Gritty Investor #30 - Vai de econômica ou de executiva?

Pedro Cerize Publicado em 01/12/2017
5 min
Inclinados a escolher o prazer imediato

Gritty Investor

Oi.

Comecei tarde a viajar de avião. Só depois da faculdade, já pelo meu primeiro emprego, fiz meu primeiro voo de São Paulo ao Rio de Janeiro. Minha primeira viagem internacional foi em 1997, para Nova York, já com 28 anos de idade. Vi pela primeira vez, de passagem, uma classe executiva. Como alguém podia gastar 3.000 dólares só para dormir um pouco melhor por duas noites? Foi nessa época que cravei uma daquelas besteiras que jovens falam: “Nunca vou pagar por uma classe executiva”. 

Quase 10 anos depois, ainda convicto de minha resolução, estava na sala de embarque quando eu e outros passageiros fomos chamados ao balcão. O voo estava com overbooking. Os funcionários da companhia aérea iriam tentar convencer (com dinheiro) outros passageiros a adiarem a viagem e, por isso, deveríamos esperar para ter nossos assentos confirmados.

Nesse momento, noto que ao meu lado estava uma atriz global muito famosa, inconformada com a não confirmação do embarque. Ela afirmava que precisava muito embarcar para o Brasil, pois tinha compromissos inadiáveis. A atendente explicou para ela que, por estar na classe executiva, o pior que poderia acontecer seria embarcar na classe econômica e que ela não corria o risco de não pegar aquele voo. Eu, por outro lado, que estava na econômica e tinha que torcer para sobrar uma vaguinha.

Ao ouvir que “corria o risco” de ter que voar de econômica, a atriz começou a chorar copiosamente. Era um choro triste mesmo, de dar pena. Brinquei com a atendente em voz alta que ela não deveria se deixar levar pelas lágrimas, afinal de contas, a moça era uma artista muito famosa no Brasil. A atendente soltou um sorrisinho de canto de boca e a chorona sorriu em meio às lágrimas, lisonjeada pelo reconhecimento e pelo fato de alguém ter esclarecido quem era ela para a atendente americana.

Quando finalmente começaram a chamar os nomes da lista de espera, foi com grande alegria que nossa personagem foi chamada para tomar seu lugar na cabine executiva. Um a um, todos entraram no voo, até que finalmente fui chamado por último. A atendente me explicou que toda classe econômica estava tomada e me perguntou se eu não me incomodaria de viajar na primeira classe. Fiquei feliz. Mas o melhor ainda estava por vir.

Ao me encaminhar para a primeira classe, cruzei com a nossa sorridente atriz que se mostrou feliz pelo fato de ter conseguido uma vaga na executiva. Porém, foi só informá-la de que minha passagem não era na executiva, e sim na primeira classe, que aquele sorrisinho sumiu. Como num flash pude ler os pensamentos dela: “Como eles fizeram isso? Me deixaram fora da primeira classe e deram minha passagem para ele?!”

Não adianta; algumas pessoas nunca ficam felizes.

Esse episódio teve seu lado engraçado, obviamente. Foi como uma droga. Uma vez que você experimenta você quer usar novamente. Eu precisava encontrar um racional para decidir quando e se deveria viajar de econômica ou de executiva.  Um amigo meu, W.T., me deu uma dica valiosa de como viajar de econômica sem sofrer tanto com o dilema. Ele sacava a diferença da passagem, aproximadamente 3 mil dólares, em dinheiro e colocava no bolso da calça. Durante o voo, naqueles momentos onde as costas doem e os pés ficam dormentes ele tira os dólares do bolso e conta o dinheiro. Era o suficiente para ele saber que estava fazendo a coisa certa.
 

Viver é escolher
 

Somos bons em comparar coisas. Mas não somos feitos para comparar coisas no tempo. Quando confrontados com o dilema prazer agora com sacrifício no futuro, ou sacrifício agora com prazer no futuro, somos irracionalmente inclinados a escolher o prazer imediato.

Voltando ao exemplo da classe executiva: entre o prazer de passar duas noites mais confortáveis em um voo e o sacrifício de pagar 3 mil dólares a mais, muitos escolhem o prazer imediato. Mas se pedirmos para essas pessoas escolherem entre a classe executiva ou um Iphone do último modelo, mais um terno – ou vestido de marca – e um jantar a dois em um restaurante famoso em Nova York, provavelmente a maioria vai preferir a segunda opção.  Estamos comparando prazer com prazer em um horizonte de tempo igual.

Então quando for fazer suas escolhas entre consumo e poupança, tente colocar em perspectiva os sacrifícios envolvidos para consumir o que você quer. Isso naturalmente o levará a consumir somente o necessário e, em algum momento, não se tornar uma pessoa desnecessariamente econômica, simplesmente pelo hábito.  Você prefere comprar um carro pagando em cinco anos ou poupar durante dois anos e comprar à vista?  Sempre que tempo estiver envolvido, desconfie da sua decisão.

Esse é o dilema em que nos encontramos atualmente.  Tudo indica que estamos em um ciclo de alta e que investir em ações vai dar alegria nos próximos anos. Mas antes temos que passar pelo sacrifício de 2018. E não se deixe enganar. Vai ser difícil, mas no final vai dar tudo certo.

 

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