Bridge the Cash #20: A HISTÓRIA DO DOJI

Leonardo Pontes Publicado em 05/03/2021
6 min
Em um mundo no qual todas as empresas dependem de bancos, quem paga as benesses do governo é você. É ótimo fazer caridade com o dinheiro dos outros.

Dizem que a análise gráfica teve origem em Osaka, no Japão, com as velas (candlesticks). A lenda conta que Munehisa Homma operava o mercado futuro de arroz na Bolsa de Arroz Dojima, e que realizou mais de 100 trades vitoriosos.

Do lado de cá do Ocidente, menos habilidoso na previsão de preços de arroz, petróleo, dólar e afins, o governo segue enfrentando as consequências de tentar controlar movimentos de mercado.

Ainda na esteira da troca de comando da Petrobras, a notícia do momento é que o governo decidiu zerar PIS e Cofins sobre o óleo diesel e gás de cozinha.

Mas como a Lei de Responsabilidade Fiscal define que qualquer ampliação de benefício tributário deve ser compensada por aumento de receita, o governo federal editou uma Medida Provisória (MP) atacando o nosso malvado favorito: os bancos, que passarão a pagar mais impostos.

Em uma análise simplista, os bancos “compram e vendem” dinheiro; dinheiro é o produto comercializado por eles. Quando o governo encarece o custo pelo qual a mercadoria é adquirida ao aumentar impostos, os comerciantes logicamente sobem o preço pelo qual a revendem.

Em um mundo no qual todas as empresas dependem de bancos, quem paga as benesses ao final de tudo, como sempre, é você. Inclusive, até o próprio caminhoneiro, ao financiar a aquisição de um novo veículo para trabalhar.

É ótimo fazer caridade com o dinheiro dos outros.

Tudo isso porque o preço do petróleo foi de preços negativos em meados de abril para acima de US$50, enquanto o real segue desvalorizado contra o dólar. 

 

Como são formados os preços da gasolina e do diesel? | Economia | G1

 

 

Com essa alta, não adianta espernear: é impossível não sentir pressão nas margens sem repassar preços. Livre mercado, veja você, é justamente como arroz: não mete o dedo, senão azeda.

Aliás, alguém ainda fala do preço do arroz? Chama o Munehisa!

 

DE ONDE VEM

 

Só não digo que é uma zona porque as zonas são mais organizadas. 

Para começar, basta uma canetada para mudar a alíquota dos impostos. A de agora é apenas mais uma na amostra: em março de 2011, a então presidente Dilma, prevendo que o dólar iria continuar caindo e buscando uma forma de aumentar a arrecadação sem ninguém reclamar muito, aumentou a alíquota do IOF dos cartões de crédito para compras no exterior de 2,38% para 6,38%. Deu certo: com o dólar a R$1,57, todo mundo aceitou. Ela também aumentou os impostos sobre as cervejas.

Foi a última vez que o dólar ficou abaixo de R$1,60; em dezembro daquele ano, a moeda já atingia a cotação de R$1,84. 

Além disso, temos os impostos municipais, estaduais e federais. A depender do imposto, uns são calculados “por dentro” e outros “por fora”, e a base de cálculo pode ou não considerar todos os outros impostos que venham antes na cadeia.

Aliás, estes impostos são mais interdependentes do que qualquer gringo possa imaginar: o que um estado decide cobrar de ICMS influencia no que o outro pode cobrar, gerando fenômenos pitorescos, como fazer um produto percorrer um caminho mais longo para chegar ao estado de destino a fim de capturar benefícios tributários: frete é barato, imposto é caro.

Curiosamente, em 2014, um advogado tributarista decidiu imprimir todas as leis e normas tributárias do Brasil, o que resultou em um livro de mais de 41 mil páginas e 7,5 toneladas. De lá para cá, claro, esse número apenas piorou: o país edita em média 35 normas tributárias por dia. A consequência é que as empresas gastam anualmente quase 2.000 horas e R$60 bilhões apenas para entender o que precisam pagar de imposto.

E, ainda assim, de nada adianta: todo ano, o STF decide de forma diferente sobre os mesmos assuntos. Lembre-se: no Brasil, até o passado é incerto.

A regra muda ao sabor do vento.

 

PARA ONDE VAI

 

Você já ouviu falar que a carga tributária no Brasil é comparável às dos países mais ricos, e também não é necessário ser nenhum grande especialista para saber que cobramos muito sobre o consumo e pouco sobre a renda:

 

Imposto: o que faz tudo ser mais caro no Brasil - Impostômetro

 

Arrecadação tributária sobre propriedade no Brasil é menor que sobre o  consumo - Notícias - Portal da Câmara dos Deputados

 

Como a concentração do imposto está no consumo e na folha salarial, a carga tributária recai sobre quem é assalariado e tem menos recursos: mais especificamente, uma pessoa que ganha R$1.000 por mês e consome o total deste valor paga R$750 em impostos.

E o imposto basicamente serve para pagar servidores ativos e aposentados. Em 24 dos 26 estados, o gasto com funcionalismo público supera mais da metade da arrecadação: você precisa pagar mais impostos para que eles possam contratar mais funcionários para cobrar mais impostos de você.

 

MACROECONOMIA 101

 

Fica claro que uma reforma tributária sem uma reforma administrativa é tapar o sol com a peneira.

Nos cursos introdutórios de macroeconomia, uma das primeiras coisas que se aprende é que, se você quiser desincentivar a produção de algum item, basta aumentar os impostos sobre este item.

Quando o governo decide aumentar os impostos (cujas alíquotas jamais retornam ao patamar anterior) sobre as empresas que estão lucrando mais em determinado período, a mensagem que passa é: “não monte um negócio e vá ser funcionário público”.

Veja: a grande briga na reforma administrativa é principalmente em razão de os funcionários públicos não quererem mudar as regras no meio do jogo, o que é uma demanda mais do que justa.

Seria justo pedir que as regras também fossem mantidas para aqueles que, em última análise, pagam os impostos que permitem contratá-los?

Um abraço, 

Leonardo Pontes 

 

 

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