Gritty Investor #24 - Aproveite o vento nas costas

Pedro Cerize Publicado em 20/10/2017
6 min
Está todo mundo ajudando

Gritty Investor

Oi.

Acabei de voltar do Havaí, onde participei do Campeonato Mundial de Ironman (nadar, pedalar e correr). Uma vez por ano, os 2.400 melhores atletas do mundo, de todas as idades, se reúnem num lugar remoto no meio do Pacifico para disputar uma prova duríssima. Nesse grupo de pessoas altamente dedicadas e competitivas, só uma coisa interessa nessa época: triátlon. Nada mais tem relevância. Toda a energia e atenção estão voltadas para o que acontece na ilha. Essa postura me lembra muito a do mercado financeiro na maior parte do tempo. Um grupo de pessoas inteligentes e dedicadas, se muda pra uma ilha e vive nela quase que isolado do resto do mundo. Nada mais tem relevância; apenas ganhar dinheiro.

Esse isolamento cria uma certa cegueira em relação ao que está de fato acontecendo no mundo. Então é preciso se afastar um pouco para ver o quadro mais claro, mesmo que menos detalhado, do que se passa nessas ilhas. Esse afastamento é um exercício delicado. Ele não pode ser longo a ponto de se tornar desinformação, nem curto a ponto de não liberar a mente do dia a dia. Minhas conclusões dessa observação foram as seguintes:

Os mercados globais estão ajudando os preços no Brasil. As manchetes recentes de novas máximas históricas no Ibovespa criam a sensação de que estamos passando por uma fase nova, uma antecipação de melhoras estruturais no país, um Bull Market Tupiniquim. Isso não é totalmente verdade, nem totalmente mentira. Todos os mercados de ações estão fazendo máximas históricas. Praticamente tudo subiu de preço em 2017. As volatilidades estão nas mínimas e historicamente só se comportam dessa forma em menos de 1% do tempo. Não dá para explicar o Brasil olhando somente para o Brasil.
A prova de Ironman no Havaí é dura porque, além do calor, venta muito na ilha. Em alguns trechos no pedal, o vento a favor faz com que os ciclistas alcancem velocidades acima de 50 km/h. Os preços das ações estão andando com vento nas costas. Não dá para esperar manter esse ritmo o tempo todo. Mas, assim como nenhum atleta fica pensando no que fazer quando o vento virar, cabe ao investidor aproveitar esse vento a favor pra ganhar dinheiro. Não adianta pensar muito no que fazer agora para se preparar para quando o vento virar. Continue pedalando. Quando o vento mudar, continue pedalando. Vento, assim como os mercados globais, é uma coisa que você não pode controlar. Se não dá para controlar, não perca muito tempo pensando no assunto. Apenas ajuste suas expectativas. Saiba que uma hora o vento vai estar contra e você vai continuar a fazer a única coisa possível: continuar pedalando. Pedalar, nesse caso, é construir uma carteira de ações e de renda fixa com critério definidoMantenha a disciplina e o resultado será positivo.

A conclusão simples dessa observação é que, se estamos tendo um bônus em função do que está acontecendo no mundo, devemos nos preparar para o ônus de um ajuste global de preços. Ao contrário do Brasil, cujo ciclo de valorização apenas começou, nos mercados globais estamos vivendo a fase final de um longo ciclo de alta que começou em 2009. Eventualmente, haverá um descolamento de preços favorável ao Brasil. Mas não esperem que isso aconteça num primeiro momento.

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Outra observação foi de que nada de novo aconteceu nesses últimos dois meses. Desde a negação pelo Congresso do primeiro pedido de abertura de investigação do MPF contra Temer, quase nada mudou no quadro político. Você pode estar até irritado com o que está acontecendo entre STF e o Congresso, mas, a meu ver, apenas acordos estão sendo cumpridos e nenhum fato novo surgiu que forçasse a renegociação desses pactos de governabilidade. A única notícia relevante que eu vi no Brasil foi o anúncio da Amazon de entrar de verdade no varejo brasileiro. Se a maior varejista global acredita no país, talvez tenhamos um futuro. É óbvio que muitos vão perder com isso. Mas o país como um todo vai ganhar, especialmente os consumidores.

Outra notícia relevante foi o anúncio da intenção americana de renegociar, ou simplesmente sair, do acordo nuclear assinado por Obama com o Irã. Conforme antecipado aqui, o Irã é o grande inimigo e é lá que a próxima guerra americana vai ser travada. Quando as cortinas de fumaça se vão (Coreia do Norte), a verdadeira intenção se revela. Essa é uma carta política de Trump que vai ser utilizada na hora certa (reeleição).

Não me canso de traçar paralelos entre esporte e investimento. Em toda prova de Ironman, a preparação começa, para mim, 100 dias antes da prova. Neste ano, a 103 dias da prova uma queda de bicicleta e meia dúzia de ossos quebrados adiaram o início dos meus treinos. Somente em meados de agosto pude voltar integralmente à rotina. Enquanto isso, fiquei pedalando indoor, nadando com um braço só e subindo escadas em vez de correr. Eu sabia que era possível fazer uma prova razoável se conseguisse concentrar um esforço maior na fase final de treinos. As coisas pareciam estar caminhando bem quando, 45 dias antes da prova, uma infecção renal me levou para o hospital por 10 dias. Foram 76 doses de antibiótico na veia e 13 dias sem treino.

Quando voltei, parecia que tudo estava perdido. Eu estava fora de forma. Mas, sem pensar muito, continuei treinando, agora com o único objetivo de largar e concluir a prova. Sem nada a perder, consegui concluir o que era o teste final para uma prova dessa magnitude: pedalei 242 km no domingo e corri 32 km na segunda. Estava cansado, mas aliviado. Seria possível terminar Kona. A partir dali, os treinos iriam diminuir. Faltando duas semanas, a "sorte" ataca novamente. Uma recaída na infecção renal me levou para mais três dias no hospital. Mais antibióticos injetáveis e outros 28 dias de tratamento via oral. Saí do hospital na segunda já pensando nas malas para o embarque na quarta à noite. Minha médica obviamente disse que eu não poderia fazer a prova. Depois de tudo, eu sabia que eu iria ao menos largar e tentar. Larguei e terminei a prova em 10h28 minutos. Foram 55 minutos a mais que em 2016. Eu não estou triste, mas não consigo deixar de pensar em como teria sido a prova se a preparação tivesse sido boa.

Algumas vezes a gente ganha, outras a gente perde. Ano que vem tem mais. Nos investimentos, nem tudo sai como o planejado. Mas para aqueles que insistem em continuar, no ano que vem tem mais.

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