Gritty Investor #87: Depois não diga que eu não avisei

Thainá Psevucki Publicado em 26/02/2021
9 min
Como devemos lidar com as narrativas do mercado? Pedro Cerize responde essa e outras perguntas na newsletter de hoje.

Oi, eu sou a Thainá, da equipe do Pedro Cerize!

Você já deve saber que recentemente o Pedro lançou o projeto 1+100: A New Road to a Billion. 

O que provavelmente você não sabe é que, na Gritty Investor de hoje, você vai poder experimentar um pouco do que os participantes do projeto estão recebendo diariamente do Pedro.

E você vai ver como ele traz lições valiosas para o mundo pós-pandemia.

São quatro respostas do Pedro, que você pode conferir em áudio aqui por este link.

>>> Entre aqui para ouvir o Pedro <<<

Ou, se preferir, pode conferir a transcrição das respostas abaixo.


Pergunta 1

Como devemos lidar com as narrativas do mercado? Até pouco tempo atrás, a dívida dos EUA era um problema e agora quanto mais estímulo, melhor. No Brasil, as reformas eram imprescindíveis, agora, qualquer coisa que passar está bom...

Resposta: Essa pergunta é muito interessante e gosto de falar disso. Já falei sobre isso na série A Carta e no 1+100. 

Toda vez que você estiver lendo qualquer notícia e se informando sobre o mercado, saiba separar duas coisas: notícia e opinião. 

Quando você ouvir que um estímulo americano é bom para a economia, isso é uma opinião. Na verdade, a notícia é: foi aprovado um pacote de 2 trilhões de dólares. O que vem depois disso é opinião. 

Para você escapar da narrativa, você tem que olhar o número em si. O déficit americano já era muito grande e acabou de aumentar em 2 trilhões de dólares. Obviamente, sempre existe alguma narrativa que justifica qualquer medida como essa.

Ao longo do tempo, você vai construindo uma opinião sobre isso, que é a sua, não a que você copiou dos outros. Quando você monta a sua opinião com base nas informações que você acumulou ao longo do tempo, a narrativa não muda tão facilmente.

Eu não estou dizendo para você não mudar de opinião, porque isso é mortal para quem investe, mas você tem que mudar de opinião quando os fatos mudarem, quando as notícias mudarem. Você não tem que mudar de opinião quando os outros mudarem de opinião. Se fizer isso, você está fadado a seguir a massa. Provavelmente, você vai perder os grandes movimentos, chegar atraso e sair na hora errada em qualquer investimento. 


Pergunta 2

É possível bater o mercado sozinho? Ou tenho que delegar meu patrimônio a um gestor? Minha intenção é formar patrimônio, não tenho a ambição de multiplicar o capital por muitas e muitas vezes, mas ter um rendimento acima da inflação com ganho real.

Resposta: Eu tentei bater o mercado a minha vida inteira, foi assim que fiz a minha carreira. Então eu acredito que é possível bater o mercado. 

Se é possível um amador bater o mercado? Acho que sim, se ele fizer algumas coisas básicas. Posso citar os 3 pontos principais.

Primeiro: entenda o que você está fazendo. Aloque seu dinheiro naquilo que você tem o mínimo de entendimento. Se você não tiver muito entendimento, evite concentração, opte por diversificação.

Segundo ponto: tenha custos baixos. 2% ao ano, ao longo dos anos, é um custo muito alto. Esse custo de 2% deixa você com uma chance baixa de bater a média do mercado, porque, para bater a média do mercado, você tem que dar o retorno do mercado mais 2% ao ano e isso já não é uma coisa muito fácil.

O terceiro ponto é: tenha um plano, siga esse plano e se movimente na hora certa. Se movimentar na hora certa vai muito na direção contrária do que eu tenho visto as pessoas físicas se movimentarem ao longo dos anos. 

Elas aumentam a posição em Bolsa depois de longos períodos de alta e reduzem as posições em Bolsa depois de longos períodos de baixa. Com isso, elas têm um retorno que fica abaixo do mercado.

Alguns podem dizer que antigamente o juro era alto e que ele caiu. A taxa de juros é somente mais um outro preço. Ao longo do tempo, o juro sobe e o juro cai. É muito provável que você encontre ações baratas quando a taxa de juros estiver alta, então dizer que não vai vender Bolsa porque os juros estão baixos não é uma boa justificativa. Talvez você só consiga [comprar] a Bolsa cara quando os juros estiverem baixos e só consiga [comprar] a Bolsa barata quando os juros estiverem altos.

Se você não tem certeza se a Bolsa vai subir ou cair, não tente adivinhar a movimentação da Bolsa em juros. Na dúvida, tenha uma alocação que se beneficie da apreciação média do mercado. Afinal de contas, quando não se tem convicção, o melhor a se fazer é ficar na média. 

Evite os grandes erros, que são de duas naturezas: o primeiro é aumentar muito o risco em ativos de renda variável depois que a Bolsa subiu e zerar esses ativos depois que a renda variável caiu. Esse é o risco mais mortal. 

