição? Quais as lições que tiramos para analisar os ciclos de poder em democracias mais desenvolvidas, mais especificamente os EUA?

Uma explicação plausível para essa volta às origens está no fato de que, mesmo em uma sociedade não democrática, o grupo que está no poder precisa sacrificar interesses de longo prazo em favor de políticas que tragam ganhos na disputa de poder no curto prazo (no caso chinês, a cada 5 anos).

Na ânsia de bater as metas dos planos quinquenais, tanto Jiang Zemin quanto Hu Jintao podem ter colocado o longo prazo do partido em risco: entenda estabilidade econômica como premissa de estabilidade política. Se mandatos definidos colocam em risco a estabilidade de longo prazo, não seria melhor colocar alguém que não precisa apresentar resultados a cada 5 anos? E se, ao mesmo tempo, Xi Jinping, tenha surgido aos olhos da maioria como a figura capaz de desempenhar esse papel de líder vitalício, não seria essa a hora de voltar ao modelo tradicional?

Implicações da política nos ciclos das Bolsas

A primeira preocupação de um presidente recém-eleito ao tomar posse, é: o que fazer para ser reeleito. Essa é uma regra universal. O objetivo de um político é permanecer no poder, com seu grupo político. Em princípio isso não é um problema, pois ele sabe que se fizer as coisas certas suas chances de reeleição aumentam.

Mas o problema surge quando existe uma defasagem temporal entre os benefícios sentidos pelo eleitor por uma medida e seus custos reais para o país. Dilma reduziu o valor da tarifa de energia, congelou os preços da gasolina, aumentou os gastos públicos, turbinou crédito de qualidade negativa usando bancos públicos, desonerou setores da economia e pressionou o BC a derrubar as taxas de juro.

Incialmente, isso deu a ela o fôlego necessário para ganhar, por margem estreita, as eleições. Mas a conta veio rápido demais e as consequências econômicas dessas medidas foram tão severas que romperam a frágil sustentação política de seu governo.

Trump está fazendo coisas com característica semelhante. Reduzir taxação e criar medidas protecionistas ajudam a acelerar ainda mais uma economia que já está praticamente a pleno emprego (como o Brasil de 2012), num momento em que a inflação já mostra alguns sinais de crescimento. Isso (mais uma vitória militar) pode dar a ele o empurrão que falta para se tornar um candidato forte à reeleição, algo impensável para muitos que achavam que ele não terminaria o mandato.

O ponto central dessa linha de raciocínio é que a China pode ter desistido dos benefícios da reciclagem de poder para evitar que políticos arrisquem o longo prazo em favor de ganhos políticos de curto prazo.

E se os EUA estiverem nos últimos estágios de alta dessa onda que começou em 2009? Poderia isso colocar em risco nossa tese da Quinta Onda no Brasil? Leia minha opinião sobre o tema na próxima edição de A Carta, na próxima terça-feira.

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Pedro

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