Inversa na Copa #5 - Quem é você na fila do Big Mac?

Pedro Carvalho Publicado em 01/07/2018
7 min
Brasil x México ou Comunismo x Capitalismo

Nota do Editor: Está chegando a hora! Nesta segunda, o Brasil joga sua sorte na Copa contra o México. O Pedro Carvalho já está em Samara, palco do jogo, preparando novos relatos para você. Mas enquanto a partida da Seleção não chega, não deixe também de conferir a seleção de ações da Inversa para começar com pé direito este segundo semestre na Bolsa. Para usar a tática certa a fim de ganhar dinheiro no mercado. Um abraço, Frederico Rosas.

        

Caro leitor, cara leitora,

Assim como Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo, poucas marcas custam tanto a passar batido durante a Copa como a do McDonald’s. Presente em quase todo o mundo, a rede de fast food, que também é um dos símbolos mundiais do capitalismo, consegue marcar posição na ponta de lança do mercado até na Rússia, país marcado pelo forte passado comunista.

Mas como tudo na terra de Putin tem suas particularidades, em Moscou chama atenção uma cena a cerca de dez quadras da Praça Vermelha e que resume como poucas a dicotomia ideológica vivida por aqui: um curioso cartaz defendendo a retomada do comunismo – e patrocinada por uma joalheria – colada a uma das lojas do McDonald’s.

Essa história curiosa já conto logo abaixo. Antes, gostaria só de contar que nem sempre foi assim...

Quando o socialismo soviético veio abaixo, algumas paredes caíram com ele, enquanto outras foram construídas. Em 1989, um famoso muro era derrubado em Berlim. Um ano depois, um simpático sobrado era erguido em uma esquina chique de Moscou, na avenida Tverskaya, para abrigar o primeiro McDonald’s da Rússia – ainda um país comunista, porque o regime só mudaria oficialmente em 1991.

O dia da inauguração ficou marcado pelas enormes filas na porta da lanchonete. Figurões como o próprio Boris Yeltsin estavam presentes, uma fita vermelha foi cortada e os jornais noticiaram o desembarque da icônica marca americana no país.

Vizinho ao sobrado, em um paredão de três andares, um enorme M amarelo foi pendurado – e, sob ele, o nome da rede de fast-food estava escrito em alfabeto latino: “McDonald’s”, mesmo.

Hoje, visitar o local é uma experiência curiosa. Na entrada, um jovem russo ergue o celular para fazer uma selfie em frente ao histórico “Macdac” – é assim que a geração mais nova se refere à marca por aqui. Na porta, agora o nome é grafado em cirílico (para nós, parece que está escrito “MakDohandc”, ou algo assim). Lá dentro, salta aos olhos a modernidade da loja.

As miseráveis filas da inauguração deram lugar a uma série de totens touchscreen, colocados em frente aos caixas, onde os clientes fazem os pedidos de forma rápida e conveniente – para depois retirá-los no balcão.

Um Big Mac custa 9,75 reais (uso a conversão que paguei pouco antes da Copa, em uma casa de câmbio da Av. Paulista). Bem mais barato que no Brasil – o próprio índice Big Mac, que faz um comparativo entre os preços do sanduíche, coloca o nosso país entre os mais caros do mundo.

Outra coisa peculiar é aquilo que aconteceu no paredão vizinho. Agora, em vez de um M amarelo, existe um enorme grafite vermelho com a insígnia da Rússia comunista – uma estrela com o CCCP (o nosso URSS) e a palavra “vitória”.

Abaixo do desenho, em letras miúdas, o nome do patrocinador da iniciativa: uma joalheria privada russa, apoiadora do “programa nossa vitória”. Difícil de ligar os pontos, não? “É que os temas ‘vitória’ e ‘patriotismo’, na Rússia, estão associados ao regime soviético”, explica uma amiga local.

Isso faz mais sentido para quem leu o elucidativo “Perestroika”, livro escrito pelo próprio Gorbachev no calor da mudança do regime. Se no Ocidente capitalista o governante era visto como alguém “confiável e democrático”, para os russos ele jamais vendeu a ideia de que as coisas estavam mudando porque o comunismo deu errado – e talvez isso explique, em parte, o triunfo de suas propostas.

Na essência, o livro defende a ideia de que dar mais autonomia às empresas e às pessoas era “mais socialismo”, era voltar aos ideais primeiros de Lenin. A Rússia não estaria abrindo mão do socialismo, mas o aprofundando.


Animado com a possibilidade de festejar o hexa no dia 15 de julho? Imagine então o que você poderá comemorar depois de aproveitar a melhor época do ano para lucrar na Bolsa. Mas você precisa estar posicionado agora para aproveitar essa janela histórica. Acesse aqui a Seleção Inversa de ações.


Não era só uma esperteza retórica. O socialismo nunca foi exatamente mal visto pela população daqui. Nas primeiras décadas, ele promoveu uma revolução industrial apenas comparável à inglesa.

De modo que não é tão difícil entender aquela visão aparentemente contraditória: um grafite comunista em cima da loja do McDonald’s em pleno 2018.

Difícil mesmo é entender por que alguém comeria um Big Mac na avenida Tverskaya, onde ficam algumas das melhores cozinhas de Moscou. Pertinho da lanchonete, por sinal, está localizado o Pushkin, um dos mais premiados restaurantes da cidade, cujo nome homenageia o grande poeta romântico e onde um prato custa em média 130 reais. Esse, sim, vale a experiência.

E que venha o México!

Forte abraço e até breve,

Pedro

 

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