O outro grande erro é escolher algumas empresas ou algum título de crédito concentrado em algumas empresas, e ter uma perda permanente quando elas falharem, ao invés de escolher uma carteira diversificada. Isso só acontece se você não tiver conhecimento do negócio que você está investindo.

Resumindo: tenha um custo baixo, conheça os mercados que você está investindo e evite os grandes erros. Essa é a receita para você poder bater a maioria do mercado e com certeza você vai bater a maioria dos gestores que estão cobrando 2% de taxa de administração e 20% de taxa de performance.

 

Pergunta 3

Sobre imóveis, você comentou que seria interessante a compra para aqueles que ainda não tem um imóvel próprio. E, para quem já possui, não seria interessante comprar agora. Moro em um imóvel próprio e possuo outros no meu portfólio (tanto residencial quanto comercial). Seria melhor vender os imóveis para realocar os recursos no mercado financeiro (considerando a baixa rentabilidade com locação e problemas de vacância)?

Resposta: Imagine que o imóvel próprio não é um investimento, ele é um pré-pagamento de despesas de aluguel. Você não gera rendimentos com um imóvel próprio, você simplesmente já pagou adiantado todo o aluguel que você pagaria para o dono do imóvel, que, nesse caso, por um acaso, é você!

Qual a vantagem de um imóvel próprio? Se você recebe aluguel, e faz tudo dentro da lei, você tem que pagar Imposto de Renda, então automaticamente o seu retorno sobre um imóvel com rendimento é 27% mais baixo que o imóvel próprio, que é onde você paga um aluguel, mas paga para você e por isso está isento.

O segundo ponto é que a taxa de vacância do aluguel próprio é zero. O aluguel de onde você mora está sempre locado porque você está sempre morando em algum lugar, então, ao longo do tempo, você tem 100% de locação com 0% de imposto, o que faz com que o retorno do investimento num imóvel próprio seja, historicamente, algo em torno de 50% acima de um imóvel comprado para renda.

Então, eu acho muito óbvio ter um imóvel próprio, principalmente num ambiente de queda consistente de taxas de juros, e eu não acho óbvio ter investimento numa carteira de imóveis para receber aluguel, por isso eu sempre faço essa diferenciação.


Pergunta 4

A hipótese de um megaciclo de commodities ainda é apenas uma hipótese. Quais as condições que precisam existir para que esse ciclo seja uma realidade?

Resposta: Cada commodity tem as condições específicas do seu mercado, mas se você está falando de um megaciclo geral de commodities, existem duas condições para isso acontecer.

Primeira: o ciclo de commodities deve estar, de certa forma, sincronizado com um ciclo de crescimento global. Mesmo no ano passado, com a economia sofrendo uma desaceleração, principalmente no primeiro semestre, com uma retomada no segundo, o PIB global não caiu muito, aliás, está muito próximo da máxima histórica, e é de se esperar que os efeitos fiscais e monetários do ano passado continuem tendo efeito esse ano. 

Assim, 2021 será um ano de crescimento econômico global. Então vamos sentir a demanda crescente por produtos e serviços, nesse caso, das commodities, principalmente nos mercados asiáticos e na China.

A segunda, que é muito importante, é a questão da liquidez: nunca acontece um ciclo de alta generalizada de commodities em períodos de restrição monetária, ou seja, aperto generalizado de liquidez dos bancos centrais globais, ou em períodos de liquidez forçada, criadas por crises no mercado financeiro que restrinjam a liquidez.

Provavelmente, 2021 deve ser um ano de expansão monetária, expansão de crédito e expansão fiscal. Lembro a você que em 2020 foram distribuídos 22 trilhões de dólares em estímulos. São números totalmente fora das proporções históricas, não se ouviu falar em tais números nem mesmo em tempos de guerra. 

Estamos falando em 30% do PIB global em estímulos fiscais, que são mais poderosos, e em estímulos monetários, já que a política de juro zero não é mais suficiente. Estamos tendo “quantitative easing”, onde os bancos centrais monetizam os ativos financeiros existentes, comprando esses ativos e emitindo moeda.

Neste ano, já está encomendado, só nos Estados Unidos, mais 3 trilhões de incentivos em novos programas de ajuda. E todo esse processo continua no Brasil e em outros países. O expansionismo fiscal continua a todo vapor, então estamos numa condição realmente perfeita, com o aumento da demanda e liquidez abundante nos mercados.

Isso é o que está refletido nessa alta aguda de preços e que pode se prolongar por muitos anos, até que os efeitos fiscais sejam diluídos ao longo do tempo, e, eventualmente, os bancos centrais mudem a postura expansionista para a neutra e, em um outro momento, para contracionista, com a elevação de taxa de juros e redução de liquidez, mas acho que ainda estamos longe desse momento acontecer. 

Um abraço,

Pedro Cerize

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