Gritty Investor #32 - Causalidade e correlação

Pedro Cerize Publicado em 15/12/2017
5 min
O que define a arte de investir?

Gritty Investor

Oi.    

Janet Yellen, em seu último anúncio como presidente do FED, nos deixou a seguinte mensagem:

"Let me emphasize that correlation is not causation.”  (Gostaria de enfatizar que correlação não é causalidade.)

Essa frase tem que ser lida e lembrada por todos, principalmente aqueles trabalhando com ciências não exatas como economia e comportamento dos mercados. A teoria científica oferece mecanismos para evitar essa confusão, mas mesmo na medicina esse tipo de erro tem sido comum. Pior é que, às vezes, quem desafia enfrentar esses dogmas é combatido ferozmente pelo status quo.

Em 1950, Ancels Keys, um fisiologista, notou que existia uma correlação entre maior incidência de mortes por acidente cardíaco entre os americanos mais bem alimentados. Analisando o sangue dessa população, ele percebeu que o nível médio de colesterol era mais elevado. Com isso, ele foi o pioneiro na ideia de que uma dieta com pouca gordura preveniria ataques cardíacos. Seguiram-se mais de duas décadas de debate até que o governo americano soltou um guia alimentar preconizando a redução no consumo de gordura.

O que aconteceu em seguida foi uma explosão da obesidade e nenhum efeito prático sobre as doenças cardíacas. Só recentemente está ficando claro para a maioria da comunidade médica que não existe causalidade entre colesterol e doenças no coração. Mas até hoje não conseguimos nos livrar do conceito de que uma comida saudável tem pouca gordura. Eu, pessoalmente, acredito no contrário. O açúcar é o grande vilão, e o ser humano deveria basear grande parte de sua dieta na ingestão de gorduras. Mas ainda vai demorar muitos anos até que essa minha crença seja o padrão, obviamente, se eu não estiver enganado.

Como então explicar que o colesterol não causa infarto se as pessoas que morriam de ataque do coração tinham colesterol mais alto? Vamos imaginar o resultado da seguinte pesquisa:

  • Ataques de tubarão acontecem com mais frequência em populações que consomem mais protetor solar.

Para ter mais certeza, vamos analisar as pessoas que foram vítimas de ataques de tubarão.

  • Das pessoas que foram atacadas por tubarão, 95% tinham usado protetor solar nos 3 dias que antecederam o ataque, contra 25% da população em geral.

Com essas duas informações, podemos defender a hipótese de que para reduzir os ataques de tubarão deveríamos reduzir o uso de protetor solar.

Fica claro que tal medida não faz o menor sentido. Mas, aparentemente, foi exatamente isso que aconteceu com a hipótese do colesterol. Colesterol mais alto pode prever maior risco cardíaco (hipótese já contestada), mas não é ele que causa o infarto. Usar protetor solar pode prever maior risco de ataques de tubarão, entretanto, não é ele que causa o ataque.

São os hábitos que causam o aumento do colesterol que elevam o risco de doença cardíaca. Foram os hábitos de quem usa protetor solar que aumentaram o risco de eles serem atacados. Quem usa protetor vai à praia e entra no mar.

Mas por que estou falando isso tudo? Porque a maioria das pessoas quer antecipar retornos de bolsa tentando antecipar outras variáveis correlacionadas, mas não causadoras de retornos. Dentre elas, gostaria de destacar:      

  • crescimento de PIB;
  • nível de inflação;
  • taxa de juros.      

Além disso, temos uma tendência a encontrar padrões onde apenas existe o caos. Com isso, muitos investidores se tornam místicos. Conceitos do tipo "rally de final de ano" (dezembro a bolsa sobe) acabam virando um consenso e, quando eles não ocorrem, é porque algo extraordinário aconteceu. Na verdade, não existe calendário que antecipe períodos de alta ou de baixa.

A longuíssimo prazo, uma empresa gera de valor ao acionista o valor que ela gerou no negócio. Não tem como fechar a conta de outra forma.

Porém, no horizonte que nos interessa, sempre vamos falar de um equilíbrio entre realidade e expectativa. Uma ação gera de retorno o dividendo mais a expectativa de retornos futuros. Nem sempre a expectativa é a causa do retorno futuro. Não dá para avaliar quem acertou ou errou somente a partir da ótica do que aconteceu no mundo real, mas sim de como as expectativas se moveram. Por isso, investimento não é uma ciência. Encontrar o equilíbrio entre antecipar os resultados das empresas e como isso vai impactar as expectativas é o que define a “arte” de investir. Mesmo os grandes artistas estudaram por anos as técnicas de sua profissão e é isso que devemos fazer no dia a dia: prática e estudo.

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