Gritty Investor #26 - Teorias e Certezas

Pedro Cerize Publicado em 03/11/2017
5 min
​​​​​​​De qualquer forma, a dúvida não deve levar à paralisia

Gritty Investor

Oi.

Há uma frase sobre os mercados que eu procuro nunca esquecer. O mercado está dividido entre aqueles que não sabem e aqueles que não sabem que não sabem. Este último grupo de pessoas é aquele que encontramos todos os dias fazendo previsões sobre o futuro. Pior, eles acham explicações para o que aconteceu em um passado que nem de perto se aproxima da verdadeira história dos fatos. Eles não sabem o passado e estão convictos sobre o futuro.

Como gestor de fundos e articulista na Inversa, você pode estar pensando que eu sei o que vai acontecer, ou que, pelo menos, tenho uma boa ideia do futuro. Quando escrevi sobre a 5º onda de alta, muita gente questionou minhas previsões. No texto, tento deixar claro que, historicamente, o mercado passa por ciclos de valorizações e de quedas e que, aparentemente, em 2016 entramos num ciclo de alta. Essa é a hipótese que eu uso para me posicionar atualmente. Mas essa é apenas uma hipótese.

Tenho hipóteses sobre a China, os efeitos do Brexit no Euro, sobre o ciclo da bolsa americana, sobre o Bitcoin, sobre o pêndulo político no Brasil e no mundo, sobre como treinar para provas de longa distância, sobre como criar os filhos e sobre mais um monte de coisas sobre as quais eu possa estar errado.

Hipóteses não são certezas. A vantagem de decidir sabendo que você não sabe é que, se a realidade se provar diferente, você nega a hipótese inicial e elabora uma nova hipóstase. A desvantagem de não ter certezas é ficar paralisado pela dúvida, ser assombrado pelo medo de errar.

As pessoas mais convictas agem com mais agressividade. Tendem a ser mais inspiradoras, pois não demonstram dúvidas. Quem não tem dúvidas é muito mais convincente. É justamente dessa característica que nasce o perigo. Não saber que não sabe pode dar certo por um tempo, mas fatalmente vai cobrar um preço no futuro, no dia em que uma hipótese se provar errada. Muitas dessas pessoas não conseguem mais se recuperar desses choques de realidade, financeiramente e psicologicamente. Ficam presas aos erros do passado, tentando se justificar em vez de partir para novas empreitadas.

Eu acredito que estamos num ciclo de alta. Em ciclos de alta ocorrem correções agudas de preço. Classifico como aguda uma queda de pelo menos 20%. A única coisa que não pode acontecer é o mercado fazer um novo preço mínimo (37.000 pontos no Ibovespa ou USD 9.000 em dólar). Nesse caso, a hipótese de um novo ciclo é negada. Acho esse evento improvável, mas não impossível, afinal, erros acontecem. Posso falar horas sobre meus erros... melhor, posso falar dias sobre eles.

No momento, alguns sinais me deixam um pouco desconfortável com os mercados, criando um cenário complexo. Trata-se de uma combinação de: 1) incerteza política com bases fiscais e econômicas ainda frágeis no Brasil; 2) um mercado global exuberante que combina uma volatilidade baixíssima e perigosa com um crescimento econômico sincronizado e tênue, e com uma altíssima alavancagem de bancos centrais, países, consumidores e empresas.

Se por um lado todo gestor é pressionado a não ficar de fora porque o “vento está a favor”, por outro cada vez menos gestores têm o poder de decidir sobre alocação. A tendência a investimentos passivos concentrou cerca de 60% dos fundos em estratégias indexadas nas quais o gestor simplesmente copia um índice para montar a carteira ou um ETF. Na última década, a rentabilidade dessas estratégias superou amplamente as dos gestores ativos. Talvez o relógio do mercado para precificar o futuro esteja desajustado. Mas são hipóteses, sempre hipóteses.

Por que “pensar” foi sinônimo de prejuízo para os gestores nos últimos anos? Talvez o excesso de liquidez dos bancos centrais no mundo e a consequente interferência “sem critérios” no mercado financeiro tenham contribuído para esse fenômeno. Essa é mais uma hipótese. Pouca volatilidade não significa pouco risco.

Eu falei um monte de coisas aqui só para dizer que meu “instinto” aponta que você deve tomar mais cuidado com sua alocação neste momento – mais do que no começo do ano. Pode ser que instinto seja uma palavra pouco científica para expressar conhecimento subconsciente latente. Talvez sejam os sinais do tipo “já vi isso antes” falando com o meu inconsciente. Talvez eu esteja vendo fantasmas.

De qualquer forma, a dúvida não deve levar à paralisia. Só leve em consideração que podemos estar próximos de uma correção mais forte na hora de tomar uma decisão. Não se apresse em fazer coisas demais. Mas pode ser que o mercado esteja otimista e isso, por si só, já serve de motivo para mais pessimismo. Olhe com desconfiança para as previsões dos “novos gênios” desse movimento de alta. Procure saber o que os mais experientes e os mais conservadores estão pensando. Espero não ter confundido mais do que esclarecido.

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