Bridge the Cash #9 - Razão e sensibilidade

Leonardo Pontes Publicado em 02/10/2020
2 min
O que o filme Money Ball e os concursos de beleza de jornal têm a ver com o retorno dos seus investimentos? Leia a Bridge the Cash de hoje.

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O FIM DA INOCÊNCIA

Há algum tempo, saiu uma pesquisa dizendo que os homens só viram adultos aos 54 anos. O motivo é que somente nessa idade que os homens se sentem mais resolvidos, incluindo problemas com dinheiro.

É de uma injustiça absurda: todo mundo sabe que nós, homens, na verdade, nunca saímos da quinta série.

Mas se tem um assunto capaz de realmente despertar a criança interior em homens e mulheres em geral, tal assunto é o esporte. No Brasil, mais especificamente, o futebol.

Afinal, como explicar tantas emoções, gritos, xingamentos e até mesmo a sempre condenável violência, tudo por uma equipe de futebol? Na infância, poucas coisas têm tanta capacidade de despertar paixões como o esporte, com uma profunda tristeza tomando conta de quem leva um gol eliminatório aos 50 minutos do segundo tempo.

Não é de se admirar que a probabilidade e a estatística tenham demorado tanto para invadir a seara do esporte. 

O movimento, conhecido como “sabermetrics”, começou em 1971 com a Society for American Baseball Research (SABR), inaugurando uma calorosa discussão sobre se seria possível montar um time vencedor com base somente em cálculos numéricos. 

Os mais puristas, claro, advogavam que tal projeto seria ambicioso demais e, portanto, impossível. O ótimo Moneyball: O Homem que Mudou o Jogo, conta como essa história evoluiu. Leia o livro e veja o filme, que são imperdíveis, e entre aqui para acompanhar a minissérie que estamos produzindo sobre o assunto. Ela começa na semana que vem e está ficando fantástica.

>>> Entre aqui para ver o trailer

Se tudo pode ser medido e previsto, ainda vale a pena torcer?
 

O HOMO ECONOMICUS

Curiosamente, economia e finanças seguiram o caminho inverso: aqui, o princípio básico é que o ser humano é completamente racional, sem paixão, medo (ou qualquer outra emoção) e toma as decisões de forma a maximizar sua riqueza.

E, pensando assim, tudo poderia ser medido. Todas as informações estariam refletidas nos preços, fornecendo a base para a teoria dos mercados eficientes, cuja principal implicação é que é impossível superar o mercado. 

Mas a verdade é que o homo economicus não consegue explicar o comportamento do investidor... O investidor que, quando o Ibovespa bate 100 mil pontos, já começa a calcular em quanto tempo o índice vai dobrar de preço... ou que acredita piamente que o mundo caminha para total aniquilação, com todos voltando a caçar com paus e pedras, quando o Ibovespa cai a 60 mil pontos. 

Para modelar essa mudança de humor e outras anomalias do mercado, existe a economia comportamental, que entende que o ser humano vira torcedor mesmo diante de decisões de investimento (que não deveriam envolver qualquer tipo de paixão).  

Dessa forma, digamos que exista por aí um investidor capaz de fazer alocações de recursos somente para maximizar sua riqueza. Deveria ele ser muito mais bem sucedido que seus pares por vezes irracionais?

A minha primeira resposta é não: “os mercados podem permanecer irracionais por mais tempo do que você ou eu podemos ficar solventes”, disse John Maynard Keynes.

A minha segunda resposta é com certeza: alguém que vende barato para você e depois compra caro não tem como ganhar mais que você.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra: a resposta correta está na temperança.
 

CONCURSO DE BELEZA

O mesmo Keynes também comparou selecionar investimentos com a forma que as pessoas escolhiam as mulheres mais bonitas em um concurso de beleza no jornal. 

O jornal publicava fotos de centenas de lindas mulheres e pedia aos leitores para votar nas mais bonitas. O leitor cujas escolhas ficassem mais próximas das seis mulheres mais votadas pelo público em geral ganharia um prêmio. Keynes explicou: 

“Não é o caso de se escolher os rostos que, no seu melhor julgamento, são os mais bonitos, nem mesmo aqueles cuja opinião média acredita que sejam realmente os mais bonitos. Nós alcançamos o terceiro grau em que dedicamos nossa inteligência a antecipar o que a opinião média acredita que a opinião média será.”

Ou seja, você pode ganhar o concurso se conseguir adivinhar o que todos os outros pensaram, não o que você pensou sozinho.
 

É INEVITÁVEL

O erro que se pode cometer é acreditar que o mercado é sempre racional ou sempre irracional. Na maior parte das vezes, o mercado é eficiente, porque os investidores em geral tomam decisões acreditando que estão maximizando sua riqueza.

Entretanto, em determinados momentos, o mercado oferece excelentes barganhas. Warren Buffett tem um ótimo teste: apenas compre algo que você estaria perfeitamente feliz de possuir se os mercados ficassem fechados por 10 anos.

Chega a hora, portanto, em que os retornos ficam tão atrativos que os preços precisam se ajustar.

Imagine que você comprou uma ação a R$ 10 e que paga R$ 0,50 de dividendo por ação. Esta empresa foi muito bem e multiplicou seu tamanho por 20 vezes e, portanto, agora paga R$ 0,50 x 20 = R$ 10 em dividendos. Se o preço da ação não tivesse sido ajustado, o retorno de dividendos seria de R$ 10 / R$ 10 = 100% ao ano! Algum outro investidor, mais cedo ou mais tarde, ajustaria o preço do papel.

No curto prazo, o mercado faz o que quer; no longo prazo, é inevitável: ele precisa parar para pensar. 

Assim, o preço uma hora alcança o valor, que por sua vez também é fugaz, mas certamente menos sujeito a oscilações de humores ou, se você preferir, sujeito a humores menos voláteis. 

Seria uma espécie de retorno à média (ou retorno ao valor real), ou se você quiser impressionar no próximo happy hour da firma, um processo Ornstein-Uhlenbeck (garanto que é uma ótima forma de quebrar o gelo):


DISCIPLINA É LIBERDADE

Não por acaso, os maiores investidores do mundo são altamente disciplinados. Os estilos variam: técnicos, fundamentalistas, quants; porém, a abordagem é sistemática.

Eles seguem uma receita que acreditam, mas, assim como os melhores chefes de cozinha, em algum momento modificam o tempero para o prato ficar mais ao seu gosto.

Veja: eles não começam fazendo as coisas de qualquer jeito, rezando para achar uma forma que funcione. O processo é o inverso. Primeiramente, disciplina. 

Você jamais vai querer que seu portfólio leve um gol eliminatório e, quanto mais próximo do final da partida, pior: menos tempo para se recuperar. Sua torcida não muda nada em relação a isso.

Investimento tem que ser igual aos estádios na pandemia: sem torcida. Deixe para torcer quando seu time jogar. E venha comigo na websérie QUANT.

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